“A vaca olhava de lado para o menino e permanecia em silêncio, mastigando uma haste de erva, há muito tempo ressecada e atormentada pela morte. Ela sempre reconhecia o menino, e ele a amava. Tudo na vaca lhe agradava: os olhos bondosos e quentes, contornados por círculos escuros, como se a vaca estivesse sempre cansada ou pensativa, os chifres, a fronte e seu corpo grande e magro, que era assim porque a vaca não acumulava sua força para si, em gordura e carne, mas a dava em leite e trabalho.” Essa era a percepção do menino Vássia.
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Literatura com crianças como protagonistas e narrativas fabulares infantis, apenas aparentemente infantis. Como os demais contos lançados recentemente no Brasil pela editora Ars et Vita (“Iúchka e outras histórias”e “O amor pela pátria e outras histórias”), “A vaca”, com tradução de Maria Vragova, que será lançado no dia 1º de abril em Belo Horizonte, é mais uma mostra do olhar singular, filosófico e poético, que mescla realismo e fabulação, de Andrei Platônov (1899-1951), um dos mais importantes escritores russos do século 20.
Mais uma vez, uma criança é protagonista. O conto “A vaca”, de 1938, entretanto, não é uma história para crianças, nem sobre vaca. É sobre afetividade e subsistência. A vida de Vássia e sua família no interior da Rússia e seu apego à vaca que garante o sustento da família e ao bezerro é uma história transcendente.
Ao dar sentimentos ao animal e à dedicação de mãe ao bezerro como se eles fossem pessoas, Platônov cria bela metáfora sobre afeto, maternidade, amizade e luto: “A vaca não entendia que era possível esquecer uma felicidade, encontrar outra e viver novamente, sem se torturar mais.”
E por mais triste que pareça ser a história, Platônov surpreende o leitor, bem ao seu estilo, com uma angústia reflexiva que reconforta, que dignifica sentimentos como um aprendizado sobre a dor.
Todo o afeto de Vássia, porém, é vítima da utilidade. A vaca e o bezerro precisam ser úteis para a sobrevivência da família, seja como carne e leite ou como dinheiro. E aí está o dilema que contrapõe afeto e subsistência.
Em “A vaca”, Platônov retorna à sua infância dentro de uma família ligada ao trabalho ferroviário, afinal, ferrovias moldaram sua vida para sempre. Seu pai era um trabalhadeor ferroviário e no contexto do conto do menino Vássia ali também vive. E é importante ressaltar que Platônov esteve no cerne do chamado realismo socialista, uma utopia decorrente da revolução de 1917 que deixou cicatrizes indeléveis, do deslumbramento à frustração com o regime, que também moldou a literatura russa do século 20 e da qual Platônov é um grande exemplo, desde os personagens infantis até obras de grande fôlego, como o seu monumental romance “Tchevengur.”
“PEQUENOS SERES”
“As crianças [de Platônov] não são retratadas de maneira infantil, são pequenos seres humanos que assumem a completa responsabilidade ao lidar com um mundo vasto, complexo e, muitas vezes, indecifrável. Em diversas ocasiões, os próprios personagens adultos da obra platonoviana se parecem com crianças, pela inocência, ingenuidade e impossibilidade de viverem no mundo dos adultos”, reflete a tradutora Maria Vragova.
E essas crianças, na visão do escritor, podem ser a salvação. “Para Platônov, as crianças são aquelas criaturas dóceis que vencerão o mundo. Como diz um dos seus personagens, se dirigindo às crianças: ‘Vocês ainda são crianças, são os pequenos entre os homens, e vocês tomarão o reino humano. Em todo lugar, os pequenos do mundo tomarão o mundo para si. O menor, o mais perseguido, o desconhecido, o silencioso, o não nascido, aquele para quem até um grão de areia é um deus, é o verdadeiro rei da Terra’”, descreve Vragova.
ILUSTRAÇÕES E ANIMAÇÃO
A força do conto “A vaca” não se resume à extrema sensibilidade de Platônov em traduzir linguagem verbal para sentimentos e transformar amargura em beleza. A edição da Ars et Vita traz também expressivas ilustrações baseadas na animação homônima de 1989 feita pelo premiado artista russo Aleksandr Petrov, de 68 anos, criador e diretor conhecido pela técnica de pintura a óleo sobre vidro.
Petrov tem se destacado pela adaptação de obras literárias para animações. Ganhou o Oscar em 1999 com adaptação do clássico “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway. Adaptou também, entre outras obras, “O sonho de um homem ridículo”, de Dostoiévski. Todas estão disponíveis no YouTube.
