Carlos Marcelo e Tiago de Holanda

 

Especialista na obra de Graciliano Ramos, o mineiro Wander Melo Miranda supervisionou o projeto de reedição da obra do escritor alagoano para a editora Record. Professor emérito da Faculdade de Letras da UFMG, ele explica ao Pensar o porquê de a obra de Graciliano seguir atual: “Os romances e os livros de memórias de Graciliano ao mesmo tempo em que contam uma história refletem sobre ela, sobre como é construída – está aí um dos traços da sua modernidade”. E também sobre o caráter do escritor: “Exemplo raro de dignidade pessoal e ética intelectual”.

 

Quais as suas primeiras lembranças da obra de Graciliano? Quais livros ou passagens causaram o primeiro impacto no Wander leitor?


A primeira lembrança que tenho é da leitura de “Vidas secas”, cujo volume comprei ainda muito jovem na antiga livraria Tapir, na avenida Afonso Pena. Devia ter 14-15 anos. Já ouvira falar do escritor e estava a par do romance regionalista nordestino, que lia nos livros publicados pela editora José Olympio, na coleção Sagarana.

 

E estava lendo há algum tempo, claro, Jorge Amado. Graciliano foi uma descoberta, uma paixão à primeira vista e superou todas as minhas expectativas. O capítulo “Baleia” me tocou especialmente: até hoje me emociono quando o releio. É para mim o que de mais perfeito já se escreveu em língua portuguesa. Pode ser porque gosto muito de cachorro que penso assim, mas na verdade é porque Graciliano é mesmo muito bom.

 

O sr. supervisionou o projeto de reedição da obra de Graciliano pela Record anos atrás. O que considera mais marcante nesse trabalho?


Foi um trabalho gratificante, porque pude penetrar na feitura do texto palavra por palavra, letra por letra. Além do mais, fiz o trabalho com a querida e inesquecível Luísa Ramos Amado, filha de Graciliano. Essa leitura minuciosa comprova a qualidade excepcional do texto do mestre Graça, que pudemos restituir ao original.

 




Quais as principais diferenças entre os livros biográficos publicados sobre Graciliano? Eles configuram Gracilianos que sejam, em alguma medida, divergentes entre si ou são complementares?


Graciliano tem uma fortuna crítica que não cessa de crescer, o que demonstra sua atualidade e sua grandeza. Ele é um exemplo raro de dignidade pessoal e de ética intelectual, o que nos impulsiona a conhecer sua vida e sua obra – indissociáveis.

 

Todos os trabalhos sobre ele, em maior ou menor grau, contribuem para traçar o perfil de uma personalidade excepcional, coerente que foi em todos os seus atos, difícil de encontrar no Brasil. As leituras são complementares e se unem pela paixão que o autor desperta em quem se debruça sobre sua obra e sua vida.

 

Poderia explicar por que em Graciliano, o objeto da leitura é a própria leitura, como definiu em artigo no suplemento Pernambuco?


Os romances e os livros de memórias de Graciliano ao mesmo tempo em que contam uma história refletem sobre ela, sobre como é construída – está aí um dos traços da sua modernidade. O escritor é leitor de si. Seus narradores em primeira pessoa não apenas escrevem, mas perguntam o tempo todo o que é escrever, como se escreve e por quê.

 

Seus leitores e leitoras acabam, assim, participando do processo de construção do texto, são parceiros na sua realização. Mesmo “Vidas secas”, que é narrado em terceira pessoa, é, de forma oblíqua e não direta, uma sofisticada reflexão sobre o ato de escrever.

 

Não poderia ser narrado em primeira pessoa, afinal Fabiano tem dificuldade em se expressar verbalmente, mas narrar numa terceira pessoa clássica seria afastar-se dos destinos de seus personagens, com os quais o narrador se solidariza.

