A Amazônia sufocada
O Brasil precisa assumir de vez seu papel de guardião da Amazônia, com políticas de longo prazo, metas vinculantes e recursos à altura da dimensão do problema
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A Amazônia é o maior sistema tropical do planeta, uma máquina climática que regula chuvas, temperatura e biodiversidade em escala continental. Cientistas estudam seus ciclos há décadas, publicam alertas em periódicos internacionais e apresentam dados cada vez mais precisos sobre o que está acontecendo com ela. O Brasil tem acesso a todo esse conhecimento. E segue fazendo escolhas que contradizem cada linha desse acervo científico.
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Uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) analisou 15 anos de medições de carbono na floresta e chegou a conclusões que deveriam paralisar qualquer debate sobre desenvolvimento a qualquer custo. Nos anos em que a atividade humana foi mais intensa, com desmatamento, queimadas e degradação, as emissões de carbono chegaram a 1,58 bilhão de toneladas anuais. Nos anos mais úmidos e com menor pressão humana, esse número caiu para 408 milhões de toneladas. A diferença entre cuidar e destruir é de quase 1,2 bilhão de toneladas de CO2 por ano. Em 46 anos de dados climáticos, a temperatura média anual da região subiu 1,13°C. A precipitação média caiu 8%. O volume máximo de chuvas na seca recuou 20%.
A Amazônia não sofre de um único problema. Sofre de um acúmulo. O desmatamento abre clareiras que ressecam o solo e reduzem a evapotranspiração, enfraquecendo o ciclo de chuvas que a própria floresta produz. As queimadas liberam carbono acumulado por décadas e destroem a camada de matéria orgânica que sustenta a biodiversidade. As secas, cada vez mais longas e severas, amplificam o impacto de cada árvore derrubada e de cada foco de incêndio. A degradação silenciosa – aquela que não aparece nas imagens de satélite de desmatamento bruto – corrói a floresta por dentro, fragmentando habitats e rompendo as conexões ecológicas que mantêm o sistema funcionando.
A Amazônia abriga o maior sistema de rios de água doce do planeta, responsável por cerca de 20% de toda a água doce que flui para os oceanos. Seus rios alimentam aquíferos, regulam o nível das chuvas em regiões distantes, incluindo boa parte do Brasil Central e da bacia do Rio da Prata, e sustentam comunidades ribeirinhas e povos indígenas há milênios. A biodiversidade amazônica concentra cerca de 10% de todas as espécies conhecidas da Terra, muitas delas ainda não catalogadas pela ciência. A floresta funciona como um regulador climático continental, absorvendo calor, produzindo chuvas e estabilizando temperaturas em escala hemisférica.
Perder a Amazônia seria a maior catástrofe ambiental dos próximos séculos. Os sinais de que caminhamos nessa direção já são visíveis. O ponto de inflexão, conceito que os próprios pesquisadores citam no estudo, será o momento em que a floresta deixa de se regenerar e começa a se transformar em savana. Alguns modelos climáticos indicam que partes do leste e do sul da Amazônia já atingiram ou estão próximas desse limiar.
Uma floresta que vira savana libera de uma vez o carbono que levou séculos para acumular, acelerando o aquecimento global de forma irreversível. O colapso do ciclo de chuvas amazônico afetaria a produção agrícola de metade da América do Sul. A perda da biodiversidade eliminaria compostos ainda desconhecidos com potencial farmacológico, agrícola e industrial. As populações mais pobres, que dependem diretamente dos serviços ecossistêmicos da floresta, seriam as primeiras a pagar o preço.
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O Brasil detém cerca de 60% da Amazônia. Essa proporção é também uma responsabilidade que o país carrega com consistência apenas nos discursos. O que o estudo do Inpe, liderado por Luciana Gatti e seus 32 colaboradores e publicado na “Nature”, deixa claro é que a floresta responde diretamente ao que fazemos com ela. Reduzir queimadas, conter o desmatamento e investir em monitoramento e fiscalização efetiva são medidas com efeito comprovado. O Brasil precisa assumir de vez seu papel de guardião da Amazônia, com políticas de longo prazo, metas vinculantes e recursos à altura da dimensão do problema. O estudo mostra o caminho. A questão é se haverá decisão política para percorrê-lo.