editorial

A França em chamas

Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao multilateralismo e com simpatia declarada por Putin seria uma ruptura sem precedente no projeto da União Europeia

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Berço de uma revolução que redesenhou a história do Ocidente, a França está novamente às voltas com uma insurreição. A escalada da violência urbana e o isolamento do presidente Emmanuel Macron expõem o esgotamento do modelo tecnocrata e arrastam a Europa para uma perigosa incerteza geopolítica, que pode acabar mudando o mapa do poder mundial.

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O que começou em meados de setembro com estudantes do ensino médio bloqueando escolas na periferia de Paris se transformou, em cinco semanas, na maior mobilização de rua do país em anos. A alta dos combustíveis desde o início do conflito no Oriente Médio, o custo de vida fora do alcance de boa parte da população e anos de acúmulo de insatisfação convergiram num movimento que une ex-coletes amarelos, sindicalistas, ativistas climáticos e estudantes.


No sábado, cerca de 550 mil pessoas foram às ruas em todo o país, segundo o Ministério do Interior (os sindicatos falam em 800 mil). A prefeitura de Limoges, na região da Nova Aquitânia, inaugurada em 1883 e classificada como patrimônio histórico, foi invadida e incendiada. O campanário desabou durante a noite. Confrontos ocorreram em Paris, Marselha, Rouen, Nantes, Toulouse e dezenas de outras cidades. O balanço foi atualizado neste domingo: 1.800 detidos, mais de 500 policiais feridos, um manifestante morto em Paris após parada cardíaca.


A resposta do governo foi de repressão e firmeza declarada. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu prometeu punir os responsáveis pelos distúrbios e acusou a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon de estar por trás da violência. O estado de emergência foi descartado, mas o tom oficial é de controle.


Personagem central dessa crise, Emmanuel Macron caminha para um fim de mandato melancólico, faltando pouco mais de sete meses para sua saída do cargo. Ele chegou ao poder em 2017 como promessa de superação das velhas divisões políticas francesas, governou com a arrogância de quem acredita ter respostas técnicas para problemas políticos e colhe agora o resultado de anos de distância entre seu projeto e a realidade do cidadão comum.


Já no quinto primeiro-ministro em menos de três anos, sem maioria parlamentar e com aprovação em queda, o fim da era Macron bre uma janela perigosa. A extrema direita de Marine Le Pen e seu partido, o Rassemblement National, observam os distúrbios com atenção. Uma França exausta, raivosa e sem saída institucional clara é o terreno mais fértil para um movimento que promete ordem, fronteiras fechadas e nacionalismo exacerbado como resposta para a crise.


O problema de uma vitória que provoque uma ruptura drástica na política francesa vai muito além da própria França. Ao contrário do Reino Unido, que orbita Washington com consistência e hoje está à deriva fora da União Europeia, e da Alemanha, historicamente atrelada à cautela fiscal e à estrita dependência militar transatlântica, a França foi sempre um contraponto sério e seguro aos Estados Unidos no bloco ocidental na política externa, na cultura, e no modelo econômico. Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao multilateralismo e com simpatia declarada por Putin seria uma ruptura sem precedente no projeto da União Europeia. O bloco perderia seu principal contrapeso interno. E o mundo ganharia mais uma variável de instabilidade num momento em que já tem variáveis demais.


A Revolução Francesa de 1789 começou nas ruas e terminou mudando o mundo. O que acontece hoje tem escala e natureza diferentes, mas a França sempre foi um país cujas crises internas produzem ecos globais. O mundo observa com apreensão os próximos passos do movimento francês, torcendo por um desfecho que traga alguma estabilidade num cenário internacional já suficientemente caótico e fraturado para suportar mais uma frente aberta.

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