“Cide? Que alegria!” Assim se iniciavam as conversas entre Leonardo Fróes e o editor Cide Piquet, responsável pela organização, em um só volume, da poesia do autor e, agora, dos ensaios. “Todas as vezes em que o visitei, quando eu acordava, já o encontrava sentado na poltrona, lendo, desde cedo até a hora do almoço, e também à tarde”, conta Piquet, em entrevista ao Pensar.
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“Ele gostava de contar histórias sobre a sua vida, sobre a mudança para o sítio (em Secretário), os aprendizados com a natureza e com a gente simples do interior, reflexões sobre literatura, poesia, tradução, histórias de escritores, amigos...”, lembra o editor da 34. “Lembro-me de ele contar como, ao se mudar para o sítio, seguindo seu sonho de viver como poeta, as coisas foram dando certo sem planejamento. Ele dizia que, se a gente se entrega ao fluxo da vida, as coisas acontecem naturalmente, como na própria natureza. Uma fé no caminho, algo bem taoísta”, complementa.
Piquet passou a enviar livros da Editora 34 para o poeta, que dizia já ter lido e relido todos da sua biblioteca. “Lia tudo o que eu mandava com grande interesse e comentava sobre as traduções, os novos lançamentos de poesia, etc”, revela. A lembrança mais marcante que Piquet guarda do poeta fluminense, nascido em Itaperuna em 1941 e que morreu no ano passado aos 84 anos, não é uma história. “É o seu temperamento alegre a afetuoso: seu interesse pela vida, pela natureza, o sorriso sempre aberto, o valor que dava às amizades”.
Leia, a seguir, a entrevista de Cide Piquet sobre a organização de “Poesia reunida” e de “O fascínio das palavras: ensaios de literatura”.
Como foi a experiência de editar “Poesia reunida”? Como foram os diálogos com Fróes para a edição?
Foi uma experiência muito gratificante, por vários motivos: por me permitir mergulhar e conhecer a fundo a obra poética do Fróes; pelo privilégio de vir a me tornar seu amigo, pois foi uma das pessoas mais interessantes que já conheci; e ainda por ter podido ajudar a dar mais destaque e reconhecimento à obra dele, o que lhe trouxe grande alegria nos últimos anos de vida.
Nossos diálogos foram muito fáceis desde o começo. Ele ficou extremamente feliz com a perspectiva de ter, aos 80 anos, toda a sua poesia reunida por uma editora como a 34. Não era um autor exigente, a única coisa que pediu foi que evitássemos quebrar os versos mais longos dos poemas na diagramação do livro, e aceitou todas as minhas sugestões para a organização do livro. Muito gentil, me pediu para escrever o texto de apresentação do volume.
Começamos a conversar em 2020, durante a pandemia de Covid, por e-mail e telefonemas. Naquele momento de isolamento, o contato com a poesia do Fróes foi um verdadeiro alento, pois é uma poesia aberta à vida e às lições da natureza, inspirada e bem-humorada. Logo depois, fui visitá-lo em Petrópolis e no sítio em Secretário, rapidamente ficamos amigos e passei a visitá-lo, a ele e Regina, sua esposa, sempre que podia.
O que norteou a edição dos ensaios de “O fascínio das palavras”? Por que afirma que “têm um certo tom de conversa”?
Como comento no texto de apresentação, desde que editei a “Poesia reunida” passei conhecer melhor a obra do Leonardo, suas traduções, ensaios, textos jornalísticos etc. E tudo o que eu lia me impressionava pela qualidade. Daí me veio a ideia de reunir seus textos sobre literatura, o que nunca tinha sido feito. Ele ficou empolgado com a proposta e fez ele mesmo uma seleção inicial, à qual depois eu acrescentei mais alguns textos. Infelizmente, ele faleceu antes de ver o livro pronto.
Digo que têm um tom de conversa como um elogio à leveza do estilo do Leonardo, à liberdade e ao prazer que os textos transmitem; ao fato de ele citar experiências pessoais, de se colocar em primeira pessoa nos ensaios... Quando o autor escreve com prazer, o leitor sente isso. E não há uma página desses ensaios que não se leia com prazer, o que é raro nesse tipo de escrita ensaística.
Você apresenta os ensaios que relacionam literatura e natureza como um tema central na obra, pensamento e vida de Fróes. O que é recorrente e mais marcante nessa relação? No sítio em Secretário, ele vivia o que escrevia e escrevia o que vivia?
