Aprendizagem

Hiperdiagnóstico: a pressa em transformar a infância em transtorno

Orientador pedagógico do Colégio Loyola explica por que é essencial compreender o contexto e o ritmo de cada criança antes de qualquer avaliação

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*Guilherme Araújo Nascimento

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Vivemos hoje em um tempo em que os diagnósticos relacionados à aprendizagem e à saúde mental se tornaram mais frequentes. Fala-se em um fenômeno de hiperdiagnóstico: uma tendência de transformar dificuldades comuns do desenvolvimento em diagnósticos clínicos.

De certa forma é compreensível que a sociedade busque nomear aquilo que foge do desempenho médio esperado. Avaliações profissionais ajudam a orientar intervenções e garantem direitos importantes para crianças e adolescentes. Ainda assim, nem sempre está claro o que diferencia dificuldades do desenvolvimento daquilo que caracteriza um distúrbio.

Diante de dificuldades de atenção, comportamento ou aprendizagem, muitos pais se perguntam: “Será que meu filho tem algum transtorno?”. Essa pergunta leva a outra, fundamental: para que serve um diagnóstico? E para que ele não serve?

Por que nem todo desafio indica um problema

Diferentemente das doenças médicas tradicionais, nas quais muitas vezes existe uma alteração fisiológica identificável, os diagnósticos ligados ao desenvolvimento e à saúde mental nem sempre apresentam um substrato fisiológico evidente. A própria palavra transtorno já oferece uma pista: trata-se de uma dificuldade persistente que gera prejuízos concretos na aprendizagem, nas relações sociais, na autonomia e na regulação emocional.

Tomemos como exemplo o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Não se trata simplesmente de uma “atenção ruim”. O que está em jogo é a relação entre o funcionamento da criança e aquilo que socialmente se espera dela.

Podemos pensar na curva normal: a maioria está no centro, enquanto outros se afastam da média, seja por mais facilidade ou mais dificuldade. Essas diferenças fazem parte da diversidade humana. Ainda assim, criamos categorias para nomear aquilo que se afasta da média. Isso pode ajudar a compreender, mas também pode transformar diferenças em rótulos que limitam.

Mais importante do que nomear é entender

Um diagnóstico pode servir quando ajuda a compreender o funcionamento da criança e a orientar intervenções mais assertivas. Mas não serve para reduzir o sujeito às dificuldades que ele nomeia, nem para encobrir a falta de condições adequadas de desenvolvimento ou contextos que impactam sua trajetória.

Na espiritualidade inaciana, não se trata das coisas em si, mas do uso que se faz delas: usamos tanto quanto nos aproximam do fim para o qual fomos criados. Um diagnóstico, nesse sentido, serve para contribuir com o desenvolvimento da criança, e deixa de servir quando passa a limitá-lo.

Aquilo que chamamos de “normal” não é fixo. O que se espera de uma criança hoje é diferente de outras épocas e contextos. Quando falamos em dificuldade de atenção, falamos também do nível de atenção que se exige.

Na prática com as famílias, é comum encontrarmos pequenos com dificuldades que, antes de qualquer hipótese diagnóstica, não tiveram acesso a condições adequadas de estimulação. Mudanças familiares, excesso de telas ou falta de oportunidades de interação podem gerar comportamentos que se parecem com transtornos.

Por isso, antes de diagnosticar, vale perguntar: quais condições de desenvolvimento essa criança teve? Diante disso, surge outra questão: o que fazer quando meu filho, mesmo adequadamente estimulado, está fora da curva média?

O primeiro passo é fortalecer as bases da aprendizagem

Antes de qualquer encaminhamento é importante olhar para aquilo que sustenta o desenvolvimento. Movimento, brincadeiras, convivência familiar e contato com a natureza não são complementares, são estruturantes. Muitas vezes, parte das dificuldades se reorganiza quando essas condições estão presentes.

