LIVRO-REPORTAGEM

Livro sobre quilombos amplia vozes de comunidades silenciadas pela história

Em entrevista, autores de 'O grito dos quilombos' narram viagens pelo Brasil e debatem identidade negra, racismo e conflitos de terra

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Durante as visitas que fizeram às dezenas de quilombos para a produção de uma série de reportagens, os jornalistas Tayguara Ribeiro e Marina Lourenço, então repórteres da "Folha de S. Paulo", logo notaram a riqueza do material que tinham em mãos. Os depoimentos colhidos entre os moradores destas comunidades, distribuídas em oito estados, traziam medos comuns, como o de perder seus territórios ou ver sua cultura ser apagada – e não é pouca a perseguição que aflige os quilombos. Por outro lado, os mesmos relatos também evidenciam famílias esperançosas por um mundo menos desigual, e, sobretudo, que respeite as comunidades atualmente à margem da sociedade.

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Cada quilombo tem suas particularidades, e histórias que ajudam a entender o descaso do Estado brasileiro junto à população negra. É o caso do Quilombo de Alcântara, no Maranhão, no qual toda a dinâmica social foi alterada com a supressão do seu território para a construção do centro de lançamento espacial de mesmo nome. Ou do Quilombo de Palmares, em Alagoas, palco de um dos maiores massacres contra negros no Brasil colonial, em 1694, cuja tradição e cultura ainda são preservadas pelos quilombolas que vivem nos arredores.

A luta destas comunidades, para além de manter a sua identidade, é para sobreviver, especialmente diante dos conflitos por terras com latifundiários e empreiteiras. Os números da violência impressionam. Entre 2005 e 2023, foram assassinados 54 líderes quilombolas, conforme apontam dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Outro levantamento, do Instituto Socioambiental (ISA), indica que 98,2% dos territórios quilombolas estão ameaçados por obras de infraestrutura, empreendimentos minerários e por sobreposições de imóveis particulares. 

Em entrevista ao Estado de Minas, os jornalistas Tayguara Ribeiro e Marina Lourenço contam que tinham conhecimentos superficiais sobre o assunto antes de se aventurarem na produção do livro-reportagem “O grito dos quilombos: histórias de resistência de um Brasil silenciado” (Todavia). Os dois detalharam como foi a experiência de visitar estes quilombos que, apesar da marginalização e redução dos seus membros pelo êxodo, ainda carregam grande parte da história da formação da sociedade brasileira.

Vocês contam que não tinham vínculos diretos com quilombos, e tampouco haviam visitado algum antes da reportagem. Como foi a experiência para vocês, jornalistas negros, de conhecerem estes locais? E qual o principal aprendizado que vocês tiraram após estas visitas? 

Marina: Eu percebi que vivia numa bolha. Eu já tinha noção de que, por mais que sempre tenha tido muito interesse em ler sobre o Brasil que não é o meu Brasil, e as diferentes sociedades que formam esse país, o meu conhecimento era muito raro. Eu me toquei sobre como a gente conhece muito pouco, mesmo quando a gente acha que conhece o mínimo. Eu sempre tive uma afinidade grande com movimentos negros, no geral, mas acho os movimentos negros urbanos acabam sendo muito descolados da realidade quilombola brasileira. Não só quilombola, mas indígena também. E não por uma questão proposital, mas por um processo histórico que faz com que essas comunidades sejam vistas, por quem está de fora delas, como muito distantes. E, na verdade, elas estão muito mais próximas do que o que a gente imagina. 

Tayguara: A experiência de visitar essas comunidades foi muito impactante, interessante e importante. Eu tinha um conhecimento muito teórico, e ter contato com as realidades, ouvir a história das pessoas, ver o local onde elas moram, é muito diferente de conhecer só a teoria e olhar de longe. E ver a conexão que existe entre essas comunidades e a estruturação do Brasil. Ver na prática o quanto essas comunidades ajudaram, e ajudam, a construir e estruturar a nossa sociedade.  (...) É muito impactante também ver, enquanto pessoa negra, a receptividade dessas comunidades. Os quilombolas, de uma forma geral, têm uma visibilidade muito pequena na sociedade, em muitas áreas sociais, como o jornalismo. E ver como essas pessoas querem contar as histórias delas e essa receptividade também por ver pessoas negras indo ouvir a história delas.  

O livro mostra que nessas comunidades, apesar de cada uma ter a sua própria cultura, com costumes muito particulares, parece existir alguns demônios comuns a todas, como, por exemplo, o medo da não titulação das terras, o que afeta toda a relação destas pessoas. Vocês notaram semelhanças entre os quilombos, mesmo tão distantes geograficamente entre si? 

