Ensaio ou ficção? A pergunta é mesmo inevitável sempre que um novo livro de Silviano Santiago chega às livrarias. A resposta então já vai aqui, de cara: “Grafias da vida – a morte” é um livro de ensaios, caro leitor. Num país onde o escritor não pode ser inteligente, e em que muitos acreditam que criação literária é mais fruto da inspiração do que da transpiração, a informação é mesmo relevante. Entre nós, leitores de teoria leem pouca ficção. E os de ficção, pouca teoria. Vivendo entre as duas bolhas, Silviano, há mais de meio século, é um acorde dissonante. Nos ensaios reunidos no novo livro, o leitor encontrará um pouco da produção nos últimos anos do escritor, nascido em Formiga (MG) em 1936 e integrante da Academia Mineira de Letras desde 2021. Vencedor do Prêmio Camões de 2022, entregue apenas este ano por conta do boicote da gestão federal passada, Silviano conversou com o Pensar. Na entrevista, falou, entre outros assuntos, da importância de Mário de Andrade e Carlos Drummond na sua obra e relembrou da amizade com o artista plástico Hélio Oiticica. “Hélio não foi um interlocutor. Deu-me uma lição de vida”.

Quando “Machado” foi lançado você disse que o romance fazia parte de um conjunto de livros chamados de “romance de sobrevivência”. “Grafias de vida – a morte” é um livro de “ensaios de sobrevivência”?
Observação e pergunta são corretas. O começo do fim, ou melhor, a literatura da sobrevivência se anuncia no livro de poemas Cheiro forte. A palavra “cheiro”, no título, afirma a necessária ambiguidade na experiência da vida. Cheiro aponta tanto para o perfume sublime como para o fedor cadavérico. Com o poema “Dissolução”, Carlos Drummond afinou meus ouvidos: “Pois que aprouve ao dia findar / aceito a noite”. Dito como “justo” por Paul Valéry, o sol do meio-dia, a iluminar igualitariamente a experiência de vida, transforma-se no lúgubre e contraditório sol da meia-noite. A contagem das horas se torna regressiva. A experiência de vida oscila entre a liberação do corpo na terra e a imaginação febril, insana e redentora. No romance Machado, que narra os últimos anos da vida do grande romancista, faço o primeiro acerto de contas com a doença e a morte. Vale dizer: com o relógio da meia-noite, a medicina, alopata e homeopata. O pensador palestino Edward Said ofertou-me a tranquilidade para assumir o “estilo tardio”. Escreve Said: ele “dá voz ao desencanto e ao prazer, sem ter que resolver a contradição entre um e outro”. No novo livro, destaco o mais febril e prazeroso dos ensaios: “A decadência e suas elegâncias”. Viajo da Roma derrubada de Satiricon até a belle époque pintada por João do Rio em A alma encantadora das ruas, passando pela Renascença e o século 19 francês.

Em um dos ensaios, você analisa a obra de Hélio Oiticica. Ele foi um interlocutor importante?
Hélio foi uma figura meteórica e fatal na minha vida. Nosso percurso de vida em comum pode ser localizado e datado. A ilha de Manhattan, entre 1969 e 1973. Ensinava literatura francesa e estruturalismo em Buffalo e ia com frequência a Nova York. Os já sete anos de vida como professor universitário me adormeciam na prosperidade e levei um susto e me reestruturei diante da lição de afronta (no sentido mais puro e político do termo), que ele representava 24 horas por dia. A primeira consequência aparece em 1971, no ensaio “O entre-lugar do discurso latino-americano”. Eu o li, ainda em francês, em Montreal num simpósio com Michel Foucault e René Girard. Tornava-se imperioso pedir demissão do posto excepcional a que tinha chegado no estrangeiro e recomeçar de zero no Brasil. Minha prosperidade era solta e vazia. Ensino no departamento de francês, mas luto e consigo verba junto ao decano para convidar ao Hélio, ao Abdias do Nascimento, ao Glauber Rocha e ao Teatro de Arena para se apresentarem com destaque em Buffalo. Hélio não foi um interlocutor. Deu-me uma lição de vida.

