'Degola' retrata violência e memória em ocupação de Manaus
Livro de Monique Malcher acompanha família que migra para a Zona Franca em busca de sobrevivência e se depara com dura realidade social
compartilhe
SIGA
Stefania Chiarelli
Especial para o EM
É sábado de Aleluia na cidade de Manaus. Enquanto acontece a malhação de Judas, uma cena brutal se desenrola na ocupação em que vivem Sol e sua mãe Joana. A personagem narra em “Degola” como sua família chegou, no passado, àquele ponto de ruptura. Estruturado em três partes, o romance de estreia de Monique Malcher recupera a trajetória da protagonista diante da sina de deixar para trás a cidade natal de Santarém e se deslocar para a capital amazonense. Abandonar o pequeno negócio paterno de venda de picolé e buscar a sorte em outro lugar é incontornável – estamos em 1996 e o progresso da Zona Franca brada a esperança de uma vida melhor, mesmo que morando em uma ocupação de terra. A mudança de cidade também se relaciona ao trauma da perda do irmão Yan, afogado aos sete anos em uma piscina comunitária.
No presente da narrativa, a Sol adulta relembra a infância em que modelava o barro para inventar suas criaturas de brinquedo. Naquele chão manauara, sempre a um passo de faltar, as casas parecem feitas de papel e a terra prometida se chama Novo Mundo, variante paupérrima do Eldorado mítico: “Cada tábua dos barracos contava sobre o encontro dos moradores com a gentileza e o perigo da vida. Uma casa ia sendo montada aos poucos, a gente ia achando pedaços em dias diferentes e tentando fazer com que se encaixassem. Elas acabavam ficando com diversos tons. Resistência pra mim é isso. Aqueles barracos com diversos tons de madeira”.
Em “Degola”, somos apresentados pela personagem-narradora a uma realidade bruta, feita de pessoas deslocadas, reinventando a vida em novo lugar e colando pedacinhos que aparentemente não encaixam. Se a cidade, como afirmou o antropólogo Michel de Certeau, é o teatro de uma guerra de relatos, diante de injustiças de várias ordens, resta habitar uma casa-colagem feita de sobras justapostas, exemplar precário da luta por moradia e uma escritura: “Sonhar em ter pátio, quintal, grade, portão, cadeado, luz, água saindo da torneira. Não sabia que tudo era de importância gigante, meu mundo de criança com cara de cachorro velho da rua lambendo a cara”.
O livro de Malcher apresenta a pulsação de um texto pujante, que cria sua própria maneira de dizer aquela realidade bruta, vivenciada pela criança que sofre as consequências das escolhas dos adultos sem entendê-las de todo. Nela, Sol cria vínculos e tem suas “meninas” a quem dá nome. Elas são Juvinha e Barrinha, duas galinhas. Nesse universo em que os ovos das aves servem de alimento e se come suas versões “fritas, assadas, cozidas, cruas”, ela decide conviver e partilhar com elas um dialeto próprio.
Mas exercitar o afeto é tarefa ingrata, já que depenar, degolar e estripar são verbos conjugados no presente por aquela comunidade que testemunha lições diárias de barbárie, em que jovens são executados por traficantes (ou pela polícia) e suas cabeças penduradas a título de aviso e exemplo: “Na ocupação as cabeças não eram escondidas, elas amanheciam penduradas como as bandeiras hasteadas no mastro das prefeituras de manhã”. Nesse faroeste amazônico se destacam as lideranças comunitárias como o pai, que ajuda de várias maneiras as pessoas do lugar, assim como Irmã Eliana, religiosa comprometida com a causa dos migrantes. Ameaçados por grileiros e latifundiários, ambos pagam um preço alto por suas ações. De grande apelo visual, a narrativa é construída com mão segura, ainda que por vezes se ressinta de uma vibração emocional mais contida.
Nascida em Santarém, Malcher é jornalista e pós-graduada em antropologia e estudos de gênero. Premiada com o Jabuti pela coletânea de contos “Flor de gume”, de 2020, a escritora é devota da poesia de Cora Coralina, Drummond e Cecília Meireles. Em suas narrativas curtas, encantarias, rios e barcos se fazem presentes e demonstram uma linha de continuidade temática, vísivel nas escolhas da autora em construir imagens em torno de metáforas aquáticas. Em “Degola” elas se fazem ver na matéria fluida da memória, quando a narradora decide enfrentar o peso dos acontecimentos passados. Vem de Joana a decisão de matricular os filhos ainda pequenos na aula de natação, argumentando que em algum momento a pessoa nascida no Norte teria que encarar a água e entender que ela não mata porque quer, “mas porque nunca tentamos de fato saber que somos seus curumins”.
A ideia remete à cosmovisão indígena de parentesco com o elemento aquático e à crença de que existiriam outros mundos no fundo dos rios. Nesse sentido, nada mais natural do que o retorno ao ambiente familiar para os curumins urbanos. Ainda que desvinculados de uma série de tradições, voltar para a água da piscina, para eles, seria uma espécie de regresso à origem.
