Queimamos mais uma Alexandria
O Brasil tem uma relação antiga e dolorosa com a destruição do próprio patrimônio intelectual. Queimamos bibliotecas por descaso, por falta de verba, por ausência de política de preservação
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A Biblioteca de Alexandria foi, durante séculos, o maior repositório de conhecimento do mundo antigo. Quando ardeu – em circunstâncias ainda disputadas pelos historiadores –, levou consigo obras que nunca foram recuperadas, pesquisas que nunca foram refeitas, saberes que simplesmente deixaram de existir. A humanidade ficou mais pobre de uma forma que jamais conseguiu mensurar com precisão. O incêndio que destruiu laboratórios da Universidade Federal de Pernambuco na noite de quarta-feira não tem a mesma escala. Mas tem a mesma lógica. O prejuízo estimado é de R$ 100 milhões em equipamentos e infraestrutura. São 80 dissertações e teses de doutorado perdidas, dados de 20 anos de pesquisa em fármacos, genética e informática que não existem mais. Esse tipo de perda não tem conserto, não tem seguro e não tem valor calculável.
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Não é a primeira vez. Em 2018, o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro destruiu 20 milhões de itens do maior acervo de história natural da América Latina. A causa daquele desastre foi a combinação de abandono crônico, infraestrutura degradada e anos de investimento insuficiente. O prédio tinha problemas elétricos conhecidos, fiação antiga e sem manutenção adequada. Ninguém foi preso. Ninguém foi responsabilizado de forma efetiva. E o museu segue em reconstrução parcial oito anos depois. A UFPE não é o Museu Nacional, mas o padrão é familiar: instituições públicas de conhecimento operando no limite do que a negligência permite antes do colapso.
O que torna o caso da UFPE ainda mais grave é a sequência. Esse foi o terceiro incêndio no campus de Recife em menos de duas semanas. No dia 30 de setembro, chamas atingiram o Laboratório de Óptica Não-Linear. No domingo seguinte, foi o Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal. Três incêndios em oito dias numa mesma universidade, em um conjunto de fatos que exige investigação rigorosa, séria e sem conclusões antecipadas.
A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar as circunstâncias e causas prováveis. Há relatos de que uma ameaça foi feita contra a universidade após um ato político realizado no campus, e esse elemento faz parte do que precisa ser investigado, com a mesma seriedade e isenção aplicada a qualquer outra linha de investigação. Antes da perícia, porém, qualquer conclusão sobre a causa é especulação.
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O Brasil tem uma relação antiga e dolorosa com a destruição do próprio patrimônio intelectual. Queimamos bibliotecas por descaso, por falta de verba, por ausência de política de preservação. Às vezes por outras razões, o que a investigação dirá. O que permanece constante, independentemente da causa imediata de cada desastre, é o ambiente que os torna possíveis: universidades com restrições orçamentárias, laboratórios com infraestrutura precária, pesquisa tratada como despesa supérflua em vez de investimento estratégico. Enquanto a educação e a ciência não forem tratadas como prioridade real, com orçamento, com política de longo prazo, com a seriedade que o tema exige, continuaremos assistindo a novas Alexandrias queimando. E lamentando, depois, o que não pode ser recuperado.