A eleição termina no domingo. A cidadania, não
No domingo, escolhemos. Na segunda-feira, começa o acompanhamento. Perguntar não é torcer contra. Fiscalizar não é perseguir
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Este final de semana, milhões de brasileiros irão às urnas. Serão seis escolhas. Deputado federal. Deputado estadual ou distrital. Dois senadores. Governador. Presidente da República. Escolheremos pessoas que, durante os próximos anos, tomarão decisões que afetam nossa vida, nossas cidades, nossos estados e o país. Talvez seja importante pensar um pouco sobre o tamanho desse gesto.
Votar é escolher. Mas também é, de certa maneira, fazer uma aposta. Não porque eleição seja um jogo, mas porque ninguém pode saber exatamente como uma pessoa exercerá o poder que receberá.
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Quando alguém busca a reeleição, temos uma informação a mais: podemos observar como exerceu o mandato, suas posições, seus votos e suas decisões. Podemos repetir a aposta ou escolher outra alternativa. Depois, escolhemos. E entregamos poder.
Escolher também significa tomar uma decisão diante das alternativas disponíveis. Nenhum candidato será exatamente aquilo que cada eleitor gostaria. Talvez nunca tenha sido.
O eleitor também pode decidir não fazer a aposta; não comparecer, votar branco ou anular o voto, são possibilidades, mas não participam da definição do resultado entre os votos válidos. E talvez aí exista uma pergunta que cada cidadão deva responder: diante das alternativas existentes, não participar da escolha ou deixar que ela seja feita pelos votos dos outros? Seja qual for a decisão, uma coisa permanece: depois da eleição, aqueles que forem escolhidos exercerão poder público também sobre a vida de quem não votou neles.
Nossa Constituição começa com uma afirmação extraordinariamente simples: “Todo o poder emana do povo”. E estabelece que esse poder é exercido por representantes eleitos diretamente, nos termos da própria Constituição.
O poder não pertence originalmente ao presidente, ao governador, ao senador ou ao deputado. Ele é recebido. E se depois quem o recebeu passa a se comportar como um deus, talvez devamos lembrar uma coisa muito simples: numa República, o poder continua pertencendo ao povo.
E domingo é o momento em que cada cidadão participa dessa entrega. Por isso, escolher deveria ser mais do que cumprir uma obrigação eleitoral. É decidir em quem depositaremos confiança para exercer uma parcela do poder que pertence à sociedade.
Mas existe outra parte dessa história. Segunda-feira também é democracia.
Durante muito tempo, acompanhar de perto a atividade política era muito mais difícil. A informação chegava ao cidadão por poucos meios, a tecnologia ampliou enormemente essas possibilidades.
Hoje existem sites oficiais, portais de transparência, transmissões de sessões, bancos de dados públicos e canais digitais de comunicação. A Lei de Acesso à Informação estabeleceu mecanismos para que qualquer cidadão solicite informações públicas e também obriga órgãos e entidades a divulgar determinadas informações de interesse coletivo independentemente de solicitação. E as redes sociais criaram outra transformação. Representantes políticos podem falar diretamente com milhões de pessoas.
Mas os cidadãos também podem perguntar, comentar, comparar informações, compartilhar documentos e cobrar explicações. A comunicação deixou de ocorrer apenas em uma direção. Isso é uma enorme possibilidade democrática. Mas possibilidade só se transforma em participação quando é utilizada. Não apenas durante a campanha. Podemos ficar esperando a próxima ou agir. “Depois da eleição, muitas vezes acontece algo curioso: o eleito parece subir ao Olimpo – e o cidadão também desaparece.” Talvez seja justamente aí que comece a parte mais longa da democracia.
O cidadão não é apenas eleitor. A própria Constituição não reduz a soberania popular ao voto. Além da eleição de representantes, prevê instrumentos de participação direta, como plebiscito, referendo e iniciativa popular. Talvez exista aí uma distinção importante.
Eleitor é aquilo que somos no momento da escolha. Cidadão é aquilo que precisamos continuar sendo depois dela. No domingo, escolhemos. Na segunda-feira, começa o acompanhamento. Perguntar não é torcer contra. Fiscalizar não é perseguir.
Cobrar não deveria depender de termos votado ou não naquele candidato. É simplesmente compreender que o poder exercido pelos representantes continua sendo poder recebido da sociedade. Mas nenhuma delas deveria significar entregar o voto e desaparecer por quatro anos. Porque votar é fundamental. Mas votar não basta.
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A eleição termina no domingo. A cidadania, não.