Mário de Andrade é o nome mais citado do livro. Ao lado de Drummond e Oswald de Andrade, ele foi mesmo o autor mais importante na sua formação?
Tem razão. A trinca dinâmica é, sem dúvida, importante na minha formação. Quem me conhece na intimidade sabe que misturo juras definitivas de fidelidade com infidelidades sinceras. Destacam-se os três, sim, mas ao lado de outras figuras. Já citei o Hélio, menciono ainda André Gide, Charles Baudelaire, Jacques Derrida, Murilo Mendes, Machado de Assis, e assim por diante. Nesse capítulo, o importante é que eu destaque, não os escritores geniais, mas dois intelectuais magníficos, hoje quase anônimos, o Jacques do Prado Brandão em Minas Gerais e o Alexandre Eulálio no Rio de Janeiro. Eles foram atenciosos e generosos. E, mais importante, foram dois amigos sinceramente preocupados com a minha boa formação cultural. Por essa “preocupação com o meu futuro” eu os chamo mentores e não mestres. Os mestres me voltam para o passado. Eles me equilibram pela desarmonia. Pela malícia. Esta se expressa por conselhos práticos e risonhos, e até irônicos, que entram em choque com a dureza e a severidade que orientam a formação propriamente universitária. Se tenho carreira de professor e de artista é por causa deles e não por causa dos geniais poetas, romancistas e filósofos que eu lia. Simplificando, eles obrigam o professor, pesquisador e intérprete a ter os pés fincados no chão. Expresso-me como inventor de linguagens, que tem prazer em combiná-las como se transgressor das leis. Minha obra é um bangue-bangue de estilos variados.


Em um dos ensaios, você cita uma carta de Drummond a Mário, onde o mineiro discute com o paulista a questão do nacionalismo, o que significa “ser brasileiro”. No mundo globalizado como vê a questão? E por tabela: a literatura identitária.
Tardiamente, na década de 1960, é que me assumi como “ser brasileiro”. Acordei-me globalizado para essa questão fundamental. Já em Paris, com bolsa de estudos concedida pela França. No ano seguinte, estava nos Estados Unidos da América com salário de professor universitário. Refaço a cronologia do exílio voluntário. 1960-1, especialização em literatura francesa no Rio de Janeiro. 1961-2, doutorado na Sorbonne (deixado incompleto então). 1962-4 Professor de literaturas brasileira e portuguesa na Universidade do Novo México. Do ponto de vista biográfico, veja como me constituo e me conscientizo de que é o “entre-lugar”, a diferença, o lugar de eu ser brasileiro. Adepto das filosofias da diferença, incumbo-me de teorizar sobre a questão concreta em reflexões por escrito. O primeiro ensaio escrito é “Eça, autor de Madame Bovary”. Percebe-se que o próprio lugar nacionalista é primeiro deslocado do Brasil para Portugal, dependente da França. Não busco o nacionalismo xenófobo. O segundo ensaio é “O entre-lugar do discurso latino-americano”. Sentia-me brasileiro na América Latina colonizada pela Europa, já que tinha recebido educação para ser brasileiro “iluminista” na universidade brasileira. O terceiro ensaio é “Apesar de dependente, universal”. Forneço apenas dados concretos. Experiência de vida e ensaios. A discussão escapa a essas poucas linhas. Em poesia, apareço já constituído no livro Crescendo durante a guerra numa província ultramarina. Costumo dizer que esse livrinho é o meu correspondente ao ensaio “Instinto de nacionalidade”, de Machado de Assis.


No ensaio “Jornalismo cultural norte-americano, Joan Didion” você analisa o novo jornalismo, e relembra sua amizade com o Tim Lopes. Você sempre publicou textos em jornais. Pode falar de sua relação com o jornalismo?
Orgulho-me de O Globo ter-me solicitado o obituário do Tim. Eu o chamava de “correspondente de guerra” e o encontrava, nos fins de semana, num pé-sujo da rua dos Jangadeiros. Em memória, reproduzo estas frases escritas em 2002: “Tim subia até o campo de batalha. Era a favor dos que nada ganhavam e tinham tudo a perder. Ficava entre fogos cruzados, testemunha indispensável de uma guerra que não podíamos mais pensar que estava tão distante quanto a guerra no Afeganistão ou no Oriente Médio. A guerra é aqui.” Mas sua pergunta me joga para longe no tempo. Bem jovem, ainda balconista na Dental Santiago, escrevi crítica de cinema regular para os jornais de Belo Horizonte. Já nos suplementos de então publiquei tradução de textos teóricos de André Bazin e André Malraux, por exemplo. Até cheguei a ser ator num filmete experimental e a traduzir (absurdo dos absurdos) uma peça de Samuel Beckett, Fim de jogo. Chegava à literatura, nunca fui jornalista, no sentido preciso do tempo, mas frequentei algumas poucas redações onde tinha amigos. A partir dos anos 1970, desejando regressar ao Brasil fiz o que se chama de jornalismo cultural. Durante décadas colaborei nos principais jornais e revistas brasileiros. Lancei bons autores e desandei com outros. Critiquei autores, critiquei. Sem querer, fiz inimigos, sabendo na verdade que os faria. Não há pior atividade em jornal que a de crítico das artes.

