Sinal de alerta vem da Europa
O caldeirão sociopolítico da Europa deve ser observado, do Brasil, como um sinal estridente de alerta. O desafio existencial deveria ser o centro da discussão nacional no ciclo eleitoral que se encerra dentro de três dias
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A onda contagiosa de protestos sociais que varre a Europa traz elementos que o Brasil deveria observar com atenção. Tanto mais na reta final para uma eleição presidencial que é não apenas a mais disputada – e incerta – desde o fim do regime militar. Aqui, como nas convulsões que abalam França, Itália, Espanha, Bélgica e outros países do Velho Mundo, o que está em jogo são os termos daquilo que o filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau definiu, no século 18, como o contrato social.
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Não por acaso, é na França de Rousseau que a tensão tange os limites da ruptura, colocando em questão a própria sobrevivência da 5ª República. Ali, como nos vizinhos europeus, o que estremece e dá sinais evidentes de fadiga é o estado de bem-estar social construído no pós-Segunda Guerra Mundial. Em boa parte, naquela altura, o objetivo imediato era contrapor uma oferta de prosperidade ao prestígio conquistado pela União Soviética na vitória sobre a Alemanha nazista.
A oferta de um capitalismo com "vocação humana" bastou por quatro décadas para conter a ascensão dos Partidos Comunistas – em especial, na Itália e na França. A débâcle da URSS e do bloco socialista europeu, no início dos anos 1990, deu lugar à desconstrução paulatina da rede de proteção social erguida na Guerra Fria. Sob o lema da "revolução conservadora", encabeçada por Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, a Europa Ocidental abraçou os cânones da austeridade fiscal e passou à desmontagem do chamado “welfare state”.
A transição ao neoliberalismo, como não poderia deixar de ser, se fez e se faz em meio a um caldeirão de tensões na sociedade. Não por acaso, a recente onda de protestos na Europa descreve um arco geracional. Nas ruas, a face predominante é a dos jovens, que amargam no presente a degradação da educação pública e, como desdobramento, enxergam um futuro desprovido dos direitos que os pais desfrutaram. Na retaguarda, porém, estão os idosos, uma categoria etária que enfrenta os anos de "vacas magras" quando mais carece da proteção social. É o drama ilustrado pela morte, na Espanha, de uma idosa despejada por já não poder pagar o aluguel, estopim da turbulência política que levou o país a eleições antecipadas.
O Brasil começa a confrontar um desafio semelhante, com o crescimento da população idosa e o estreitamento do mercado de trabalho para a juventude. Noves fora, uma porção cada vez menor da população, engajada no mercado de trabalho formal, está chamada a sustentar a massa de aposentados com expectativa de vida em alta e, ao mesmo tempo, a nova geração que já não encontra espaço na economia formal.
O caldeirão sociopolítico da Europa deve ser observado, do Brasil, como um sinal estridente de alerta. Por aqui, nem mesmo as gerações que se encaminham à aposentadoria chegaram a desfrutar de um bem-estar comparável ao oferecido aos idosos europeus. E têm pela frente um futuro ainda mais sombrio, compartilhado em tons extremos por uma juventude que assiste não apenas à degradação do ensino, mas contempla a precarização, paulatina mas incessante, das relações de trabalho.
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Equacionar esse desafio existencial deveria ser o centro da discussão nacional no ciclo eleitoral que se encerra dentro de três dias. Não foi, por razões que escapam ao alcance deste editorial. De objetivo, resta a constatação de que, por mais quatro anos, o país seguirá rodando em falso, como parafuso em rosca espanada, sem respostas a caminho para desafios que se amontoam e se agravam. As ruas da Europa em chamas sugerem o cenário que nos aguarda.