Cobertura vacinal no Brasil: recuperar índices não basta
É necessário fortalecer a Atenção Primária à Saúde, ampliar a vacinação nas escolas, utilizar os sistemas de informação para identificar esquemas incompletos e desenvolver ações territorializadas
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O Brasil sempre teve uma cultura pró-imunização. No entanto, nas últimas décadas, observa-se uma redução do engajamento das pessoas para vacinação, resultando em baixas coberturas vacinais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os imunizantes foram responsáveis por aproximadamente 40% da redução global da mortalidade infantil nos últimos 50 anos.
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Mesmo assim, o cenário atual preocupa, porque em uma revisão de literatura nacional e internacional coordenada pelo Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde sobre cobertura vacinal, no período de 2010 a 2021, mostrou que é um fenômeno global e multifatorial que tem preocupado organismos internacionais de saúde, especialmente devido ao risco de reemergência de doenças imunopreveníveis. Eles concluem que a redução da cobertura vacinal resulta da interação entre fatores estruturais, operacionais, sociais, culturais e informacionais. A hesitação vacinal e a desinformação configuram desafios relevantes, mas não exclusivos.
O Brasil voltou a avançar na vacinação, mas os resultados ainda revelam desigualdades entre estados, dificuldades para completar esquemas vacinais e grupos populacionais que permanecem vulneráveis a doenças preveníveis. A recuperação das coberturas vacinais representa uma conquista importante para a saúde pública brasileira. Após anos de redução na adesão, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) apresenta sinais de recuperação.
Os dados de cobertura vacinal de BCG (tuberculose), que é aplicada ao nascer, preferencialmente nas maternidades, em 2021 ficaram abaixo da meta (90%) em todas as regiões brasileiras, sendo recuperada desde 2024, alcançando 100% no Brasil. Entretanto, os avanços não são homogêneos e exigem atenção permanente dos gestores, profissionais de saúde e da sociedade.
Entre 2022 e 2025, a cobertura nacional da vacina pentavalente (difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções por Haemophilus influenzae tipo B) passou de 77,24% em 2022 para 90,66%, em 2024 e 89,26% em 2025. Apesar dessa evolução, diferentes imunizantes permanecem abaixo das metas recomendadas, demonstrando que recuperar a confiança da população é apenas parte do desafio, como mostra na segunda dose da tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) avançou de 57,64% (2022) para 78,58% (2025), continuando bem abaixo da meta (95%).
Conforme análise do Instituto Butantan, o registro de um caso confirmado de sarampo na capital paulista, em março de 2026, ilustra essa vulnerabilidade. O vírus foi contraído por um bebê de seis meses durante uma viagem em família para a Bolívia, país que enfrenta problemas com a doença. A criança não estava vacinada, pois ainda não tinha idade para receber a tríplice viral, o calendário para esta vacina é da primeira dose deve ser aplicada aos 12 meses com um reforço aos 15.
As diferenças entre os estados também merecem destaque. Em 2025, nenhum estado brasileiro atingiu a meta de 95% de vacinação contra a poliomielite, a cobertura vacinal para poliomielite em 2025 no Brasil foi de 88,79%, enquanto o estado do Pará alcançou 71,45%, o Paraná chegou a 94.72%.
O cenário de 2026 reforça a necessidade de atenção. A cobertura de janeiro a agosto mostra que as metas estão longe de serem alcançadas em várias vacinas para crianças abaixo de 4 anos, conforme os dados do Ministério da Saúde, que mostram: varicela, 1ª (81,06%) e 2ª (79,11%) doses, febre amarela (77,93%), tríplice viral 2ª dose (79,86%), são as que apresentam coberturas mais distantes da meta, e outras merecem atenção como a poliomielite (88,39%) e pentavalente (87,89%).
Entre os grupos que exigem maior vigilância estão crianças menores de 5 anos, especialmente aquelas com doses atrasadas; adolescentes que ainda não receberam as vacinas recomendadas, incluindo HPV; gestantes; pessoas idosas; indivíduos imunocomprometidos e pessoas com doenças crônicas. Populações indígenas, ribeirinhas e residentes em territórios de difícil acesso também demandam estratégias específicas para garantir equidade.
É necessário fortalecer a Atenção Primária à Saúde, ampliar a vacinação nas escolas, utilizar os sistemas de informação para identificar esquemas incompletos e desenvolver ações territorializadas. A atualização da caderneta deve ser compreendida como uma responsabilidade compartilhada entre cidadãos, profissionais e gestores.
O fortalecimento das políticas públicas de imunização, associado a estratégias de comunicação eficazes e à redução das desigualdades de acesso, é indispensável para recuperar as coberturas vacinais e garantir a proteção da população contra doenças imunopreveníveis.
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Desde 1974, estima-se que a vacinação tenha evitado 154 milhões de mortes em todo o mundo, sendo 95% delas entre menores de 5 anos. Por isso, vacinar não é apenas proteger indivíduos. É evitar internações, sequelas e mortes, reduzir desigualdades e preservar uma das maiores conquistas do Sistema Único de Saúde. O verdadeiro indicador de sucesso não será apenas o crescimento das médias nacionais, mas a capacidade de alcançar aqueles que ainda permanecem desprotegidos.