 

Escolhe então o discurso indireto livre, como uma câmera de filmagem que caminha ao lado dos retirantes. Não fala por eles, abre espaço para que se apresentem em toda sua desolação, de forma magnífica e terrível. Há hoje algo mais atual do que isso em literatura, na brasileira em especial? As minorias que hoje abrem espaço de fala literária são todas filhas de Graciliano – ou de Fabiano e sinha Vitória?

"Vidas secas": ilustração de Aldemir Martins - edição de 1969 - Livraria Editora Martins

ilustração de Aldemir Martins

 

Como a ironia marca a obra de Graciliano?


Graciliano teve dificuldade em aprender a ler. Menino muito sensível, não se encaixava nos então rígidos e às vezes brutais métodos educacionais em casa e na escola. Mas certa vez umas moças o elogiam e ele percebe que as palavras podem significar o contrário do que dizem, depende do modo como são usadas. Está aberta uma brecha por onde pode se movimentar, livre de qualquer opressão: nascem o leitor e o escritor Graciliano.

 

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Quanto à vida de Graciliano, o senhor pode destacar questões que as biografias publicadas ainda não tenham tratado de modo satisfatório? Como está o seu projeto?


Como falei, Graciliano tem uma fortuna crítica extensa, variada e respeitável, que já disse quase tudo sobre ele. Sua obra, no entanto, permanece, como toda grande obra, em aberto. Traçar sua biografia atualmente não traz grandes novidades, novo deve ser o modo de abordar sua vida e tentar, pela interpretação, entender melhor sua trajetória luminosa. É o que estou tentando fazer, sem deixar minha admiração por ele impedir uma visão mais clara e objetiva da sua personalidade.

 

A produção crítica dedicada a Graciliano é ampla e diversificada. Apesar disso, é possível identificar tendências de pensamento predominantes? A recepção crítica tem sofrido mudanças relevantes nas últimas décadas? Algumas dessas leituras podem ser consideradas reducionistas?


Toda leitura sobre uma grande obra literária é e não é reducionista. Bem fundamentada e rigorosa no uso dos conceitos empregados para lê-la é sempre válida. Graciliano já foi objeto de várias perspectivas críticas: marxista, estilística, estruturalista, psicanalítica, descontrutivista. Houve grandes acertos e não menores equívocos, mas a leitura sobre ele continua avançando, como indica o grande número de boas dissertações e teses sobre sua obra. Achar que uma perspectiva crítica ou teórica é melhor do que outra é uma grande ilusão, demonstra pouco conhecimento da obra literária e artística.

 

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Nos últimos anos, foram lançados livros com textos inéditos de Graciliano, como Garranchos e angaços. Essas publicações podem contribuir para um questionamento de ideias já consolidadas e disseminadas sobre ele?


Para questionar não digo, Graciliano sempre foi muito coerente. Acho que oferecem novos elementos para novas leituras, contribuem para que se amplie o raio de alcance da sua obra.

 

Qual o seu livro favorito de Graciliano? Por quê?


Certa vez perguntaram a Antonio Candido qual era nosso maior escritor, se Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Sabiamente respondeu que era o que ele estava lendo no momento. Eu o acompanho na resposta. Acabei de reler “Angústia”, pela décima vez, sei lá, e saí da leitura fascinado. Difícil escolher uma só obra de quem escreveu praticamente só obras-primas.

 

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“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. O que as palavras de Graciliano dizem aos escritores e leitores contemporâneos?


Que o escritor é um lutador, para usar o poema de Drummond. Parafraseando um conhecido samba de Vinicius de Moraes, fazer livro não é contar piada... quem faz livro assim não é de nada. A palavra é uma arma que o escritor usa para contribuir para o avanço da vida do homem sobre a terra, para entender seu passado e presente, para lhe abrir perspectivas de futuro. Graciliano compara o ofício do escritor ao do sapateiro, sovelas e ilhoses a pronomes e verbos. São armas insignificantes, diz ele, mas são armas, conclui.

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