Tayguara: Eu diria até que tem muitas coisas em comum com a população negra não quilombola, como, por exemplo, o descaso do poder público, enfrentado por comunidades negras quilombolas e não quilombolas. Essa é a parte ruim, talvez, da conexão entre as comunidades. Especificamente sobre os quilombolas, o território é parte muito importante da identidade deles, e isso é comum em todas as comunidades. Acho que sempre esteve presente, tanto nas reportagens como no livro, a importância da luta pela titulação. Até porque a primeira coisa que sempre falavam pra gente era “território, território, território”. Não é difícil para nenhuma pessoa imaginar o quão importante é ter a garantia do seu território. 

A conexão com a natureza também é uma questão muito importante em todas as comunidades, mesmo nas mais urbanas. Assim como os laços culturais. É claro que cada local acabou miscigenando a sua cultura, por influências distintas, mas a cultura é sempre importante, mesmo que sejam músicas diferentes, jeitos diferentes de fazer um artesanato. A cultura está sempre presente nessas comunidades como uma coisa que ajuda a manter a ancestralidade, e isto é até olhado na hora de fazer o relatório antropológico. Esse laço cultural, ancestral, familiar, eu vejo muito na comunidade negra não quilombola também. 

Marina: Ao mesmo tempo que as comunidades são muito diferentes, há também muito em comum. Há uma tônica que percebi em todas que é uma consciência racial muito forte e muito presente. A noção sobre os males do racismo na sociedade. E cada quilombola tem o seu jeito de falar, a sua perspectiva, baseada, claro, no seu dia a dia e nas suas histórias. Eu senti uma consciência racial muito forte de como o Brasil é um país racista, como o Estado brasileiro é racista, como as comunidades quilombolas estão, muitas vezes, às margens da sociedade. 

Também sinto que a relação com o território é o que mais une as comunidades, inclusive aquelas que têm o título. Isso vai muito além do documento. É algo muito significativo, com um valor simbólico muito grande, passado de geração para geração. Até em casos iguais ao de Alcântara, no qual há diferenças geracionais, em que as gerações mais velhas falam que os mais novos têm outros olhos, ainda existe uma noção muito grande sobre o que foi a construção da base para a comunidade quilombola. Existe uma noção muito grande sobre o que aquele território representa para cada uma daquelas comunidades. Esse laço vai muito além do título. Para além de “sei que vou ter meu direito garantido pela Constituição, eu sei que vou estar aqui, assim como o meu bisavô, minha bisavó lutaram para estar aqui. Agora eu tenho um documento que só assegura aquilo que já sei, que esse é o meu lugar”.

Os quilombos apresentados na reportagem apresentam dinâmicas sociais quedivergem da sociedade fora dali. O livro até cita a comunidade Itamatatiua, no Maranhão, na qual as mulheres têm posição de poder e tomam as principais decisões. Como vocês notam, a partir das visitas, a noção de cidadania diferente dentro e fora dos quilombos? E também, há exemplos nestas comunidades que podem ser inspiradores para a sociedade de fora? 

Marina: Essa comunidade tem um modelo de cidadania que é bem diferente do modelo político hegemônico brasileiro, institucionalmente falando. Não é que lá não exista machismo ou questões de gênero. As divisões são bem demarcadas com base no sexo. Os homens fazem determinadas coisas, as mulheres fazem outras. Mas, ainda assim, funciona de uma maneira muito diferente para quem não vive naquela comunidade. Inclusive em relação a várias outras comunidades quilombolas, que são muito plurais e diferentes entre si. Para quem está de fora dessa comunidade, é algo que realmente surpreende, mas as mulheres ali falam sobre isso de uma maneira muito natural. Elas acham curioso como as pessoas se surpreendem ao ver que lá são as mulheres que ficam no poder. Uma pergunta recorrente que elas escutam é se se consideram feministas, mas não é isso. Para elas, é uma questão que vai além de ideologia. É algo que está meio intrínseco já na sociedade. 

Tayguara: Eu diria que as pessoas negras, tanto dentro quanto fora dos quilombos, não exercem sua cidadania plenamente, pois não têm acesso aos direitos da forma que deveriam. Em alguns locais mais, em outros menos, mas esse direito pleno, tratando-se de pessoas negras, de alguma forma é negado. Pelo racismo, pelo acesso ao emprego, à saúde, à educação, entre outros. E isso mina o processo de cidadania de qualquer pessoa. 

Sobre o formato dos quilombos, sem generalizar, para não cair no estereótipo inverso, eu diria que na maioria das comunidades, não todas, há uma percepção de uso comum do território. Essa forma de organização social, em que o território pertence a todos, sendo de uso comunitário, é algo muito interessante e do qual se pode aprender com os quilombolas. A relação sustentável com a natureza, de não utilizar os recursos até o esgotamento, é diferente do que se vê fora dos quilombos e das comunidades indígenas, na qual a relação é de esgotar tudo e depois partir para o próximo local. Ali é diferente. Como o território faz parte da vida do grupo, é importante preservá-lo. É claro que há exceções, nem todas as comunidades seguem esse modelo, mas em muitas observa-se esse cuidado com a natureza. 