Em “Das inconveniências do corpo como resistência política” você retoma a um tema importante na sua obra: o corpo. Por que sua obra, que sempre foi política (não partidária) foi lida por uma parte da crítica nos anos 1970 e 1980 de alienada? A homofobia teve papel importante para esta rotulação?
Não há como agradar a “toda” a crítica literária. Em tempos democráticos, repitamos Nelson Rodrigues: “a unanimidade é burra”. Não sei se compete a mim analisar “uma parte da crítica” que me julgava alienado e talvez ainda me julgue. Volto a outro lugar-comum: o valor de uma obra se define tradicionalmente pela passagem do tempo, menos, é claro, pelos jovens que já decretam hoje o fim do mundo. Todo julgamento contemporâneo da obra de arte, seja o elogioso seja o destruidor, é passageiro se ela o for. Ele perde o sentido nas dobras das décadas. Se por seus próprios méritos a obra não for passageira, e penso em Machado de Assis, Sousândrade, Lima Barreto e Clarice Lispector como exemplos, ela permanecerá forte e rentável séculos afora. Não me lembro de ter percebido o Brasil em tempos tão intransigentes com as variadas formas de preconceito como o atual. Não é por casualidade que houve necessidade de se falar, hoje, de “preconceito estrutural”. A estupidez humana pode ir além da cronologia histórica e só pode ser devidamente conhecida e desmascarada por cientistas sociais que apelem à “longue durée” (longa duração), conceito criado pelo historiador Fernand Braudel. A questão do preconceito aguarda, pois, “uma abordagem ampla e experimental da reconstrução teórica de mudanças históricas globais em longo prazo e em larga escala”.


Nos ensaios é possível perceber sua grande capacidade em mesclar a tradição (o passado, a história) com a ruptura (a vanguarda). A mistura entre tradição e ruptura é mesmo uma das marcas de sua obra?
Essa mistura não me foi proposta pela razão, mas pelo acaso. Em 1963, já professor na cidade da série televisa Breaking bad, coube-me a responsabilidade, num mesmo semestre, por dois seminários duplamente antagônicos. Portugal e Brasil, literatura clássica e vanguarda. Um deles, sobre as obras de Gil Vicente e Camões. O outro, sobre a poesia de vanguarda no Brasil. Tinha sido aluno na UFMG do mestre Rodrigues Lapa e, por isso, pude tirar de letra o primeiro. Os textos do segundo seminário eu os conhecia bem, mas nunca os tinha “estudado”. Ao ir na direção dos poetas de vanguarda brasileiros eu voltava na direção dos autores clássicos lusitanos. De repente me deparei com o canto de Os Lusíadas sobre a máquina do mundo e o poema de Drummond de igual título em Claro enigma. Conhecia quase de cor o poema de Drummond, mas nem de longe pensava em Camões ou no conto “Aleph”, de Jorge Luis Borges. Daí surgiu o ensaio, hoje conhecido, que escrevo e encaminho a revista acadêmica, Hispania. O próprio poeta mineiro se assustou ao receber o artigo das mãos do colega Cassiano Nunes, e foi sensível à minha ousadia. Escreveu e me enviou pelos correios um importante poema (guardo o manuscrito, devidamente datado e assinado), hoje na Poesia completa. Posteriormente, em simpósio organizado pelo amigo Adauto Novaes teorizo sobre a permanência do discurso da tradição no Modernismo. A mistura entre tradição e ruptura é, sem dúvida, uma das marcas da minha obra. Acredito, no entanto, que ela seja um pouquinho mais explosiva, ou não.

