Por que escrever um romance que se passa há pelo menos 30 mil anos? 

Porque personagens surgem na minha mente e posso oferecer a elas um meio de existência, não importa tanto se a história se passa hoje ou no passado. 

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Referências científicas inspiraram “Os imortais”? Além da já sabida convivência entre neandertais e sapiens, o sapiens moderno tem até 4% de DNA neandertal, conforme estudos genéticos. E homens neandertais acasalavam com mulheres sapiens. Houve também referências literárias ou de filmes, como “O macaco nu” e “A guerra do fogo”? 

Evolução, primatologia, etologia e outros estudos estão no meu raio de interesse há bastante tempo. Antes de me formar jornalista, cursei engenharia florestal. Em 2019, estudei mais dois e meio de ciências biológicas, quando também fiz um estágio em primatologia. E há imagens que me acompanham desde a infância, quando eu realmente folheava a edição que tínhamos em casa de “O macaco nu”, do Desmond Morris. Também me lembro de assistir à adaptação do Jean-Jacques Annaud para “A guerra do fogo”, do Rosny Aîné. Mas são lembranças de espanto, de admiração, não exatamente “referências” para “Os imortais”, até porque não se sobrepõem a outras. Por exemplo, “A boutique dos queijos”, do Italo Calvino, é um texto que vive no meu horizonte criativo e não tem nada a ver com a pré-história. Considero impossível rastrear referências. No fundo, tudo o que você fez desde o dia em que nasceu conta. 

Como foi o desafio de tentar criar uma linguagem entre os neandertais? Além da linguagem corporal, o narrador onipresente foi a primeira solução pensada para substituir os diálogos sem necessidade de reproduzi-los? 

Não pensei em “soluções”. Não sinto que procuro respostas técnicas para problemas técnicos. É um fluxo. Como o tema da evolução me interessa, sou curiosa em relação à pré-história do pensamento e da linguagem e li um pouco a respeito ao longo da vida. Há coisas muito interessantes. Na pandemia, saiu uma publicação independente chamada “Pré-história da geometria: origens, evolução e neurociência da geometria”, do professor Manoel Campos Almeida, da PUC do Paraná. É uma leitura mais acadêmica, mas fascinante. Também li vários títulos do Steven Pinker, que trata especificamente do pensamento e da linguagem e consegue dialogar com um público muito amplo em seus livros. E há outros. Portanto, existe um pano de fundo de coisas que sei sobre temas que estou longe de dominar. Mas não precisei forçar nada em cima disso. Afinal, é uma ficção. Meus compromissos são de outra ordem. 

Na página 222: “O Homem anda tomado pelo sublime, mas justamente a beleza é a causa do seu assombro, a coisa em si que dá tanto medo, medo de perder, porque o belo é tão frágil, tão destrutível, não sendo também outra coisa senão a própria vida”. Um caminho de Os imortais é o “desligamento” do Homem, chefe do clã, com uma crise existencial primordial. Parece uma metáfora. Poderia ser versão evolutiva do pecado original, a troca do fruto proibido pela carne? 

Se for a sua leitura, pode. Quando escrevo, não penso em nada que esteja fora da história e certamente não pensei no pecado original. As interpretações e as análises são peculiares, inesperadas, acho muito bonito que um romance ou um conto ganhe cores e camadas depois de publicado, mas deixo isso totalmente a cargo dos leitores.

O poder feminino sobre o fogo, significativo em “Os imortais”, parece ecoar uma ancestralidade mítica ou divina. Foi essa a intenção? 

Venho de uma casa de mulheres e isso deve influenciar as mulheres da minha imaginação, mas a minha intenção é uma só: contar a história. O fogo me fascina desde sempre e, quando a gente lê “Totem e tabu”, do Freud, ou “A psicanálise do fogo”, do Bachelard, percebe ainda melhor como essa é uma atração atávica. Não é preciso ser um escritor de ficção para imaginar o que sentiam as primeiras pessoas diante das chamas, basta se sentar em frente a uma fogueira, em silêncio, e admirar um pouco.

A controversa “Teoria do Macaco Chapado”, de Terence McKenna, de alguma forma inspirou a inserção da “viagem” transcendental com cogumelos entre os neandertais, com está no livro? O que você acha da ideia de que esses alucinógenos podem ter contribuído para a evolução cognitiva de ancestrais humanos? 

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Conheço apenas superficialmente a hipótese do McKenna e ela não me influenciou. Acho que isso precisa ser discutido por pesquisadores da área, pois, embora eu tenha alguma familiaridade com o assunto, não posso dar mais que uma opinião. De todo modo, não me parece que a cognição humana possa ser atribuída a um fator específico ou que esse fator prevaleça em relação aos demais. Na biologia, os processos evolutivos geralmente acontecem em função de ‘n’variáveis, de conjuntos de condições. E mesmo entre os primitivos, devem ter existido diferentes culturas, grupos com costumes próprios. O consumo de cogumelos alucinógenos, se existiu, não deve ter sido generalizado, como não é hoje.

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