Anelito de Oliveira - Especial para o EM
A superfície é apenas aparentemente simples, transparente, resolvida. Mas vejamos: a palavra “ciclone” designa um coletivo de escorpiões! Geralmente, “ciclone” aparece no noticiário designando evento climático devastador. O título “O coletivo de escorpião é ciclone.”, romance de estreia de Flávia Figueirêdo, mineira de Montes Claros e moradora de Belo Horizonte.
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O livro é disruptivo, visa alterar uma certa normalidade que se impõe na interpretação da vida social em curso. Exemplos: impõe-se como normal a estereotipação, discriminação e aniquilação das religiões de matriz africana; impõe-se como normal a submissão, o sofrimento, a opressão da mulher evangélica; impõe-se como normal o machismo e a violência doméstica. Deste modo, como a romancista percebe com notável perspicácia, é que se produz toda uma vida social doente, caracterizada pela generalização do mal. Este não resulta apenas de um sujeito escorpiônico, mas de toda uma coletividade de escorpiões – pai, mãe, filho, espírito santo etc.
Escorpiões são frios, dissimulados, traiçoeiros, perversos. Habitam instâncias, lugares, os mais inusitados. Em O coletivo de escorpião é ciclone., figuras escorpiônicas habitam Águas Frias, uma cidadela da Zona da Mata mineira, nos arredores de Juiz de Fora. Como toda cidade interiorana, aparentemente normal, terra de gente ordeira, humana, hospitaleira. Mas é lá mesmo que Soraia, filha da mãe solo Sônia, sofre num relacionamento abusivo com João Paulo, policial, evangélico, filho do policial Seu Jacinto e de Dona Conceição, casal importante. Soraia se apaixona pelo jovem aparentemente exemplar, bem-sucedido, e aceita se casar com ele para mudar de vida e se tornar uma mulher respeitada, esposa de policial, evangélica. A moça era, assim como a mãe, “de santo”, filha de Oxóssi e, convertendo-se ao evangelismo, esperava encontrar a prosperidade, ao contrário da mãe, que era pobre, beberrona, fumante, trabalhadora, sem homem.
A narrativa expõe uma jovem mulher casada cada vez mais sacrificada pelo marido, mas que reluta em admitir que tal situação é anormal, uma situação característica das histórias já corriqueiras de feminicídio no Brasil. Soraia, por força da conversão ao evangelismo, aceita como normal toda a violência imposta pelo marido, acredita que ele a ama de verdade, afinal. João Paulo é violento em razão da homossexualidade reprimida pela família conservadora, em primeiro lugar, e pelo evangelismo. O casamento é, para ele, um disfarce de macho necessário também em razão da profissão de policial; nega sua homossexualidade a ponto de matar um amante, repetindo um crime praticado na infância, quando mata o colega pelo qual se sente atraído. Soraia e João Paulo representam vítimas de uma maldade social normalizada, algozes de si mesmos, sujeitos de um relacionamento fadado à tragédia. O desfecho desse enredo é uma disrupção da normalidade pela via cosmológica.
O destino de Soraia é atrelado desde o início a Oxóssi, o Orixá da prosperidade, da fartura, da liberdade, da sabedoria, da estratégia no Candomblé, bem como na Umbanda. Todo o sofrimento que ela vivencia no casamento se configura, na dinâmica da narrativa, como consequência de uma negação da cosmovisão yorubana, africana, em favor da cosmovisão judaico-cristã. Pode-se falar, deste modo, num entrechoque cosmológico como pano de fundo a partir do qual o romance coloca em questão a mulheridade para além do feminismo digital. Enquanto o terreiro de Umbanda, frequentado juntamente com a mãe Sônia, permitiu que Soraia se tornasse uma mulher potente, próspera, a Congregação Cristã do Brasil a torna uma mulher fraca, submissa, violentada, doente. Ela foi advertida pelo Preto Velho sobre o que aconteceria no seu casamento, bem como pela mãe, mas resolveu seguir o próprio nariz.
Soraia sai do terreiro, submete-se ao batismo evangélico, mas permanece atravessada por valores cosmológicos que a formaram, que lhe chegaram através de sua mãe e naturalmente se consolidaram como constitutivos de sua personalidade. São valores inextirpáveis do sujeito exatamente porque se vinculam à experiência histórica de longa duração de toda uma comunidade, à ancestralidade africana. O sincretismo religioso transformou esses valores ao longo do tempo, claro, fundiu elementos do candomblé com elementos do catolicismo, mas não lhes tirou a potência emancipadora, e elemento desfazedor de amarras, de aprisionamentos. Soraia recupera esse elemento quando já estava à beira da morte, depois de um longo período de sofrimento nas garras do marido policial, quando parecia que já estava na lista das vítimas de feminicídio. Dotada dos atributos de Oxóssi, enfrenta seu opressor com sabedoria, estrategicamente, e o mata, proclamando sua liberdade.
Nesse desfecho, desvela-se uma alegoria daquilo que a canção folclórica estadunidense gravada por Johnny Cash (“God’s gonna cut you down”), citada na epígrafe do romance, preconiza: a queda daquele que pratica o mal. Todavia, essa alegoria não subordina O coletivo de escorpião é ciclone. a uma perspectiva “pedagógica” em detrimento de uma perspectiva “performativa”, para recordar Homi Bhabha no seu The location of culture. O desfecho é um rito de “oxossização” que leva o processo de ficcionalização a um ponto extremo, investindo a linguagem de uma espécie de overdose de imaginação, de modo a exibir a selvageria do real que, em última análise, caracteriza o gesto criador de Flávia Figueirêdo. Seu romance não é um caso de representação passiva, mas de apresentação ativa, de adentramento da matéria visada, de atravessamento de camadas resistentes à compreensão, incômodas. Desbravador.
Anelito de Oliveira é Doutor em Literatura Brasileira pela USP, ex-editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, autor de “Desforra” (2023), livro que reúne toda sua produção poética, e organizador de “Vozes das margens do mundo” (2025).
“O coletivo de escorpião é ciclone.”
De Flávia Figueirêdo
116 páginas
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