Em “As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita”, o corpo parece ser ao mesmo tempo uma prisão e um exílio ou refúgio para as mulheres. Como surgiu a notável ideia de associar partes do corpo às diferentes formas de opressão feminina pelo machismo e o patriarcado? 

Primeiramente, é importante dizer que trabalhar através do corpo é uma prática profundamente ligada à escrita feminista. Isso tem a ver com o fato de que a mulher retorna à sua subjetividade diretamente através do corpo, o que também explica por que a literatura feminista é tão frequentemente centrada nele — e, justamente por isso, tantas vezes alvo de críticas. Não posso dizer que sou inovadora nesse sentido. Parece-me que muitas escritoras feministas trabalham a partir do corpo: Audre Lorde, Maya Angelou, Toni Morrison… Trata-se de uma grande tradição. No meu caso, porém, considero o corpo como uma herança, um tesouro — não apenas o corpo individual, mas o corpo de todas as mulheres enquanto representantes de um mesmo gênero. Quando comecei a pensar o corpo a partir dessa perspectiva, passei a escrever não apenas sobre o meu corpo, mas também sobre o corpo das minhas avós e da minha mãe. E, inevitavelmente, emergiram as experiências de violência e opressão às quais esses corpos foram submetidos. Compreendi então que não tinha o direito de ignorar ou censurar essas experiências. Ao contrário: era necessário expressá-las, porque, infelizmente, ser mulher significa enfrentar agressões ao corpo, através do corpo e dirigidas ao corpo. Assim, tudo aconteceu de forma bastante orgânica. Não foi algo planejado previamente, mas um caminho que surgiu naturalmente ao seguir essa lógica do corpo — não apenas do meu, mas do corpo de todas as mulheres. Em um momento do livro, escrevo justamente que, quando batem em uma de nós, todas sentimos. Trata-se de uma imagem circular de uma violência contínua exercida contra o corpo feminino. 

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Na página 102: “Queria finalmente romper o círculo vicioso da punição, abrir nossas bocas firmemente costuradas para gritar nossa existência e a existência de mães, avós, irmãs, amigas”. A sua experiência pessoal e o livro são referências e porta-vozes desse grito para as mulheres? 

Sim, com certeza. Quero que meus livros sejam lugares de refúgio para as mulheres, espaços nos quais elas possam se sentir seguras. Nesse sentido, torna-se muito importante representar a experiência feminina, inclusive as pressões constantes e as dificuldades com as quais tantas mulheres convivem. Eu escrevo sobre mulheres azerbaijanas e sobre a experiência de mulheres educadas em contextos ligados à cultura turca de maneira mais ampla — e esse tipo de experiência é extremamente recorrente. Essas mulheres vivem sob uma pressão patriarcal permanente; o patriarcado, nessas sociedades, continua sendo muito forte. Muitas vezes, elas se tornam vítimas de violência física. E, ao mesmo tempo, por terem crescido em ambientes marcados por regras extremamente rígidas, em certos casos acabam também internalizando essa violência e voltando-a contra si mesmas. Para mim, é muito importante mostrar todas essas camadas da experiência feminina: dar voz àquelas que foram silenciadas e não tiveram a possibilidade de falar abertamente, mas também mostrar como a violência gera novas formas de violência. Dentro dessa lógica, aquela que hoje é vítima pode, amanhã, tornar-se também fonte de agressão. Essa é uma das tragédias do patriarcado: ele não produz apenas sofrimento individual, mas reproduz continuamente mecanismos de violência dentro das próprias relações humanas. 

Diáspora é uma palavra muito citada no livro. No caso da protagonista, ela vive diásporas diversas: a territorial Rússia/Azerbaijão, a familiar e duas pelo corpo feminino e pelo corpo doente, devido à distonia, a doença neurológica que a afeta. Como você enfrenta as suas diásporas? 

Eu me considero, antes de tudo, uma habitante da fronteira. Talvez eu me definisse como uma espécie de “trickster”, alguém que existe entre mundos: entre a cultura russa e a azerbaijana, entre um idioma e outro, entre diferentes experiências — inclusive entre a experiência de um corpo saudável e a de um corpo disfuncional. E é curioso pensar nisso porque a distonia é uma doença progressiva: ela faz com que a pessoa perca gradualmente certas capacidades e funções. Isso não acontece de forma brusca, mas lenta. Algumas coisas começam simplesmente a desaparecer. E esse também é um estado muito particular, porque você ainda se lembra do que significa habitar um corpo saudável, mas, aos poucos, começa a perder essa memória. Existe também a ilusão criada pelo neuroestimulador, porque ele devolve temporariamente muitas capacidades. Assim, quando ele está funcionando, eu me percebo como uma pessoa plenamente funcional e saudável. Mas, na realidade, não sou, porque a doença continua progredindo. Se eu desligar o estimulador, já entro em um estado de limitação bastante severa. Esse estado de fronteira é, por um lado, profundamente dramático, porque você não consegue pertencer integralmente a nenhum desses mundos. Você se torna inevitavelmente um pouco diferente de todos. Mas, por outro lado, com o tempo comecei a perceber que essa condição também pode ser uma vantagem, porque ela te oferece a possibilidade de atravessar fronteiras, de ser esse “trickster”, capaz de transitar de um mundo a outro sem grandes obstáculos.

