Carolina de Vasconcelos Silva - Especial para o Estado de Minas

Em seu mais novo livro, “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros”, Cidinha da Silva descasula as inquietações, os ardis e a resistência furiosa que atravessam a experiência literária e editorial das escritoras negras. A obra é composta por 16 ensaios organizados em três eixos comprometidos com a ruptura das contenções que secularmente tentam enlaçar as asas de mulheres negras escritoras: “Casulo”, “Lagarta” e “Borboleta”.

Na primeira parte do livro, intitulada “Casulo”, Cidinha da Silva revela e analisa o enclausuramento das mulheres negras, em especial das escritoras, no papel de educadoras. Enquadradas nesse papel, aquelas que se dedicam a criação literária são desvalorizadas, encaixadas em tentativas vazias de representatividades, furtadas de seu poder criativo inventivo, vinculadas a ideia de que, em nome da luta por direitos, devem aceitar qualquer convite que lhes dê o mínimo de visibilidade ainda que já tenham uma carreira. Há, nas relações que se estabelecem entre o mercado editorial e as mulheres negras, uma repetição da lógica colonialista conforme evidencia a autora:

É inacreditável que as pessoas (todas) ainda precisem ser educadas sobre a necessidade de remunerar pessoas negras, sobre o fato de que a escravidão colonial acabou e, mesmo quando existiu, nunca foi vivida de forma pacífica pelos escravizados. (SILVA, 2026, p. 25)

Em “Casulo” Silva reivindica um espaço não volátil no campo editorial e literário, um lugar de reconhecimento condizente com a produção e trajetória dessas escritoras, sem exotizações ou imposição de temáticas que supostamente cabem a elas discorrer, mas sim com liberdade criativa para que possam escrever sobre os temas que quiserem e que, por óbvio, se estendem para além das discussões sobre raça.

As reflexões de Cidinha da Silva sobre o fazer literário das mulheres negras se aprofundam ainda mais na segunda seção do livro intitulada “Lagarta”, na qual, tal como a metáfora do título induz, contém textos que convidam a pensar sobre o processo criativo dessas autoras, seu método de elaboração literária e o impacto deste em um universo no qual os privilégios da branquitude são perpetuados.

A autora demonstra as estratégias de enquadramento da produção literária das mulheres negras em uma lógica na qual os seus livros possuem função didática e militante (p. 49) e pugna pelo reconhecimento do fazer literário dessas escritoras através de uma incursão pela trajetória de mulheres que foram silenciadas e apagadas no campo editorial em virtude de não se encaixarem no recorte racializados imposto a elas. Cidinha da Silva escancara a diferença abissal existente entre os critérios de avaliação dos textos de autoria negra e os de outros autores:

(...) sujeitos não hegemônicos (negros, indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+) são convocados a escrever e a falar porque teriam uma função a cumprir no sistema literário, função essa definida, quase sempre, pelos próprios agentes hegemônicos.

Enquanto isso, aos demais (autores brancos, heteronormativos, etc) é simplesmente permitido e incentivado criar, imaginar, produzir encantamento e enlevo, dedicar=se à fruição literária sem a carga da obrigação política ou didática (SILVA, 2026, p. 51)

É diante do abismo da desigualdade que marcam os critérios legitimadores desse campo que Cidinha da Silva enfrenta o questionamento “Carolina Maria de Jesus seria premiada num concurso que leva seu nome?” (p. 59).

Mais do que responder a esse questionamento, a autora provoca o leitor a refletir sobre as estratégias utilizadas pela lógica branca colonialista capazes de impor critérios que colocam em desigualdade escritoras negras quando comparadas com escritoras brancas. Isto é, a concorrência é marcada não por uma análise que avalie as habilidades técnicas de cada candidata, a trajetória e o volume de repertório, mas sim por parâmetros que excluiriam a própria escritora que dá nome ao prêmio, uma vez que, o concurso literário em questão, repetiu, na sua condução, o racismo estrutural e linguístico. 

A autora demonstra que, embora reconhecidas e com volume de publicação expressivo, as mulheres negras precisam se manter vigilantes e em movimento para sair e continuar distante dos confinamentos que lhes são secularmente destinados. As armadilhas se revelam latentes em discursos e inciativas pseudo-inclusivas. A posição de estabelecidos cabível a uma mulher negra está sempre ameaçada pela lógica colonialista.

Cidinha da Silva encerra “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros”, com um conjunto de sete ensaios reunidos na seção “Borboleta” mostrando a necessidade do enfrentamento diante de tantas tentativas de aprisionamento dessas mulheres. Assim, a fúria citada no título do livro, surge como força vital, que permite a existência resistente das mulheres negras.

Evocando a ancestralidade, Cidinha da Silva se nutre de coragem e fúria para se opor às práticas que enredam as relações no campo literário e editorial. A autora pugna pelo direito à fabulação das escritoras negras, ao direcionamento de suas próprias produções, pelo direito a seu fazer artístico. Cidinha da Silva renuncia ao papel didático que querem imprimir aos textos dessas mulheres e, com esse movimento, presenteia o leitor com 16 ensaios sem nenhuma pretensão pedagógica, mas com um bater de asas capaz de estremecer o pensamento estabelecido.

CAROLINA DE VASCONCELOS SILVA é mestre em literatura, ciência e tecnologia pelo CEFET

“Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros” 

De Cidinha da Silva

Relicário Edições

144 páginas

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