Trechos

(De “O grito dos quilombos”)

“Ao contrário de Ignácio, nenhuma dessas pessoas trabalhou ali à força. Assim como o pai de Terezinha, já tinham nascido no Brasil da abolição. Ainda assim, isso não significa que tiveram uma vida completamente oposta à de seus ancestrais. Pelo menos, não aos olhos de dona Terezinha: ‘A gente não tinha nada. Veio a libertação e todo mundo continuou escravo. Os negros continuaram trabalhando para os brancos. Não tinha o que fazer. Hoje, percebo que, desde criança, estive em trabalho escravo. Ganhava muito pouco pelo que fazia. Às vezes, trabalhava em troca de comida e roupas usadas’”. 

“As casas do Aldeia estão, como a maioria dos quilombos urbanos, espalhadas entre imóveis que não têm ligação com o povoado. E a convivência com a vizinhança nem sempre é harmoniosa. ‘Tem um vizinho nosso que não é quilombola e não deixava os filhos dele brincarem com os da minha irmã, porque são negros’, contou Manoel. ‘Me espanta o quanto de território a gente já perdeu. Eu fico imaginando como vai ser daqui a dez anos’”. 

“Segundo Dorinha, o grupo de dança é uma forma de criar identidade e falar de cultura negra. A religiosidade também está presente, como ferramenta: nas aulas, existem referências a orixás, tradições africanas, musicalidade e luta contra o preconceito. ‘A gente faz referência aos orixás. Principalmente orixá mulher, que é mãe, que é dona de casa, que é amorosa, mas também que sabe defender os seus e que sabe guerrear, buscar caminhos. É a orixá Oxum’, afirma com tom de tristeza e preocupação, ao mesmo tempo que demonstra orgulho do projeto”. 

Sobre os autores 

Tayguara Ribeiro é jornalista, pós-graduado em Política e Relações Internacionais, e atua como redator na Folha de S. Paulo, tendo passagens pelo Diário de São Paulo, Agora SP, Brasil de Fato, Diário de Guarulhos, Rádio 2 e TV Mix. Marina Lourenço é jornalista, atualmente repórter de cultura no G1, com passagens pela Folha de S.Paulo, Agência Pública e Carta Capital. 

“O grito dos quilombos: histórias de resistência de um Brasil silenciado”

De Tayguara Ribeiro e Marina Lourenço

Todavia Livros

264 páginas

R$ 89,90

OUTROS LANÇAMENTOS

A trajetória do ativismo negro norte-americano desde a abolição da escravidão no país, em 1865, e sua perseverança diante das transformações do racismo é apresentada por “Metamorfoses do racismo: uma história do ativismo negro nos Estados Unidos”, resultado dos estudos de Flávio Thales Ribeiro, doutor em história pela USP. O livro aborda personagens importantes do ativismo afro-americano na luta pela igualdade racial, de líderes antigos, como Booker T. Washington, Malcolm X e Martin Luther King, a nomes atuais que seguem questionando a violência racial em meio ao avanço do supremacismo branco nos Estados Unidos. 

“Metamorfoses do racismo: uma história do ativismo negro nos Estados Unidos”

Flávio Thales Ribeiro Francisco

Companhia das Letras (Selo: Zahar)

336 páginas

R$ 89,90 

“Ewé”, uma das obras mais notáveis de Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), fotógrafo, etnógrafo e antropólogo franco-brasileiro, ganhou uma nova edição, perpetuando um registro importante dos iorubás. A obra apresenta 447 fórmulas de usos das plantas para fins medicinais e de trabalhos espirituais, colhidos em meio à esta sociedade distribuída pela África Ocidental, e que teve conhecimentos passados por escravizados trazidos ao Brasil. As receitas são apresentadas em português e em iorubá - língua que, mesmo em texto, preserva a tradição de ser cantada para ser entendida. 

“Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá”

Pierre Fatumbi Verger

Companhia das Letras

784 páginas

R$ 139,30 

Diante do avanço do reacionarismo por todo o mundo, o filósofo norte-americano de ascendência nigeriana Olúfmi O. Táíwò aborda em “Captura” como as políticas de identidade têm sido tomadas e neutralizadas por grandes corporações e grupos poderosos na tentativa de arrefecer as demandas por uma maior justiça social. O livro resgata as visões de revolucionários e intelectuais do século XX, defensores de uma atuação coletiva na luta por direitos. 

“Captura: como a elite sequestrou as políticas de identidade”

Olúfmi O. Táíwò

Tradução de Maria Fernanda Novo e Teófilo Reis

Companhia das Letras (Selo: Zahar)

184 páginas

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