Na página 107: “Deixo de ser mulher se recuso o papel de mãe e esposa?” A opressão e a violência doméstica contra as mulheres parecem ser predominantes em todas as civilizações. Na sua opinião, existe um ódio ancestral até o dia de hoje contra as mulheres? 

Acho que o principal problema — e também a principal nuance — está no fato de que a violência começa a ser associada à cultura. Muitas vezes ouvimos homens dizerem que batem em suas esposas porque foi assim que seus pais e avós fizeram, como se isso fosse parte de sua cultura. Com frequência, representantes de culturas caucasianas, por exemplo, justificam a violência como elemento da tradição ou da cultura. Mas, na minha opinião, a violência não pode fazer parte da cultura em hipótese alguma. A violência não pode ser parte de nenhuma cultura. O que aconteceu foi que, em determinado momento, ela se tornou um instrumento extremamente eficaz de controle e opressão. A violência oferece a possibilidade de alcançar poder e dominação, e é justamente por isso que os homens tentam continuamente legitimá-la e explicá-la através da cultura e da tradição. Não devemos considerar a violência como parte de qualquer tradição. Ao contrário: toda cultura e toda tradição deveriam colocar em questão qualquer forma de violência, porque ela é utilizada por aqueles que desejam exercer poder, controlar, dominar e impor regras. Isso não tem relação verdadeira com cultura ou tradição. A violência possui uma história muito longa. O patriarcado não surgiu ontem ou anteontem; trata-se de um fenômeno antigo e profundamente enraizado. A violência está ligada, por um lado, ao patriarcado, mas, por outro, também à colonização. O período do colonialismo histórico legitimou amplamente a violência contra outros povos, sob o argumento de que essas pessoas eram “inferiores”ou sequer plenamente humanas. E, nesse sentido, a mulher também foi historicamente colocada fora da norma. Um exemplo muito evidente disso é a medicina. Uma enorme quantidade de medicamentos e de conhecimentos médicos foi desenvolvida a partir do corpo masculino. Os sintomas do infarto, por exemplo: já se sabe há muito tempo que os sintomas nas mulheres não são iguais aos dos homens. Aquela dor irradiando para o braço esquerdo é um sintoma recorrente em corpos masculinos. As mulheres frequentemente apresentam manifestações completamente diferentes de um infarto, mas sabemos muito pouco sobre isso, porque houve pouco interesse em estudar as doenças a partir do corpo feminino. Da mesma forma, a maioria dos medicamentos foi testada apenas em corpos masculinos; muitos jamais foram adequadamente testados em corpos femininos. Esse sexismo e esse preconceito contra as mulheres são extremamente antigos e estão tão profundamente enraizados em nossos sistemas de representação, conhecimento e instituições que a mulher ainda não é considerada uma norma. Durante muito tempo, inclusive na medicina, o corpo masculino foi tratado como padrão universal, enquanto o corpo feminino era visto como um desvio dessa norma. Assim, respondendo à sua pergunta: parece-me que o ódio contra as mulheres é um fenômeno muito antigo, mas ele jamais pode ser justificado pelo fato de estar enraizado na cultura. Essa justificativa foi construída por aqueles que desejam manter o poder. 

O pertencimento do corpo é um caminho para as mulheres enfrentarem o patriarcado e se libertarem? Você tem esperança para um futuro, mesmo distante, de mais igualdade e respeito, inclusive na Rússia hoje dominada por Putin? 

Eu acredito, sem dúvida, que a liberdade passa pelo corpo. No início da nossa conversa, mencionei como é importante para a mulher retornar à sua subjetividade através do próprio corpo. Porque, infelizmente, todos parecem ter algum tipo de reivindicação sobre o corpo feminino. Frequentemente encontramos críticas à literatura feminista que afirmam que ela é excessivamente centrada no corpo ou em experiências corporais, ao contrário dos homens, que escreveriam sobre temas “importantes”, abstratos, guerras ou acontecimentos históricos. Mas isso é, na verdade, um absurdo. Existe uma razão muito concreta para que seja assim: ninguém reivindica o corpo masculino. Ninguém se interessa verdadeiramente em controlar o corpo do homem. Nesse sentido, o homem é muito livre — ele é, por padrão, o proprietário do próprio corpo. Ninguém questiona seu direito de decidir sobre ele. Quando falamos do corpo feminino, porém, a situação é radicalmente diferente. Se observarmos, por exemplo, o contexto russo contemporâneo, veremos que uma das primeiras coisas que começaram a acontecer após o início da guerra foi o endurecimento das restrições ao aborto. Hoje, no território russo, tornar-se cada vez mais difícil realizar um aborto — mesmo em clínicas privadas e mesmo pagando muito dinheiro. E por que isso acontece? Porque o corpo feminino possui a capacidade de gerar pessoas e, consequentemente, gerar soldados. Por isso, o Estado — assim como a sociedade em geral — sempre “tem um trabalho”para o corpo da mulher. Nesse sentido, ninguém se surpreende quando perguntam a uma jovem, durante uma entrevista de emprego, se ela tem filhos ou se é casada. O que realmente estão perguntando é se ela está disponível para o trabalho, se o seu corpo pertence plenamente a ela ou se será reivindicado pela maternidade. Por isso, quando uma mulher tenta se libertar do patriarcado ou reconhecer a própria identidade, ela é obrigada, antes de tudo, a reivindicar novamente o direito sobre o próprio corpo. É justamente por essa razão que grande parte das escritoras ligadas à tradição feminista escreve através do corpo. E, desse ponto de vista, acredito que a mulher, ao recuperar o direito sobre o próprio corpo, efetivamente se liberta. 