• “Grafias de vida – a morte”
• Silviano Santiago
• Companhia das Letras
• 344 páginas
• R$ 119,90

 




TRECHOS DO LIVRO

“Sempre achei que há dois versos na canção ‘Tropicália’, de Caetano Veloso, que, se não foram escritos para descrever Hélio, serão neste momento: ‘Eu organizo o movimento/ Eu oriento o Carnaval’. O parangolé é a descoberta/invenção de Hélio capaz de levá-lo a organizar a ação do movimento que exorbita das manifestações carnavalescas para o cotidiano e que, no entanto, é ato de movimento seu, sanguíneo, jugular e secreto, ato de movimento que deveria ser de todos, indiscriminadamente, como forma natural de o sujeito da Mangueira se exteriorizar no mundo que, se não lhe pertence, deveria pertencer”.

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“No ensaio ‘Genealogia da ferocidade’, de 2017, lancei o conceito de domesticação. Acreditei que ajudaria a compreender o efeito particular que o bloqueio crítico pode causar na leitura do “Grande sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, uma obra selvagem que não olha nem de esguelha a esplendorosa cidade de Brasília, capital federal, plantada a seu lado. O romance é um monstro forte e destemido na literatura nacional. O recurso que o leva a ser lido a partir de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, apesar de elogiável do ponto de vista didático, histórico e canônico, acaba por se disseminar naturalmente para o texto altamente criativo de Rosa e por se impor a ele, silenciando sua wilderness alegórica.

 

Leia a íntegra do discurso de Silviano Santiago ao receber o diploma do Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, na Biblioteca Nacional em 14 de novembro

 
“Bem-vindos sejam os novos protagonistas!”

“Ser contemplado com um prêmio literário da altitude do Prêmio Camões é motivo de autoestima e de grandes alegrias. A vida profissional do escritor, dedicada ao ensino da Literatura em universidades, somada à prática da crítica literária e cultural em periódicos e ainda à variada e expressiva produção artística em livros, estava sendo distinguida. Em Lisboa, o meu trabalho intelectual – disperso no tempo e no espaço – se unifica, em consequência de inesperada decisão de uma comissão de especialistas, aos quais envio os meus sinceros agradecimentos.

O intenso foco de luz camoniano realça, como se já tivesse chegado à condição de um todo, o trabalho do cidadão brasileiro e a sua entrega à educação, ao jornalismo cultural e à arte. Momentaneamente, eu, apologista da diferença desconstrutora, me reconheço indivisível e perco as contradições naturais de experiência existencial singular nos difíceis e complexos tempos, que nos coube viver.

Toda padronização de vida e obra, se explicitada por premiação vinda do alto, significa o minuto de uma avaliação jubilosa.

Mas o que realmente significou receber o Prêmio Camões no segundo semestre do ano de 2022?

A pandemia tinha instaurado o medo e a infelicidade no planeta. Desaparecem as cenas de multidão e se multiplicam as fotos de covas e de retratos de pessoas tristes e ensimesmadas. O silêncio e o caos tomam conta das famílias e das ruas que, no Brasil, padecem o descaso administrativo do Ministério da Saúde e do próprio governo nacional. Não há clima digno para ambientar e encorajar o fluxo da autoestima e da alegria sentido pelo cidadão brasileiro contemplado.

Nosso 2022 não será fácil de ser esquecido. Em todas e todos, da Mongólia à Patagônia, o ano deixou marcas à flor da pele e profundas.

No Brasil, o sofrimento anônimo e comunitário não foi diferente do sentimento íntimo, talvez tenha sido até mais intenso. Não há que nomear hoje todos os desastres mortais por que passaram nossos entes queridos. Os acontecimentos ainda são recentes e queimam nossa sensibilidade fragilizada. Nesta manhã, entre os presentes aqui na Biblioteca Nacional, as vidas humanas de então se assemelham a feridas abertas na memória coletiva e individual.

Ao final do ano de 2022, o resultado das eleições trouxe alento. Trouxe de volta ao povo brasileiro a possibilidade de se concretizar no dia a dia a esperança e o sonho duma nação mais igualitária e solidária. Era urgente a reconstrução meticulosa de um país da América do Sul que esteve a perigo de desaparecer no caos.

