Rodrigo Lobo Damasceno - Especial para o Estado de Minas
No seu posfácio para “A divina mimesis”, Cláudia Tavares Alves afirma que pensou e realizou a tradução do texto de Pier Paolo Pasolini (1922-1975) como um gesto político, “acreditando que na linguagem continuamos a existir, sobretudo na tentativa de nos reconhecermos e de conhecermos de novo o mundo ao nosso redor”. A afirmação passa longe do subterfúgio, típico da nossa época, de imputar natureza e repercussão política a qualquer atividade (ou mesmo à ausência dela): de fato, a escolha, tradução e publicação de “A divina mimesis” feitas por Claudia dão ao leitor brasileiro uma oportunidade valiosa para refletir a respeito das relações entre literatura e política em nosso tempo – que, diga-se, é ainda o tempo de Pasolini, que redigiu a obra nos anos 1960, momento a partir do qual o poeta e cineasta italiano passa a identificar uma alteração significativa na vida civil italiana, inclusive na sua língua, com a ascensão e a consolidação de uma sociedade baseada no consumo: “A verdade sobre a qual não conseguimos falar (...) é esta: cada um de nós é fisicamente a figura de um comprador e as nossas inquietações são as inquietações dessa figura. (...) Tudo o que serve para nos expressarmos é comprado”.
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“A divina mimesis” aparece num momento em que o nome de Pasolini volta a ganhar força na cena literária e editorial brasileiras, com novas traduções de clássicos já publicados anteriormente no país (caso de “Teorema”, agora em versão de Mauricio Santana Dias, pela Cosac) e com obras antes inéditas em português brasileiro (como “Porno Teo Kolossal”, traduzido por Andityas Matos e publicado pela editora sobinfluencia, e “As cinzas de Gramsci”, tradução de Alexandre Pilati publicada em 2021 pela C14). Essa variedade editorial, à qual agora se soma a Jabuticaba, faz jus à variedade formal de Pasolini: poemas, romances que se assemelham a roteiros, obras de dramaturgia, artigos polêmicos de jornal (caso do indispensável “Escritos corsários”, traduzidos por Maria Betânia Amoroso e publicado pela Editora 34) e, no caso de “A divina mimesis”, uma obra de difícil catalogação, fragmentária, que propõe um diálogo com Dante mas disseca a vida de uma Itália modernizada, e que se compõe também de uma série de fotografias.
A retomada de Dante é bastante evidente no livro: Pasolini se deparou com o inferno e entrou, foi ver o que acontecia e quem estava lá – ou, melhor dizendo: Pasolini deu-se conta de que não precisava entrar, pois já estava no inferno, outro nome para a vida contemporânea, ainda marcada pelos horrores da Segunda Guerra e do nazifascismo: “O inferno que pus na cabeça descrever já foi descrito simplesmente por Hitler. Foi através de sua política que a Irrealidade se mostrou de verdade em toda a sua luz. Foi dela que os burgueses extraíram o verdadeiro escândalo ou, me envergonha dizer, viveram a verdadeira contradição de suas vidas”. No entanto, se Dante era guiado por Virgílio, Pasolini, que não passa pelo inferno, mas o habita, tem como companheiro um duplo seu, um Pasolini mais jovem, cuja relação com a literatura e a poesia era distinta daquela que o entendimento das condições infernais da vida contemporânea passava a exigir.
Escrito sob o ponto de vista de um poeta que agora ultrapassa os 40 anos e deixa para trás a sua juventude, “A divina mimesis” procura investigar sobretudo o modo como os poetas – aqueles que tratam da linguagem num nível mais profundo, cujas obras, em tese, digladiam com a ideologia com maior radicalidade – lidam com esse inferno (“Hitler é fruto de seus filhos poetas, que tiveram um sonho muito mais verdadeiro, maior e mais terrível do que jamais foram capazes de ter”) e com a nova forma de linguagem que os traumas históricos e a novidade do consumo e do fascismo contemporâneos criaram: “a língua do ódio”.
Apesar da relação evidente com Dante, talvez valha a pena pensar “A divina mimesis” também junto a um outro passeio infernal, aquele dado por Rimbaud em “Uma estação no inferno”, que também encontrou na prosa o meio ideal para o registro de suas impressões (“Nada de cânticos”, escreve o francês), assim como Pasolini para os seus cantos. À prosa poética do francês, intrincada por si só, Pasolini acrescenta ainda uma camada de texto que tende menos para a poesia e mais para a reflexão teórica (ainda que não seja teoria propriamente), elaborando uma prosa complexa e às vezes hermética, repleta de ideias nítidas e críticas ao seu objeto, mas também marcada por contradições e obscuridades típicas daquele que usa a língua do ódio, tomada pela ideologia, para exprimir algo além do ódio, para escapar dos domínios da ideologia.
O texto de “A divina mimesis”, portanto, parece exigir uma releitura, recomendável e também facilmente realizável por conta da dimensão fragmentária do livro. Trata-se de um livro que, em sua forma breve, propõe a experiência de uma temporalidade distendida, de uma atenção redobrada, e que chega ao leitor brasileiro para deixar ainda mais complexas a figura e a obra de Pasolini, cujo tempo ainda não acabou e cujo inferno parece ser o mesmo que ainda habitamos.
RODRIGO LOBO DAMASCENO é poeta e crítico, autor dos livros “Casa do Norte” e “Limalha”, este último finalista do prêmio Oceanos e semifinalista do Jabuti em 2024.
“A divina mimesis”
De Pier Paolo Pasolini
Tradução e posfácio de Cláudia Tavares Alves
Edições Jabuticaba
108 páginas
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