Maria Fernanda Vomero - especial para o Estado de Minas 

Já faz algum tempo que sigo a pista do escritor mexicano Yuri Herrera e de seus livros. Em razão de vínculos profissionais e afetivos com o México, acompanho com interesse a produção de autoras e autores contemporâneos do país. Herrera é, certamente, um nome sólido na cena literária mexicana – seja pelo trabalho de linguagem, que se apoia na oralidade e no léxico das ruas, seja pela simplicidade apenas aparente de suas narrativas, que trabalham com temas estreitamente vinculados à realidade mexicana. 

Entrevista: Yuri Herrera: 'Me interessa falar do fenômeno dos homens poderosos'

Por isso, celebro a publicação no Brasil de “Trilogia mexicana” (Amarcord), que reúne em um único volume três romances curtos de Herrera: “Trabalhos do reino”; “Sinais que precederão o fim do mundo” e “A transmigração dos corpos”, todos com tradução de Rachel Gutiérrez. Segundo Herrera, os romances não foram concebidos como uma trilogia. Cada história foi criada de modo independente. No entanto, as três narrativas compartilham elementos que permitem agrupá-las. Por exemplo, a atuação do narcotráfico – jamais referido como tal, aliás –, como pano de fundo. Ou o imaginário que cerca a fronteira entre México e Estados Unidos, sem que os países sejam nomeados nos textos.

Os protagonistas de Herrera estão distantes de qualquer modalidade usual de heroísmo na literatura. São figuras que circulam pelas margens da sociedade. No entanto, suas jornadas não deixam de ter algo de aventureiro, transgressor e quase arquetípico. O Artista, Makina e o Alfaqueque enfrentam desafios bem concretos, cada qual a seu modo, em ambientes nos quais a hierarquia é bem-marcada e as instâncias de poder cobram submissão. Nenhum deles, porém, se deixa subjugar.

Em todos os textos, a narração é ágil, em terceira pessoa e, embora acompanhe com simpatia os protagonistas, não se detém em traços psicológicos ou aprofundamentos subjetivos. Oferece, em seu lugar, pinceladas certeiras sobre cada personagem e precisão descritiva dos espaços por onde circulam – o suficiente para que o enredo avance.

“Trabalhos do reino”

O livro de estreia de Herrera foi publicado no México em 2004 e ganhou reedição em 2008 por uma editora espanhola. Nele, Lobo, um jovem músico e compositor de “corridos” – músicas narrativas bastante populares nas quais se exaltam figuras e feitos – ganha a vida tocando acordeão em cantinas. Abandonado pelos pais na infância, pois ambos cruzaram “para o outro lado”, Lobo cresceu fascinado pelo Rei, o todo-poderoso local, e por seu palácio. Por uma casualidade, consegue se integrar à Corte, onde recebe a alcunha de Artista. 

Pelo palácio, circula um conjunto diverso de tipos – entre capangas, aduladores e prostitutas, há o Médico, o Jornalista etc. Não têm nome próprio, pois vivem à sombra do Rei. São conhecidos conforme a tarefa ou a atividade que executam. O Rei e seu séquito nutrem-se da ostentação. A alusão ao suntuoso estilo de vida dos líderes dos grandes cartéis mexicanos é evidente, embora não haja referência explícita ao tráfico de drogas. O que interessa ao autor é dissecar o jogo de poder operante naquele microcosmo e os dilemas éticos que o Artista passa a enfrentar.

“Sinais que precederão o fim do mundo”

O instigante título já oferece uma possível chave de leitura. Publicado em 2009, o romance abre com sua protagonista, Makina, dizendo-se: “Estou morta”, quando um imenso buraco se abre no chão e por pouco não a engole. O tom inicial parece anunciar a presença de elementos apocalípticos ou fantásticos na narrativa, mas o que vem a seguir assemelha-se mais a um realismo com substrato mítico. 

A jovem é incumbida pela mãe de atravessar a fronteira e trazer de volta o irmão mais velho, que migrou para o outro lado a fim de reclamar um terreno supostamente legado pelo pai deles. Makina deixa sua cidade de origem, passa pelo Grande Chilango (referência à Cidade do México) e chega à fronteira. Ela avança em sua missão conforme cumpre certas instruções ou tarefas específicas que lhe são dadas durante o caminho. 

No país gringo, a jovem encontra diversos compatriotas e vai se dando conta das ilusões e dos infortúnios que cercam a migração mexicana aos Estados Unidos. Os títulos dos capítulos aludem às etapas da travessia de Makina. Também evocam os nove níveis do inframundo da mitologia mexica (povo originário da região central do México), denominado Mictlán – o lugar do eterno descanso dos mortos, alcançado depois de uma desafiadora jornada.

“A transmigração dos corpos”

A história se passa em cenário sombrio: a cidade está em estado de emergência, sob a epidemia de um vírus desconhecido. A ordem governamental é que todos permaneçam em casa e, se precisarem sair, que usem obrigatoriamente máscaras. O romance, publicado em 2013, parece antever a pandemia de Covid 19. Nesse cenário, o espirituoso protagonista Alfaqueque, que atua como mediador de litígios entre os poderosos locais, recebe a tarefa de averiguar o sequestro de dois jovens, cada qual refém da família inimiga, e conduzir a posterior “troca”.

Entre as três narrativas, esta é provavelmente a mais bem-humorada. E, embora lide com questões sobre a arbitrariedade do poder e as políticas de morte, apresenta boas doses de erotismo, o que dá certo respiro ao enredo. Aproxima-se das histórias de gângsters – com uma trama de ressentimento e vingança –, mas seu protagonista, em vez de durão como certo tipo de detetive da ficção policial, é um exímio argumentador.

Com exceção dos jovens e dos patriarcas, as demais personagens não têm nome próprio, mas sim apelidos que sintetizam (e ressaltam) características peculiares. No caso de Alfaqueque, a referência é também histórica: o termo diz respeito ao indivíduo que negociava o resgate de cativos ou de prisioneiros de guerra. Ele, como o Artista e Makina, consegue pensar por conta própria e manter uma postura ética que desafia o senso comum que o cerca. 

“Trilogia Mexicana”

• De Yuri Herrera

• Tradução de Rachel Gutiérrez

• Amarcord

• 336 páginas

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• R$ 89,90

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