Márcia Denser -  (crédito: arquivo pessoal)

Márcia Denser

crédito: arquivo pessoal

 

Schneider Carpegiani

Especial para o EM

 

“Você nunca ouviu falar em maldição. Nunca viu um milagre”. Recordo esse trecho do sucesso “Só as mães são felizes”, de Cazuza, para pensar nas forças, ao mesmo tempo antagônicas e dependentes, que regerem os temas da literatura brasileira, na década de 1980. Maldição e milagre não como opostos, mas como circuitos de atração. É o que o roqueiro parecia dizer na sua composição sobre a vida on the wild side: sem maldição não há milagre, e vice-versa.

 

O País, em pleno fervor de redemocratização, recebeu dois golpes: a derrota da emenda parlamentar, que propunha eleição direta para a presidência, e a morte de Tancredo Neves, escolhido de forma indireta, sem chegar a assumir o governo. Paralelamente, a epidemia da aids interrompia a liberdade sexual dos anos 1970.

 

“Não é de estranhar, portanto, que o motivo funéreo se intensificasse na cultura literária brasileira de fins do século XX”, escreveu a crítica Flora Süssekind, num panorama sobre os anos 1980, de apropriado título “Pompas fúnebres”.


Maldição & milagre regem também o texto do crítico Italo Moriconi, sobre os anos 1980, no seu “Os 100 melhores contos brasileiros do século XX”. Se por um lado Moriconi afirmava que “A geração que fez a revolução sexual agora coloca no papel suas histórias”; por outro, apontava que “Sensações de fracasso e vazio parecem anunciar um fim de século melancólico”.

 

 

Todas essas agulhadas de agonia e êxtase geraram algumas das obras mais potentes daquela década, como “A teus pés”, de Ana Cristina César, “Morangos mofados”, de Caio Fernando Abreu, “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, a estreia arrebatadora de João Gilberto Noll, com “O cego e a dançarina”, e, claro, “Diana caçadora”, a obra-prima da escritora paulistana Márcia Denser, falecida no último dia 05, aos 74 anos.


Dessa turma citada, talvez La Denser (como muitas vezes assinava) seja a menos lembrada. De produção esparsa, estreou em 1977, com os contos de “O tango fantasma”, sobre uma jovem paulistana de classe média, uma femme fatale em processo de formação, com um imã para homens mais velhos e erráticos. Já na estreia, um olhar ferino, voltado para o mundo e para si mesma, chamava a atenção.

 

 

Como cenário das histórias, sempre o espaço de uma metrópole lá fora, servindo de cartão postal e de arapuca. Como bem apontou Italo Moriconi, era possível ver em La Denser uma sombra do Rubem Fonseca, que se consagrou no fim dos anos 1960 (sobretudo o Fonseca de “Lucia McCartney”), mas de uma forma bem particular e que, algumas vezes, superou até o mestre.

 

É em 1986 que chega a personagem Diana Marini, 30 anos e alguma coisa, publicitária paulistana bem-sucedida, ainda que continue morando com os pais, e sempre disponível para um novo B.O. emocional. Agora já é uma femme fatale completa e, em vários momentos, fatal com sua própria vida.

 

A ironia que havia em “O tango fantasma” explode, e Diana Marini transforma-se num alter ego, numa máscara, que La Denser carregou até o fim. No conto de abertura de “Diana caçadora”, o divertidíssimo “Welcome to Diana”, temos um resumo do poder de ataque de La Marini: “Você ainda não viu nada, darling, um sujeito com um mínimo de bom senso não se meteria comigo. Felizmente é o que a esmagadora maioria tem demonstrado. Eu seria uma boa garota, se me dessem uma chance. Claro. Abra o dicionário, garota, e procure na letra ‘t’, de trouxa”.

 


É possível pensar em “Diana caçadora” e em “Morangos mofados” (1982), de Caio Fernando Abreu, como os dois grandes livros de contos que tematizaram o Brasil que queria ser moderno, cosmopolita e urbano, após a ditadura militar.

 

Muitas vezes tratadas apenas como obras sobre tensões amorosas e afetivas, ressalto, justamente por isso, o forte caráter político de ambas. Em “Diana” e em “Morangos”, encontramos uma geração que, apesar das conquistas, apesar da democracia novinha em folha, só enxerga o beco, a viela já sem saída.


Em vários dos contos de “Diana caçadora”, após noitadas regadas a todo tipo de exageros, a personagem até tenta fugir, mas acaba voltando para a boca da armadilha. É o que encontramos, por exemplo, no último parágrafo do conto “Tigresa”:

 

“Sozinha, na rua deserta, amanhecia. Teria muito que andar até chegar a alguma avenida, algum táxi, algum ônibus, alguma parte. Atravessei a rua. Encostada no muro, olhei para o alto do prédio, ainda iluminado em certos andares e, não sei por que, lembrei aquela frase de Ernest Hemingway em ‘As neves de Kilimanjaro’ a respeito de um tigre que foi encontrado morto, enregelado entre os cumes cobertos pela neve e que ninguém, ninguém jamais soube explicar como e por que ele chegou até lá”.