Em “A vaca”, a ilustrações inspiradas na animação de Petrov dão contorno onírico ao drama de Vássia, que já não pode ser expressado em palavras, numa significativa comunhão de percepção sensorial com a escrita poética de Platônov.
“MOSCOU FELIZ”
Além de “A vaca”, outra obra de Andrei Platônov está sendo lançada no mercado brasileiro, esta pela editora Ubu, com tradução de Letícia Mei. Até agora inédito no Brasil, “Moscou feliz” é um romance inacabado escrito entre 1933 e 1936, mas só publicado postumamente em 1991, 40 anos após a morte de Platônov. Mostra o encanto e o desencanto com o regime stalinista na pele da jovem protagonista Moscou Tchestnova, órfã criada pela revolução soviética que sonha ser paraquedista.
O livro é ilustrado com reproduções e fotomontagens de páginas da revista fotográfica “SSSR na stroike”(“URSS em construção”), produzida em grande formato pela União Soviética para promover o regime.
Nesse romance, Platônov deixa a Rússia rural e o universo de crianças imaginativas de “A vaca” e outros contos similares para mergulhar na euforia inicial pós-revolução de 1917 até o escancaramento das contradições representadas pela própria personagem principal, que, não à toa, tem o nome da principal cidade russa.
Diferentemente de “A vaca”– como é dito no prefácio, “um dos contos mais discretamente subversivos do autor, em que não há denúncia direta nem ironia explícita, mas algo mais perturbador: a descrição minuciosa de um mundo em que toda vida precisa justificar sua existência pela utilidade”– em “Moscou feliz”, a ironia é latente.
Platônov construiu sua obra sob o regime opressor do ditador Josef Stálin (1878-1953), que reconheceu a genialidade do escritor, mas destruiu a sua carreira literária, conta Maria Vragova. Tanto que regime levou o filho do escritor à morte. Na primeira metade do século 20, a Rússia estava transformada em União Soviética sob o duro regime stalinista, que subjugou ou expurgou escritores sob o propagandismo do realismo socialista.
“TCHEVENGUR”
A ditadura pós-revolução de 1917 passou a divulgar a literatura e outras formas de arte como instrumentos dos ideais revolucionários. As atrocidades só foram conhecidas após a morte de Stálin, em 1953. Diante da opressão, a obra de Platônov foi banida na União Soviética e resgatada só após a sua morte e o ocaso do regime.
Desse mundo opressor, Platônov também escreveu “Tchevengur”, uma obra monumental que tem como cenário uma cidade imaginária nos confins da Rússia transformada numa espécie de paraíso como sátira ao regime soviético. Na vastidão territorial do maior país do planeta, a luta pela sobrevivência em meio à pobreza e a fome era gritante. Aos poucos, em suas obras, Platônov, inicialmente alinhado ao regime, foi manifestando seu desencanto.
Desde as primeiras páginas, o desenrolar da leitura de “Tchevengur” – além da saga quixotesca de um dos protagonistas, Stepán Kopienkin, que tem um cavalo chamado Força Proletária, analogia com o Rocinante do herói/anti-herói de Cervantes –, a linguagem paródica e poética de Platônov e a variedade de gêneros remetem o leitor também às obras de outros dois gênios literários, o brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967) e o moçambicano Mia Couto, também pela grande riqueza de estilo e linguagem, como “um aspecto totêmico”, analisa a tradutora Maria Vragova.
TRECHO DO CONTO
“Vássia afagou e acariciou a vaca por um longo tempo, mas ela permaneceu imóvel e indiferente: ela precisava agora apenas do seu filho, o bezerro, e nada poderia substitui-lo: nem o homem, nem a grama e nem o sol. A vaca não entendia que era possível esquecer uma felicidade, encontrar outra e viver novamente, sem se torturar mais. Sua mente confusa não era capaz de ajudá-la a se enganar: o que uma vez entrara em seu coração ou sentimento não poderia ser sufocado ou esquecido. E a vaca mugia amuada, pois era completamente submissa à vida, à natureza e à necessidade do filho, que ainda não havia crescido para que pudesse deixá-lo, e agora ela sentia calor e dor dentro de si, olhava para a escuridão com olhos grandes e cheios de lágrimas, incapaz de chorar com eles para aliviar-se e exaurir a sua mágoa.”
“A VACA”
De Andrei Platônov
Tradução: Maria Vragova
Ilustrações: Aleksandr Petrov
Editora Ars et Vita
64 páginas
R$ 79,90
Lançamento: 1º/4, às 19h, na Livraria Jenipapo (Rua Fernandes Tourinho, 241, Savassi, BH)
“MOSCOU FELIZ”
De Andrei Platônov
Tradução: Letícia Mei
Ubu Editora
192 páginas
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R$ 89,90