Veja, ele vai morar no campo em 1970 para poder se dedicar à literatura e para poder levar uma vida de artista, digamos, e não de funcionário. Na época, ele era editor de uma grande editora, ganhava bem, mas não era essa a vida que queria; queria viver sem as máscaras que a sociedade nos obriga a usar. Esse tema aparece com frequência nos seus poemas e também nos ensaios.
A natureza vai ser então esse lugar de liberdade na busca por uma existência mais autêntica, mais serena e mais conectada com a sua própria essência, o que na azáfama da vida urbana é difícil de realizar. No sítio, com Regina, vai aprender a plantar, lidar com a terra, a construir, fazer trabalhos manuais etc. Vivendo em contato direto com a natureza, ela entra naturalmente na poesia e nas outras atividades que exerce. Eu escrevi sobre isso na apresentação à “Poesia reunida”. Por exemplo, numa época em que pouco se falava de ecologia, o Fróes assinou uma coluna sobre plantas, de 1971 a 1983, no Jornal do Brasil e no Jornal da Tarde. Nesse sentido, sim, ele vivia o que escrevia, mas não escrevia só sobre isso. Aliás, ele não gostava de ser lido apenas como um “poeta da natureza”, se via mais como um poeta filosófico, com o que eu concordo.
Eis um poema que resume bem a questão:
DERIVAÇÃO DE LI P’O
Perguntam-me por que moro aqui nos morros azuis.
Minha resposta é o meu sorriso.
Meu espírito conhece aqui
a serenidade.
O rio e a flor de pêssego passam sem deixar vestígio.
Acho que o grande mundo dos homens não deve ser como este.
Poderia reproduzir um poema de Fróes que dialoga com a visão de natureza que ele registrou nos ensaios?
Vou dar um único exemplo. No ensaio “Uma aprendizagem de desaprender”, sobre Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Fróes escreve: “Na contemplação da Natureza, segundo o testemunho de Caeiro, o pensamento se congela, porque pensar, nesse momento, atrapalha, e é também conveniente que nossos sentimentos se mantenham à parte, tendo-se em vista que o que há neles de ilusório e mutável pode contaminar a apreensão do real.”
Ideia muito próxima ele mesmo elabora em seu poema “O observador observado”:
Quando eu me largo, porque achei
no animal que observo atentamente
um objeto mais interessante de estudo
do que eu e minhas mazelas ou
imoderadas alegrias;
e largando de lado, no processo,
todo e qualquer vestígio de quem sou,
lembranças, compromissos ou datas
ou dores que ainda ficam doendo;
quando, hirto, parado, concentrado,
para não assustá-lo, com o animal me confundo,
já sem saber a qual dos dois
pertence a consciência de mim —
— qualquer coisa maior se estabelece
nesta ausência de distinção entre nós:
a glória, a beleza, o alívio,
coesão impessoal da matéria, a eternidade.
Surgem, ao longo do livro, como você define, “finas e saborosas reflexões sobre teoria e prática da tradução e sobre o ato da escrita”. Poderia citar algumas delas?
Há muitas. Sobre tradução, por exemplo, toda a resenha “Byron e a tradução insubmissa” e todo o ensaio sobre as traduções de Manuel Bandeira, que acho um dos melhores do livro.
No ensaio sobre Bandeira: “Ao partilhar do sentimento de que nasce o poema, o poeta-tradutor entra na essência da forma para revalidar sua razão de ser. Percebe na beleza da forma algo que sua própria sensibilidade já desejava plasmar. Se é, por ser tanta a emoção, levado a reproduzi-la, opera depois do alumbramento como qualquer artesão que produz um duplo por cópia. Primeiro tem de desmontar o objeto, peça por peça, para ver como funciona. Certificando-se de como as partes se encaixam, fará depois, em dúvida, muitas tentativas inúteis. Talvez até se desespere e conclua: é, não dá para transfundir, transcriar, transliterar, traduzir. Em todo caso, se ele vencer a indecisão, se enfim nos der a forma nova talhada sobre matriz estrangeira, dar-nos-á a rigor uma outra coisa, um produto que nunca tinha existido.”
Sobre poesia, os textos sobre Gerard Manley Hopkins, Eliot, poesia chinesa e Simbolismo são pratos cheios:
Hopkins: “Com idêntica segurança ele garantiu que a poesia existe em três patamares: o da inspiração, que é o único realmente autêntico e tem por virtude elevar o poeta acima de seus próprios limites; o parnasiano, que é uma espécie de maneirismo articulado pela decisão de continuar escrevendo e que em geral leva o poeta a se repetir sem grandeza; e o délfico, que é apenas a linguagem que tenta, por estar grafada em versos, distinguir-se fisicamente da prosa. Essa tabela [...] é também uma das peças que mostram a variedade de antevisões de Hopkins, pois não deixa de ter afinidade com a conhecida classificação dos autores — em inventores, mestres, diluidores etc. — feita por Ezra Pound no ‘ABC of Reading.”