Além de você, a literatura feminina russa tem nomes importantes atualmente, Lyudmila Ulytskaia, Tatyana Tolstaya, Svetlana Aleksiévich e muitas outras. Como é essa relação entre as escritoras e o governo Putin? 

Esse também é um tema muito complexo e multifacetado. É difícil responder de maneira simples, porque, antes de tudo, a relação entre as mulheres e o regime depende da visão de mundo que essas mulheres possuem. Hoje existem escritoras que apoiam a política oficial e a guerra, justificando plenamente o governo e escrevendo em consonância com essa ideologia. Mas também existem escritoras que confrontam criticamente o que está acontecendo no país e expõem abertamente suas desigualdades e violências. Muitas dessas mulheres acabam sendo expulsas ou forçadas a construir suas carreiras fora da Rússia. Outras — e isso talvez seja o mais triste — têm suas vozes deliberadamente silenciadas, para que não recebam atenção ou reconhecimento no campo literário. Lembro, por exemplo, de Polina Barskova, poeta e pesquisadora da poesia do período do Cerco de Leningrado. Eu talvez não a definisse exatamente como uma escritora feminista, mas ela é uma figura extremamente importante da poesia contemporânea. Ainda assim, foi classificada pelo Estado como “agente estrangeira”por apoiar perspectivas consideradas divergentes. Esse é um mecanismo bastante recorrente: escritoras e escritores que não apoiam o regime passam a ser rotulados como “agentes estrangeiros”, o que frequentemente os impede de trabalhar no país e até mesmo de distribuir suas obras. Trata-se de um contexto profundamente dramático. E o que nos resta diante disso? Existem algumas iniciativas independentes importantes, como a publicação Polka (Estante), dedicada à literatura contemporânea e com especial atenção às mulheres escritoras. Eles apoiam ativamente autoras contemporâneas, e muitas das edições são produzidas por mulheres. Ao mesmo tempo, se observarmos os grandes prêmios literários, perceberemos que as mulheres continuam pouco representadas. Ou então vemos mulheres chegarem às listas de finalistas, mas raramente receberem os prêmios principais. Isso também me parece um sintoma da dificuldade persistente do sistema em reconhecer as mulheres como plenamente iguais. 

Como tem sido a recepção do livro mundo afora? 

Primeiramente, gostaria de dizer que me sinto enormemente privilegiada por ver minha obra traduzida e recebendo atenção em diferentes países. É muito interessante perceber como um mesmo romance pode ser lido de maneiras tão diversas. Por exemplo, foi bastante surpreendente para mim descobrir que muitos leitores alemães interpretam o romance como a história da emancipação da mulher oriental. Essa leitura não me é particularmente próxima e, para ser sincera, até me causa certo desconforto, porque simplifica muito o livro. Ainda assim, mesmo eu não concordando plenamente com essa perspectiva, muitos leitores o recebem justamente como uma narrativa de libertação. O romance acaba de ser traduzido também para o inglês e publicado nos Estados Unidos. As primeiras resenhas têm sido muito positivas. Minha impressão inicial é que os leitores americanos tendem a se reconhecer no livro sobretudo como uma obra anticolonial. Já na Rússia, o romance é percebido como um livro profundamente feminista, mas que, ao mesmo tempo, apresenta uma experiência raramente representada na literatura contemporânea. 

Qual a sua percepção do Brasil? Você conhece obras de escritores e escritoras brasileiras? 

Considero também quase mágico o modo como o Brasil entrou na minha trajetória. A história de como conheci meus incríveis editores da Ars et Vita e de como minha antologia poética e meu romance ganharam vida aqui é algo muito especial para mim. Vim ao Brasil pela primeira vez em setembro de 2024 e, agora, dois anos depois, retorno com a sensação de estar voltando para a casa de uma espécie de família. Infelizmente, ainda não acredito conhecer suficientemente bem o contexto da literatura brasileira contemporânea — e gostaria muito de preencher essa lacuna. Li a obra de Clarice Lispector, porque ela foi traduzida para o russo, e seu livro “Água Viva” recebeu bastante atenção na Rússia. De modo geral, sinto-me profundamente fascinada pela cultura brasileira e pela energia que pulsa no país. E tenho certeza de que a literatura brasileira também expressa e reflete essa vitalidade. 

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(*) Tradução do russo de Luiz Gustavo Carvalho

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