Yuri Quevedo - Especial para o Estado de Minas
Ao longo do século 20, poucas tecnologias transformaram tão profundamente a experiência cotidiana quanto o automóvel. Sua história, contudo, não pode ser compreendida apenas pela indústria que o produziu ou pelas cidades que ajudou a construir. Ela depende também do momento em que esse objeto deixa a fábrica e passa a ocupar as ruas, integrando-se ao trabalho, às viagens, às festas populares, às manifestações religiosas, ao futebol e às formas de convivência que constituem a vida coletiva. Uma das maneiras de compreender a especificidade da rua no Brasil é observar esse processo, no qual a técnica deixa de pertencer exclusivamente ao universo da produção para tornar-se experiência cultural.
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As obras reunidas em “Celebrar as ruas” partem justamente dessa transformação. Em vez de narrar uma história da indústria automobilística ou da urbanização brasileira, a exposição procura acompanhar a trajetória cultural do automóvel. Ao longo do percurso, esse objeto muda continuamente de condição. Primeiro existe como projeto; depois, como produto industrial; em seguida, reorganiza a paisagem urbana, participa de procissões, carnavais e campeonatos de futebol, acompanha viagens e, por fim, volta a habitar a imaginação. Mais do que contar a história de uma tecnologia, a exposição procura compreender como um objeto industrial foi sucessivamente apropriado pela cultura, adquirindo significados que ultrapassam em muito sua função original.
Essa trajetória parte dos grandes projetos de estruturação territorial que marcaram o Brasil a partir da década de 1950. As fotografias de Marcel Gautherot, Thomaz Farkas e do Studio Cerri aproximam Brasília e a fábrica da Fiat em Betim como duas faces de um mesmo processo histórico. Embora registrem programas distintos, suas imagens compartilham um mesmo repertório visual, no qual grandes estruturas modernas parecem surgir em paisagens quase desertas, como se inaugurassem um novo território. Enquanto a nova capital reorganizava o território nacional, o complexo industrial mineiro consolidava a capacidade produtiva que sustentaria a expansão da mobilidade no país. Cidade e fábrica revelam, assim, um imaginário comum, no qual urbanização, indústria e tecnologia aparecem articuladas como instrumentos de desenvolvimento.
Esse projeto ganha materialidade no interior da fábrica. Em “Fábrica de automóveis”, Djanira observa a linha de montagem como um sistema organizado de gestos, ritmos e funções, em que a produção industrial aparece como uma forma de ordenação da vida coletiva. As fotografias da fábrica da Fiat e os desenhos industriais ampliam essa perspectiva ao revelar o rigor técnico necessário para transformar projetos em objetos. Nesse momento da exposição, o automóvel ainda pertence ao universo da indústria. É resultado de um conjunto de soluções de projeto e da coreografia ordenada dos movimentos de máquinas e gente.
Mas a história do automóvel muda quando ele atravessa os portões da fábrica.
Ao chegar à cidade, o automóvel deixa de ser apenas um produto industrial para tornar-se um agente da experiência urbana. Nos trabalhos de Yara Tupinambá, Cícero Dias e Madeleine Colaço, vemos diferentes maneiras de fabular a urbanidade brasileira, equacionando natureza e construção por meio de um lirismo que frequentemente assume feições pitorescas e, por vezes, aproxima-se do folclore. Mesmo na pintura de Tarsila do Amaral, onde vemos apenas a natureza, a geometrização das formas — desenvolvida pelas vanguardas europeias para dar conta da experiência da cidade industrial — é mobilizada para conferir exuberância à paisagem tropical, sem deixar de inscrever nela as marcas da modernização urbana. É apenas em Amadeo Lorenzato e Otaviano que o automóvel passa a integrar efetivamente essa paisagem. Suas pinturas registram uma cidade organizada pela circulação, onde o veículo participa da construção da experiência urbana e da convivência entre diferentes temporalidades. Nelson Leirner e Leda Catunda fazem humor a partir do imaginário que a cultura de massa e o automóvel urbano produziram. Em seus trabalhos, o carro deixa de ser apenas um elemento da paisagem para tornar-se um dado incontornável da experiência urbana, a partir do qual ambos reinventam convenções da própria história da arte. Já Emmanuel Nassar e Gilberto Filho recompõem a cidade por meio de seus próprios fragmentos — a madeira colonial do sítio histórico de Cachoeira, no caso de Nassar, e o ferro-velho dos grandes centros, no de Gilberto Filho — lembrando que toda paisagem urbana é resultado de permanências, desmontagens e reconstruções sucessivas.
Mas a transformação do automóvel não se completa na cidade. Ela se realiza na rua. É nela que esse objeto deixa de ser apenas um elemento da paisagem para tornar-se participante da vida coletiva. Nas obras de José Antônio da Silva, Iaponi Araújo, José Luiz Soares e Babalu, procissões, festas populares e celebrações religiosas suspendem a lógica cotidiana da circulação e transformam o espaço público em lugar de encontro, pertencimento e memória. Cláudio Tozzi apresenta um contraponto a essa dimensão comunitária ao representar multidões marcadas pela repetição e pelo anonimato característicos da metrópole moderna. Entre essas diferentes formas de ocupar o espaço público, o Fiat Idea utilizado pelo Papa Francisco durante sua visita ao Brasil, em 2013, sintetiza de maneira exemplar a transformação acompanhada ao longo da exposição. Produzido como objeto industrial, ele torna-se testemunha de uma experiência compartilhada. Seu valor já não reside apenas nas soluções técnicas que o constituem, mas nas memórias e afetos que passou a carregar.
