DESTAQUES DE 2025

Em 'Triste tigre', francesa Neige Sinno expõe abuso na infância

Participação marcante na mais recente edição da Flip, autora se aventura pelo território do indizível a fim de refletir sobre estupro continuado

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Maria Fernanda Vomero

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Especial para o EM

A afirmação de Neige Sinno, já quase no fim de seu ensaio autobiográfico “Triste tigre”, é categórica: “Por que escrevo este livro? Porque eu posso”. “Poder”, neste caso, representa a confluência não só do arbítrio, mas também da disposição e da autoridade para a empreitada. O percurso até essa declaração, porém, exigiu que a autora enfrentasse uma vez mais – agora pela via literária – a abjeta condição que lhe foi imposta: ter sido estuprada pelo padrasto na infância, continuamente, ao longo de anos.

Neige, cujo nome significa “neve” em francês (uma espécie de homenagem dos pais às forças da natureza), escreve para compreender. A violência sexual intrafamiliar insere abusador e vítima em um território sombrio, uma espécie de outro lugar, ao qual ambos permanecem atados pelo resto de suas vidas, mesmo quando o abuso termina. 

Por isso, a escritora francesa perscruta tanto as memórias, desde o divórcio dos pais e a chegada do abusador à vida da mãe e de suas duas filhas, quanto as marcas da violência que persistem até hoje, décadas depois, e são atualizadas à revelia por meio de um cheiro, uma palavra, algum som, determinada imagem etc.

O texto inicia com uma espécie de retrato do estuprador. A princípio, uma tentativa de apresentar o homem apesar do monstro: as origens familiares, o gosto pela vida nas montanhas, o caráter narcisista e controlador, o desejo de ter muitos filhos. O monstro, contudo, se impõe. A perspectiva da autora se turvou de modo definitivo pelo abuso que sofreu. É impossível, portanto, escapar das descrições cruas, das lembranças doloridas e do relato duro.

Durante anos, Neige manteve silêncio. Deu-se conta, muito cedo, de que o padrasto a mantinha numa jaula invisível, sob uma dominação tácita, e que qualquer palavra sua à mãe ou a algum adulto conhecido poderia implodir o ecossistema familiar, do qual também participavam a irmã por parte de pai e o casal de irmãos menores. A família era pobre e vivia em condições precárias.

Quando já cursava a universidade e vivia longe de casa, Neige contou à mãe sobre a violência sofrida. Pensava, sobretudo, em proteger os irmãos mais novos, ainda que isso significasse afastá-los do próprio pai deles. No momento em que finalmente mãe e filha decidiram fazer a denúncia, Neige estava com 21 anos. O padrasto confessou e foi a julgamento.

Neige não edulcora nem diminui seu lugar de vítima. A partir dele, ela examina as possibilidades e as limitações do testemunho, indaga o que se passa na cabeça de um abusador de crianças (como ele justifica o estupro para si mesmo, de que modo convive com isso) e questiona as representações culturais da violência contra meninas e meninos. 

Eis uma das belezas desse livro impressionante, impactante: a reflexão surge amalgamada ao relato e nos coloca – a nós, leitoras e leitores – nesse percurso analítico junto com a autora, tecendo diálogos com referências artísticas e jornalísticas a fim de situar melhor as cenas gravadas no baú das memórias infantis. A escritora reconhece: a perspectiva oblíqua produz legibilidade e empatia, permite que o fenômeno social seja debatido.

Ainda assim, novamente de forma peremptória, ela declara: “A literatura não me salvou. Eu não estou salva”. Não há, portanto, em “Triste tigre” uma busca terapêutica por meio da escrita, Neige não acredita nisso. Tampouco se trata de vingança ou exercício de perdão (perdão, aliás, que o padrasto jamais lhe pediu). O mal existe, a escritora sentiu isso no corpo, os monstros estão à espreita. Neige escreve para que o outro tigre, aquele enjaulado, o tigre-presa condenado à tristeza infinita, finalmente saia da cela. 

Em um dos poemas de “Canções da Inocência e da Experiência”, do inglês William Blake, o tigre é apresentado como um predador feroz e destrutivo, de beleza assustadora, resultado da complexa imbricação entre luz e escuridão durante o surgimento do mundo. “Fez-te quem fez o Cordeiro?”, a pergunta ecoa em um dos versos. Para Neige, aí está o cerne de seu principal questionamento. Será que ela e seu estuprador são criaturas do mesmo barro, provêm da mesma e indiferenciada fonte de vida?

Quando leu “Tigre, tigre”, livro publicado em 2011 no qual a estadunidense Margaux Fragoso relata o abuso sexual a que foi submetida durante uma década, Neige reconheceu a perspicácia do título. Predador e vítima espelhados, unidos pela abjeção. Ao publicar seu próprio testemunho, fazendo da linguagem o campo de enfrentamento da violência que lhe foi infligida, ela opta por desafiar o condicionante da voz passiva (“fui estuprada”) e assumir o protagonismo da narrativa.

Vítima, sim, mas não condenada ao mundo sombrio moldado pelo algoz. O exercício formal, em “Triste tigre”, tem como objetivo explorar o alcance e as possibilidades da linguagem diante do irrepresentável, em âmbito íntimo mas também coletivo. Neige consente que sua experiência singular seja combinada a outras ideias numa espécie de “polinização aleatória” e assim desafiem o silêncio e o estupor da sociedade. A escritora francesa foi um dos destaques da Flip 2025 ao participar da mesa “Tristes tramas”, ao lado da portuguesa Anabela Mota Ribeiro (“O quarto do bebê”), na programação principal, com mediação de Rita Palmeira (curadora da próxima edição, a ser realizada entre 22 e 26 de julho). A mesa lotou o auditório da Tenda dos Autores e foi uma das mais aplaudidas da 23ª edição. “Triste tigre” ficou entre os cinco títulos mais vendidos da festa literária e Neige também participou de conversa com a tradutora de sua obra, Mariana Delfini, na Casa Record. 

“Enquanto narro, recordo e de repente duvido: será que aquilo que lembro realmente aconteceu?”, comentou na ocasião. “O livro inteiro questiona qual é o valor da verdade daquilo que é lembrado, mas não foi falado. Porque é isso o que acontece nas histórias de abuso: nada foi dito, ninguém viu. Então, até que ponto aquilo existiu de fato?”, indagou. “Uma história que é completamente invisível, exceto para a pessoa que a viveu, existe?” 

Neige Sinno responde à questão com seu ensaio corajoso e desconcertante, no qual mobiliza as várias vozes e os “pequenos fantasmas” que carrega consigo.

MARIA FERNANDA VOMERO é jornalista e doutora em artes 

“Triste tigre”

De Neige Sinno

Tradução de Mariana Delfini

Amarcord

288 páginas

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