Elizabeth Barrett Browning: “Falta à poesia o caráter utilitário que dá à prosa descritiva uma função social. Ela é inconsequente, sendo forma de prazer, e por ser gesto em liberdade não depende de metas. Nada, em síntese, a poesia tem a operar. Faltam-lhe obrigações.”
“Simbolismo” (que cito na Apresentação): “Não há como dizer o que se sente, o que há em nós de mais íntimo. Há um muro de incomunicabilidade entre os homens. Por que então continuar escrevendo, se o próprio pensamento nos diz que nem pensar adianta e que todo entendimento é uma satisfação provisória? Talvez para insinuar a quem ouve, a quem tem a paciência de ouvir, que por baixo das palavras se aninha um sentimento incomum. Quando ele se torna possível, parece que existir vale a pena. Não importam as guerras, os delírios, os erros, as figurações demoníacas, os papéis que teremos de desempenhar a contento. Nem sequer importam os acertos e a paz. Agora, nesse ninho que explode, fomos projetados além. Conhecemos, ao viver o sentimento poético, uma impressão incalculável de desapego e prazer, e só por isso se faz o desabafo inútil.”
Depois de editar os ensaios, o que mudou na sua visão da poesia de Fróes?
Não diria que mudou, mas a leitura dos ensaios me permitiu compreender melhor a poesia e o pensamento do Leonardo. Num ensaio dedicado a Walter Benjamin, “Sob o signo de Saturno”, que trata da melancolia, Susan Sontag diz que “Benjamin projetou a si mesmo, seu temperamento, em tudo sobre o que escrevia”, e mostra como ele analisa esse traço em autores como Baudelaire, Proust, Kafka... É interessante observar quem são os autores e temas que o Fróes aborda em seus ensaios. Em lugar dos melancólicos que interessam a Benjamin, ele prefere os loucos, os dissidentes, os viajantes, os românticos, filósofos e místicos, como D. H. Lawrence, os beatniks, Bashô, Byron, Yeats, Fagundes Varella, Thomas Merton... Em suas análises sobre cada um desses autores, percebemos afinidades com o pensamento e a poética do próprio Fróes. Afinal, sempre nos interessamos por objetos que nos refletem ou que nos dizem respeito de alguma maneira.
“A dificuldade de enquadrar-se, mesmo sob um belo ideal, parece intrínseca a uma família de tipos que leva a cruz da solidão entre as maiorias ordeiras, dando porém à humanidade, nesse esforço, seus reservatórios pessoais de argúcia crítica e dúvida. Suicidas e loucos, hereges e dissidentes, poetas e taciturnos pertencem por sua índole a essa família desgarrada dos temperamentos anômalos, que nem precisam produzir grandes obras para serem artísticos. Um estranhamento quase orgânico dos alvos e das constrições sociais é que separa do rebanho as ovelhas mais sensitivas e as faz viver perturbadores momentos de introvisão e deslumbre — os mesmos que estão na origem da criação de significado ou beleza e que suplantam por sua intensidade o valor da obra pronta.” (“O socialismo artístico”)
De onde vinha o fascínio que as palavras exerciam em Fróes?
Das leituras, certamente. Lembro-me de ele contar como, pré-adolescente, ficava hospedado num quarto na casa de um tio que tinha todos os livros de Machado de Assis, que ele devorou um após o outro. Mencionava também a importância da formação que teve no Colégio D. Pedro II. Foi aí que conheceu, como ele dizia, os “mestres modernistas”: Drummond, Bandeira etc., que despertaram sua vontade de ser poeta, e aprendeu inglês, francês, alemão. “Devo tudo à formação que tive lá, saí de lá pronto”, dizia.
Mas se o fascínio pelas palavras vinha dos livros, a poesia em si, segundo ele, vinha não se sabe de onde. Ele dizia que os poemas “baixavam”, ele os escrevia e depois lapidava, mas que chegavam quase prontos.
No final da vida, quando lhe perguntavam se ainda escrevia poesia, ele dizia que não, porque eles não vinham mais e ele não via sentido em forçar a barra. Como disse o Leonard Cohen: “Se eu soubesse de onde vêm as canções, eu iria para lá com mais frequência”.
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“só as aves entendem/ o que estou olhando ao longe,/ sem pensar mas sentindo/ minha insignificância perfeita” (“Passamanaragem”)