Nesse processo, vale buscar a escola e o pediatra. O diálogo com professores e com a equipe pedagógica, assim como a escuta do médico, ajudam a compreender como a criança se apresenta em diferentes contextos e se há necessidade de encaminhamentos.

Diante de dificuldades persistentes, pode-se buscar um profissional, preferencialmente a partir de boas referências. A psicologia pode contribuir em aspectos emocionais e comportamentais; a fonoaudiologia, nas questões de linguagem e comunicação; e a terapia ocupacional, na organização e consciência do corpo, e nos aspectos sensoriais.

Esses profissionais, em conjunto, podem avaliar a necessidade de direcionamentos mais específicos, como avaliações psicológicas ou neuropsicológicas, permitindo compreender melhor o perfil da criança e, quando necessário, subsidiar a construção de um diagnóstico, bem como a descrição detalhada do perfil do pequeno nos diversos aspectos.

Cada trajetória precisa ser compreendida em seu contexto

O psicólogo russo Lev Vygotsky, um dos principais teóricos do desenvolvimento humano, mostrou que a evolução acontece nas relações. Aprendemos na interação, nas brincadeiras e nas experiências culturais. O ambiente participa da construção da mente.

Não é justo comparar crianças com trajetórias tão diferentes de estímulo e oportunidades. Não se deveria fechar um diagnóstico sem considerar se houve condições mínimas de desenvolvimento comparáveis.

A pedagogia inaciana expressa isso na ideia de cura personalis: olhar para cada indivíduo em sua totalidade, considerando sua história, contexto e ritmo. Tudo isso não significa negar os diagnósticos. Eles são, muitas vezes, fundamentais. Mas nenhuma criança é explicada apenas por um CID.

Colégio Loyola
A pedagogia inaciana propõe olhar cada criança de forma integral, considerando sua história, seu contexto e seu ritmo de desenvolvimento antes de qualquer conclusão Divulgação Colégio Loyola

As telas também fazem parte dessa discussão

Nos últimos anos, outro fator passou a influenciar fortemente o desenvolvimento infantil: o ambiente digital. O psicólogo social Jonathan Haidt, autor de Geração Ansiosa, mostra como o uso intensivo de telas temafetado a atenção e as relações sociais, substituindo experiências presenciais fundamentais e, de fato, gerando dificuldades que são compatíveis com transtornos. Esse deslocamento impacta a regulação emocional, a construção de vínculos e a capacidade de sustentar a atenção, podendo intensificar as dificuldades.

Diante disso, é preciso reconhecer que muitos problemas atuais são também coletivos. Toda criança precisa de convivência, movimento, brincadeiras e experiências que ampliem seu repertório de vida.

A Base Nacional Comum Curricular reconhece isso ao organizar a educação infantil a partir dos campos de experiência. Nessa fase, justamente a primeira da vida escolar, aprende-se vivendo, explorando e interagindo com o mundo.

No fim das contas, os diagnósticos precisam servir a algo maior: ajudar cada criança a se desenvolver de forma mais plena e humana, nunca para limitá-la.

Uma educação que valoriza cada estudante

No Colégio Loyola, o acompanhamento dos alunos parte da compreensão de que cada jovem possui um ritmo próprio de desenvolvimento. A instituição busca olhar para o estudante de forma integral, considerando não apenas seu desempenho acadêmico, mas também seus aspectos emocionais, sociais e humanos.

Essa perspectiva orienta o trabalho de educadores, equipes pedagógicas e especialistas, favorecendo um ambiente de escuta, acolhimento e diálogo constante com as famílias. Além de identificar desafios, o objetivo é criar condições para que cada um desenvolva seu potencial e construa uma trajetória de aprendizagem significativa.

Acesse loyola.g12.br e conheça a pedagogia, os projetos e as iniciativas desenvolvidas pela instituição.

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*Guilherme Araújo Nascimento é Orientador Pedagógico do Colégio Loyola, especializado em casos de necessidades educacionais específicas e psicólogo por formação.

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