CORAÇÃO INDIGNADO

Reedição de coletânea de artigos reforça a atualidade de Hélio Pellegrino

Esgotado por décadas, livro com artigos escritos entre 1982 e 1988 volta às livrarias e revela um intelectual na transição da ditadura para a democracia

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“A nudez sem pecado”, “A tortura política”, “O silêncio de chumbo”, “A utopia do possível”. Eis os títulos de quatro dos 59 artigos de Hélio Pellegrino (1924-1988) reunidos no livro “A burrice do demônio”. Esgotada por mais de duas décadas, a coletânea de publicações ganha nova edição da Rocco e se mostra valiosa oportunidade de conhecer as ideias - e a veemência – do psicanalista mineiro, uma das vozes mais atuantes do Brasil no período de transição da ditadura militar para o restabelecimento da democracia. 

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Publicados na imprensa entre 1982 e 1988, os artigos de Pellegrino continuam atuais. Ele se posiciona contra o autoritarismo, sai em defesa dos direitos humanos, se mostra radicalmente contrário à pena de morte (leia artigo nesta edição). “A volta de ‘A burrice do demônio’ ao horizonte dos leitores é mais do que um gesto editorial — é a reabertura de uma ferida luminosa no coração do Brasil”, destaca, na apresentação, a psicanalista Larissa Leão. “Reabre o que estava silenciado, uma dor nacional, as injustiças, as desigualdades, as repressões políticas e sociais, e, ao mesmo tempo, traz à tona uma claridade crítica, uma consciência transformadora”, garante a vencedora do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2025 na categoria Psicologia e Psicanálise pela obra “Hélio Pellegrino: por uma psicanálise política”. 

Leia, nesta edição, trechos da apresentação de Larissa Leão e “Pena de morte”, um dos artigos do livro de um intelectual que não se limitou ao campo das ideias no que a psicanalista chama de “território da coragem”.

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“Ler Hélio Pellegrino é aceitar a travessia de uma palavra que não se rende, que insiste em interrogar, em denunciar, em poetizar. É perceber que o impossível, quando nomeado, pode se transfigurar em horizonte de liberdade”, afirma Larissa Leão, definindo a obra como “testemunho e convocação” de um intelectual brasileiro que nunca silenciou nem perdeu a indignação e a paixão. 

“A BURRICE DO DEMÔNIO”

De Hélio Pellegrino
Rocco
304 páginas
R$ 89,90

A PALAVRA DE PELLEGRINO 

Trechos dos artigos do psicanalista reunidos em “A burrice do demônio” (Rocco)

“Os sonhos não são nuvens, mas a primeira pátria do homem.”

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“Religião é ciência do mistério – ou mistério em plena luz.”

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“O mundo,tal como hoje está organizado – ou desorganizado –, cultiva, no particular e no geral, a cegueira e a surdez sistemáticas.”

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“Uma cidade não é um diamante transparente. Ela espelha, palmo a palmo, o mundo dos homens, suas contradições, abusões, virtudes e desterros.”

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“Estamos cegos, surdos e mudos, emurados e tumulados, enfastiados de tudo o que seja diferenciação pululante, multiplicidade, surpresa, mistério.”

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“Há, no país, um divórcio hiante entre poder e povo, denunciando o fato dolorosíssimo de que somos uma nação fendida, onde a minoria absoluta é detentora da riqueza, do poder e da glória, construídos à custa da despossessão e da miséria da imensa maioria.”

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“O ‘Encontro marcado’ (do amigo Fernando Sabino) é a história da apaixonada procura de caminhos, na juventude. Ele fala da paixão da amizade, da paixão literária e da paixão amorosa, com nobre e densa riqueza,tendo como pano de fundo a busca do Outro – e de Deus.”

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“Sempre haverá, por mercê dos céus, jovens no mundo, famintos dos frutos da terra e do rumor do Absoluto, cuja presença encrespa – e atravessa – todas as coisas.”

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“Toda vida – inclusive a psíquica – é processo, movimento,tempo. A vida é sempre um vir-a-ser, isto é, ela articula o ser que sou ao ser que irei tornar-me, e isso significa que todo ser humano é e não é, numa ambiguidade constitutiva da estrutura de sua existência.”

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“Ao demônio é impossível unir o que quer que seja, pois lhe falta bondade. O amor, segundo Dante, é a força que move o sol e as estrelas. A conjunção dos seres humanos,tanto quanto a dos astros na harmonia das esferas, é fruto de Eros. Eros conjuga, configura, complexifica, totaliza. Se a união faz a força, Eros é forte – e o demônio, fraco. A inteligência verdadeira é erótica, se fundamenta no amor. A bondade,fora de qualquer dúvida, é a forma superior de inteligência.” 

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