Quando a celebração ocupa as ruas, o automóvel muda novamente de condição. As fotografias de Marcel Gautherot retornam, agora registrando a vibração das festas populares brasileiras. Aproximar o fotógrafo de Brasília daquele interessado na vida das ruas pelo país é reconhecer que ambas as séries pertencem a um mesmo projeto de documentar a modernidade brasileira. Se antes ela se manifestava na construção de uma nova capital, agora aparece nas formas pelas quais a população ocupa e reinventa o espaço público. Essa transformação é reiterada pelas pinturas de Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres, Bajado, Maria Auxiliadora e Sergio Vidal, que observam o carnaval converter a cidade em espaço de invenção coletiva, onde o movimento deixa de responder apenas às exigências da circulação para organizar-se segundo os ritmos da festa. O automóvel aproxima-se do carro alegórico, das arquiteturas efêmeras e do espetáculo popular, tornando-se parte da própria celebração. Síntese desse percurso, a maquete da Marquês de Sapucaí construída por Adauto Fernandes condensa em miniatura um dos movimentos centrais da exposição. Nela, a comissão de frente transforma a tecnologia de ponta da Fórmula 1 em alegoria carnavalesca, fazendo de carros e pilotos — recriados manualmente — matéria para a imaginação popular.
Na parte da exposição dedicada ao futebol, encontramos obras de artistas que lidaram com o jogo como representação da sociedade brasileira. Seja celebrando a paixão pela bola como definidora de um caráter nacional, seja, de maneira mais complexa, espacializando no jogo as contradições e sínteses que caracterizam a vida neste país. As obras de Antônio Poteiro, Candido Portinari, Ana Vitória Mussi, Vicente do Rego Monteiro, Rubens Gerchman e Froiid mostram que o futebol nunca pertenceu apenas ao campo. Em diferentes momentos da história da arte brasileira, ele se torna o espaço onde desejos, conflitos e formas de convivência encontram expressão. O documentário Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade, leva essa percepção ao limite ao alternar continuamente o olhar entre o craque e a torcida, revelando que o espetáculo do jogo acontece tanto no gramado quanto na audiência que o vive apaixonadamente.
Se no futebol os desejos de uma coletividade se espacializam no jogo, nas obras de Regina Vater e Cybèle Varela eles passam a materializar-se no próprio corpo. O corpo transforma-se no campo de disputa entre a repressão conservadora e os avanços sociais — e escolher o próprio caminho torna-se, aqui, um gesto político.
É justamente a partir daí que a viagem deixa de ser apenas deslocamento para tornar-se metáfora da escolha dos caminhos. Nas obras de Marcos Siqueira, Amadeo Lorenzato, Alberto da Veiga Guignard, Alfredo Volpi e Vânia Mignone, viajar significa construir relações com a paisagem, seja ela interior ou exterior. O percurso produz memória, contemplação e descoberta, mas também uma consciência do todo. A experiência da mobilidade desloca-se da cidade para o sujeito, e o automóvel passa a mediar essa relação entre corpo, território e liberdade.
Toda viagem pressupõe um horizonte. Por isso, a exposição encerra-se onde começou: diante de um automóvel que ainda não existe. Os astronautas de Cláudio Tozzi recuperam um momento em que o futuro parecia inseparável do avanço tecnológico e da conquista espacial. Antonio Poteiro imagina outra cosmologia possível, onde céu e terra, cotidiano e fantasia comungam uma mesma paisagem estranhamente prosaica. O Fiat Mio encerra esse conjunto devolvendo o automóvel à condição de projeto. Já não o projeto moderno que organizava Brasília ou a fábrica da Fiat em Betim, mas um projeto construído coletivamente, resultado da participação de milhares de pessoas que imaginaram novas formas de mobilidade.
Ao longo desta exposição, um mesmo objeto atravessa sucessivamente o projeto, a fábrica, a cidade, a festa, a viagem e a imaginação. Em cada uma dessas etapas preserva sua identidade material, mas adquire novos significados. Primeiro é desenho; depois, produto industrial; em seguida, elemento da paisagem, testemunha de acontecimentos coletivos, alegoria carnavalesca, companheiro de viagem e, por fim, exercício de imaginação. Não a história de um automóvel, mas a história do momento em que um objeto produzido pela indústria passa a integrar o repertório simbólico, afetivo e cultural de uma sociedade. A rua não é apenas o lugar por onde ele circula. É o lugar onde ele se transforma.
YURI QUEVEDO é curador da exposição “Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade na Casa Fiat de Cultura”
“Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade na Casa Fiat de Cultura”
Casa Fiat de Cultura
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Em cartaz até 11 de outubro de 2026