 


No seu conto mais famoso, “O vampiro da Alameda Casabranca”, já nas primeiras linhas, é visível o embaraço de quem sabe que não há outro caminho, além de mostrar o pescoço e esperar a dentada: “A não ser pelo filme japonês em cartaz, não havia nenhum interesse em sair com aquele sujeito, poeta, que se ostentava como ‘maldito’ só para filar seu canapezinho nas altas rodas”.

 

A mesma sensação nos acompanha no conto que Caio Fernando dedicou para La Denser (ou para La Marini), chamado de “Dama da noite”, que começa: “Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rodando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar”. Maldição e milagre sempre em comunhão. Anos 1980: nunca fomos tão (in)felizes.


A última edição de “Diana caçadora” saiu há 20 anos pela Ateliê Editorial, acompanhada de “Tango fantasma”. Desde então, está fora de catálogo. Nos últimos anos, La Denser se dedicou a escrever suas memórias e ao ativismo político pelas redes sociais. Por problemas de saúde, foi exilando-se aos poucos, mas sem jamais perder o gosto pelo combate e por um ideal do que entendia como Grande Literatura.

 

Ao criar Diana Marini, La Denser criou junto uma cidade de São Paulo de poetas vampiros e de aventureiros de toda estirpe, com sua Rua Augusta mítica, que, hoje, luta para sobreviver a uma política neoliberal, que não acredita na noite como princípio, meio e fim de uma ideia de liberdade. Assim como Rita Lee, Marcia Denser foi para São Paulo a sua mais completa tradução.

 

Schneider Carpeggiani é crítico literário e editor

Trecho

(Do conto “O vampiro da Alameda Casabranca”, de Márcia Denser)


“Como nesses clássicos de horror, ao sairmos do cinema ‘um vento gélido açoitou-nos os ossos’. Confesso que não fiquei surpreendida quando o Poeta sugeriu passarmos no seu apartamento para pegar um pulôver, coitadinho. Antes tentei aliciá-lo para uma cave de queijos e vinhos, mas ele não entrou. Também não queria ser grossa ou passar por retrô ou sei lá. No fundo, no fundo, estava querendo ver até onde ia o meu fascínio - e eu sei onde vai o meu fascínio - com o Poeta. Sabe-se lá.


No apartamento (não fosse pelo excesso de cartazes politicosos, até que bem jeitoso. Um tanto ‘artístico-displicente’ demais, eu acho, como tantos outros onde eu estivera, de poetinhas, atores de teatro, bichas, são todos iguais, deve ser a fada madrinha), eu aproveitei meu fascínio ao máximo.

 

Munida dos meus trabalhos, submeti o Poeta a uma intermitente sessão de leitura dos melhores trechos por umas duas horas. Minhas estórias são boas, mas lidas assim, no tapete, bebendo um bom vinho tinto, um fogo aqui dentro, ar-condicionado, almofadas e mantas peruanas, música suave e um sujeito querendo me comer ali do lado, não há talento que resista.

 

Então, ele me submeteu a mais duas horas de suas poesias, aliás inéditas. Se fossem boas até que valeria o esforço, o fascínio, a atenção fingida (tinha ganas de estourar de rir cada vez que ele pigarreava, afivelando um ar circunspecto, como se preparando para ler um discurso, um obituário, um testamento, enfim, algo muitíssimo sério), o vinho, aquele apartamento, o filme japonês, os feriados, aquelas profundas crateras que lhe sulcavam o rosto, o ligeiro cheirinho oleoso e adocicado que se desprendia delas, a mania de falar de si próprio na terceira pessoa, como se fosse um fantasma.”

 

Depoimento

 

“Duas almas perdidas em um plantão de réveillon”

Rogério Menezes
Especial para o EM

“Escrever algo sobre La Denser, sugere o editor. Penso em recusar. Mas não posso. Penso então uma historinha curta que protagonizamos. É impossível, e talvez indiscreto, escrever tudo que ela foi e o Brasil não viu.

 


A ação se passa num réveillon do final dos anos 1980. Éramos duas almas perdidas. Éramos jornalistas e fomos escalados para o plantão de final de ano da 'Folha da Tarde'. Deu no que deu: eu e ela passaríamos a última noite do ano juntos. Estávamos perto do quarto-e-sala onde eu morava. Para lá fomos, descemos no oitavo andar.

 


E aí pusemos algo para tocar, demos algum passo de dança, e, após alguns cálices de vinho, ela, de súbito, tirou exemplar de ‘Diana caçadora’ da sacola, e disparou: 'Vamos ler em voz alta juntos?’ Como não topar? Lemos por algum tempo (uma hora?) até que tudo se apagou. Dormimos. Isto é o que posso escrever entre as muitas ocorrências que passamos juntos. Ela era uma fera. Tchau, querida!”



Rogério Menezes é jornalista e escritor, autor de livros como “Um náufrago que ri” e “2+1”