Mas persiste o fato de eu ter recebido o prestigioso Prêmio Camões no segundo semestre de 2022. Ele se confundiu ontem com a parada momentânea da História nacional e universal numa “estação do inferno” (saison en enfer), para lembrar o célebre poema em prosa de Arthur Rimbaud. Tenho de cor as primeiras palavras do poema. Cito-as: ‘Sentei a Beleza nos joelhos e a achei amarga’.

E, refletindo minimamente, mais amarga me apareceu a Beleza poética no plano da literatura nacional.

A própria atividade profissional, a que o professor, o crítico cultural e o romancista tinha dedicado toda a vida, estava sendo finalmente aberta para novas, mais abrangentes e mais esperançosas experiências artísticas que, num clamor por justiça, imputam um sentimento de culpa às gerações passadas – à minha própria geração.

Desde o Renascimento europeu e as viagens transcontinentais, temos sido e ainda somos coniventes com uma das mais bem acolhidas e mais injustas civilizações implantadas no Sul pelo Ocidente. Uma civilização indígena do Novo Mundo tinha sido contemplada pela notável tradição ocidental e, no ambiente em que cotidianamente circulamos aqui e no estrangeiro, emergia uma dor secular. E havia também uma exigência de muitas e de muitos injustiçados, pouco ouvida. Na história nacional ouvia-se um grito amordaçado de mágoa. Séculos de sofrimento exigem hoje uma reparação urgente.

Repito-me. Aos 86 anos de idade, sentia-me momentaneamente unificado, como se todo o ontem estivesse a se concretizar num agora dionisíaco, e, no entanto, vivia como se a obra tripartida que construíra a tão duras penas, e que justificara a opção pelo meu nome e obra em Lisboa, fosse motivo menor de vaidade pessoal e bem-estar nacional; fosse, na verdade, motivo maior para eu me julgar um cara-pálida, a me somar a um arrependimento coletivo desejado, esperado, mas nunca concretizado.

Sim, a literatura brasileira que eu expressei e continuo a expressar em língua portuguesa está a ponto de passar por abalos sísmicos que serão duradouros. Foram desejados e esperados. Agora, são exigidos e são concretizados.

Bem-vindos sejam os novos protagonistas! Elas e eles ganham o palco pela força também secular da resistência e se representam humana e artisticamente por emoções e sentimentos originários e autênticos.

Sou premiado, mas estou parado nos versos recordados de Rimbaud. Ainda sento a Beleza nos joelhos e a acho amarga.

Piso novamente o chão natal e lanço os olhos para a imensidão do Brasil, enriquecido ao Norte pelas águas caudalosas do Amazonas e banhado a Leste pelo oceano Atlântico. Não me pergunto, afirmo que é chegado o momento de liberar a literatura brasileira às águas amazônicas e às atlânticas africanas e a todas as correntes diaspóricas.

As naves multiétnicas não ancoraram em Porto Seguro. Mas agora trafegam em liberdade pelas águas democráticas e cidadãs da década que se abriu em janeiro de 2022. Suas tripulações amazônicas, atlânticas e mediterrâneas, só recebiam permissão para trafegar como cidadãs plenas se sob o comando dos dedicados etnógrafos (nacionais e estrangeiros), ou se sob a bandeira menor e suplementar de acervo folclórico ou de literatura oral brasileira.

Lanço os olhos para a infinita imensidade desse agora que vivo e vivemos e dedico o Prêmio Camões a Mário de Andrade, meu mestre.

Em 1942, proibido pelo Estado Novo de falar no auditório do Itamaraty, Mário lê, na Casa do Estudante do Brasil, o seu sofrido testamento sobre o legado do Modernismo brasileiro. Ao final, a reflexão ensaística do mestre se torna pessoal e se exprime por palavras que roubo no momento em que agradeço a presença ilustre de todas e de todos neste auditório. Repito as palavras de Mário de Andrade:

‘E se agora percorro a minha obra já numerosa e que representa uma vida trabalhada, não me vejo uma só vez pegar a máscara do tempo e esbofeteá-la como ela merece. Quando muito lhe fiz de longe umas caretas. Mas isto, a mim, não me satisfaz.’
Muito obrigado.”


Mais importante premiação da língua portuguesa, o Prêmio Camões foi atribuído a Silviano Santiago em outubro de 2022 e entregue em novembro de 2023 na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

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