Prisca Agustoni - Especial para o Estado de Minas 

Para escrever “Boris e Marina”, publicado pela coleção de poesia da Companhia das Letras, o poeta Alberto Martins toma como ponto de partida e de inspiração o gênero epistolar, isto é, as cartas trocadas entre três nomes fundamentais da poesia europeia do final do século 19 e do início do século 20: Marina Tvetáeiva (1892-1941), Boris Pasternak (1890-1960) e Rainer Maria Rilke (1875-1926), correspondência reconstruída a partir de rascunhos e publicada pela primeira vez, em russo, somente em 2004, conforme observa no texto de orelha Arlete Cavaliere.

Partindo desse dado real, a existência da correspondência e da proximidade estética e afetiva entre os três, o poeta brasileiro realiza, com esse livro, uma operação instigante e ousada, ao demover do lugar cristalizado e intocável da história e da recepção crítica consolidada, um olhar atento para o aspecto mais humano e mais anônimo das trajetórias pessoais desses poetas que são figuras canônicas em suas respectivas tradições literárias (a russa e a de língua alemã).

Interessa ao poeta brasileiro – e ele deixa isso claro na nota autoral que abre o livro – “experimentar a intensidade das paixões que vieram à tona naquele verão de 1926”, ano de início da intensa correspondência entre os três. Nesse sentido, o que os poemas de Martins evidenciam é menos a atividade pública, literária, biográfica, já bem conhecida pelos leitores das obras de Tvetáieva, Pasternak e Rilke, e sim a reconstrução de uma suposta vivência íntima, as emoções cotidianas, as mínimas rugosidades de um dia a dia difícil, marcado pela precariedade e pelo exílio francês, no caso de Tvetáieva, ou pelos sonhos de Pasternak, em Moscou, que deseja ardentemente encontrar-se com ela em Paris. 

Desse gesto imaginativo de recriar o cotidiano dos poetas, extraindo das cartas detalhes às vezes corriqueiros – um cotidiano totalmente ficcionalizado, assim como ficcionais são as figuras evocadas, conforme nos alerta o autor em sua nota introdutória –, nasce a força lírica dos versos de Alberto Martins. 

E é precisamente nessa força lírica, atravessada pelo tom coloquial, que o livro se desdobra e encontra uma outra voz, que não é nem a de Marina, nem a de Boris, nem a de Rilke, e sim a do poeta contemporâneo, numa sequência polifônica onde, por vezes, as vozes se sobrepõem, se alternam, se prolongam uma na outra. 

A voz autoral de Martins, ainda que camuflada ora na de Pasternak, ora na de Tvetáieva, cria um novo endereçamento, contemporâneo, uma quarta voz ali que, como um sensível regente de uma orquestra de “heróis desastrados / nessa hospedaria // chamada NOSSO TEMPO / que rifa poetas / como poeira” (p.63), dialoga com o leitor de hoje, tornando atual (e atemporal) o sentimento de urgência que perpassa seus versos, inspirados pelas cartas datadas de 1926.

Esse gesto de se voltar para trás para consultar “cartas do passado” com o intuito de extrair seu sentido e projetá-lo para o futuro tem algo de divinatório, de profundamente conectado com o fazer poético, e atualiza a força de nosso tempo, de acordo com a noção de Agamben de um contemporâneo que percebe a escuridão de hoje, as urgências e as muitas sombras que nos atravessam.

Os gestos que definem a vida dos que falam nos versos, na alternância principalmente entre Pasternak e Tvetáieva, em 1926, revelam um tempo alongado que é o da espera da carta manuscrita, dos não-ditos, das confissões pela metade, das pequenas zonas de mistério de uma época em que o corpo precisava sobreviver à fome e ao desejo de amantes privados do abraço. Os versos revelam principalmente a capacidade de sobreviver num contexto marcado pela precariedade material, habitado por objetos concretos (o violoncelo, a bicicleta, a carta, o rádio, as laranjas), como no poema “bulbos”, no qual escutamos a voz de Marina: “gengibre, alho, cebola./ Tudo o que cresce dentro da terra / de olhos fechados – e à luz da pia / quando picado, pica” (p.39). São gestos que contextualizam a paisagem (temporal e emocional) dos protagonistas, mas que reenviam para uma ampliação do imaginário, essa capacidade radicalmente humana de se projetar, em desejos, para além do próprio tempo e espaço e ecoarem, um século depois, na mesma urgência e paixão de hoje, universalizando uma narrativa que é, na verdade, a da humanidade. 

Nesse sentido, o livro de Martins constrói uma longa narrativa das paixões humanas de ontem e de hoje, por meio de uma história na qual os principais protagonistas, Marina Tvetáeiva e Boris Pasternak, se apegam às palavras, à linguagem poética, ao pouco que lhes restava num tempo sombrio, para partilharem uma intimidade negada pela História, mas que, através desse gesto de entrega e confiança na palavra, permite re-encantar o cotidiano, como lemos no belíssimo poema “telepatia”: “ – e quando uma pele nova brotar [...] / você poderá me escrever longos poemas, Marina /vou carregá-los numa sacola na altura /do ombro esquerdo // com a mesma obstinação com que Kliébnikov/ carregava seus cálculos matemáticos /nas trincheiras // seus poemas vão perfurar  meu anoraque /e pelas ruas vão dizer  / lá vai o doido do Pasternak” (p.26). 

Definitivamente, a mesma obstinação dos poetas de hoje, parece sugerir o poeta Alberto Martins, que insistem em endereçar poemas para um futuro sombrio que o noticiário mundial não cessa de nos lembrar que está à espreita. 

PRISCA AGUSTONI é poeta, pesquisadora, crítica literária e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) 

“Boris e Marina”

De Alberto Martins

Companhia das Letras 

152 páginas

R$ 89,90

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