Sobre o tema, o artista Jaider Esbell afirmou, em texto publicado em seu blog em 2017, que historicamente os indígenas “tiram tudo do rio para a vida plena, mergulham pegam peixes, mergulham para interagir com outros seres, mergulham para amarem-se, mergulham para fazer parte da água”. O ativista roraimense da etnia Makuxi, já falecido, sustentava nessa reflexão que os indígenas continuam mergulhando, mas hoje topam não somente em ferro, vidro, concreto e alumínio, mas também em corpos humanos.
Ao enlaçar a morte e a água, o vaticínio de Joana ecoa a sentença de Esbell e surge como anúncio da privação do porvir. Ele se faz presente no desejo de que a água jorre da torneira e do chuveiro; na abjeção de ver um incêndio ignorado pelos bombeiros ser apagado com o conteúdo de um caminhão limpa-fossa; no pesadelo de vislumbrar o peixe jaraqui contaminado em meio a uma grande mancha de petróleo.
No plano da intimidade, o imaginário líquido surge na mistura de lágrima e cloro de quando Sol se dedica às aulas de natação; no pânico ao ser jogada em um igarapé pela mãe quando criança; na esperança de que o corpo do irmão não afunde. A morte de Yan criara um abismo entre ela e a mãe, e, ao narrar a falta desse afeto, Sol evoca um “amor salmoura”, encontrando expressão precisa para dizer do desencontrado querer que arde na pele.
As braçadas diárias na piscina, quando adulta, servem como antídoto a tudo que pesa e oprime, como a lembrança da expulsão da família da comunidade Novo Mundo e o terror instaurado no sábado de Aleluia, em uma cena de barbárie narrada com maestria. Não à toa Sol é dada a cuspir as próprias entranhas – ela “baldeia”, vomita a cada vez que a realidade se mostra intolerável e os limites se rompem.
Não afundar, mas levitar na água é o desafio do presente. E se a memória é uma ilha de edição - para pensar a célebre frase de Waly Salomão - fazer as contas com um passado sangrento se faz necessário para compreender as inúmeras perdas em busca da terra sonhada. No belo romance de Malcher, a conquista de uma morada é também a descoberta da escrita/escritura dessa experiência dolorosa.
STEFANIA CHIARELLI é professora de literatura brasileira na UFF. Suas publicações mais recentes são “Epigramas críticos” e a coorganização do volume “Histórias de água: o imaginário marítimo” em narrativas brasileiras, portuguesas e africanas.
“Degola”
De Monique Malcher
176 páginas
R$ 74,90
Entre a ternura e a violência
Monique Malcher
Especial para o EM
“‘Degola’ é um romance que encontra a justa medida entre a ternura e a violência para contar a história de Sol, cuja infância numa ocupação de terra em Manaus traz memórias que evidenciam a diferença entre o sofrimento intrínseco à condição humana e aquele erigido no barro da injustiça social.
A Zona Franca de Manaus atraiu para o Amazonas milhares de migrantes em busca de uma vida melhor. Era símbolo do progresso. Sem recursos, a família de Sol, protagonista de ‘Degola’, migra do Pará para o Amazonas na década de 1990 e vai morar em uma ocupação. A narração fica por conta de uma Sol adulta, que sabia que precisava desfazer, ao menos em parte, o que dela foi feito quando criança. Aprender a nadar se torna o caminho para essa transformação. Um rito de passagem, descrito com beleza e originalidade.
‘Degola’ é um delicado exercício de imaginação e de linguagem. A precisão e a incisividade da poesia se combinam com a complexidade narrativa do romance. O resultado é um pequeno milagre da escrita. O livro é minha estreia no romance depois do meu primeiro livro de contos, ‘Flor de gume’, ganhador do prêmio Jabuti em 2021.”
“‘Degola’ tem a força das cicatrizes, das memórias que insistem em construir a vida ao redor de uma marca na alma. Monique Malcher escreve com a maestria e a voracidade de quem sabe e tem muito para contar, sem acanhamentos.”
Dira Paes, atriz
Trecho
(De “Degola”, de Monique Malcher)
Pensei que seria possível lembrar do dia em que me vi pelo buraco da madeira da única casa que era nossa de verdade. Foi na ocupação que entendi que nunca ficaria feliz em chamar algo de meu. Não quero construir uma casa, quero que ela nasça pronta, cuspida por uma escritura, é assim a casa do meu sonho.
Algumas brechas nas paredes, no coração ou no tempo, são as casas que não queremos que revelam esse lado nosso que só nos rasga depois, quando escondemos o choro dentro do banheiro de um trabalho que não gostamos.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Costumava gastar minhas lágrimas, que umedeciam os olhos não tão mágicos de nossa casa violenta por seus frutos desencontrados de nossos passos, com tudo que nos lembrava passado. A dor de sonhar em uma família arranhada desde suas primeiras fabulações e núcleos comprometidos é que ninguém realmente se importa com uniões, e sim com os enredos solitários de histórias contadas por vencedores. E todos queremos, aos dentes, vencer.