editorial

Cidadão está por conta própria contra o crime organizado

Municípios tornaram-se entrepostos do crime. As organizações capturaram a política e a segurança local; manietaram a população, que em parte vira cúmplice e em parte testemunha dos desmandos

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 Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), divulgado segunda-feira, mostra que o tráfico atormenta mais de 80% das cidades do país. Um dado que, certamente, não surpreende ninguém – aliás, chama a atenção é que ainda tenha aproximadamente 20% de prefeituras que não consideram o avanço da droga uma ameaça. Mas a pesquisa não termina aí. Os percentuais restantes são cruéis: 77,2% dos municípios não contam com conselhos de políticas sobre drogas e 77,3% não têm plano de políticas sobre drogas.

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O significado desses números deixa claro que o tráfico avança sem contenção. Os municípios são incapazes de freá-lo e, como a pesquisa também constata, têm pouco apoio dos governos estaduais e federal nessa tarefa. Pelo levantamento da CNM, cerca de 77% das prefeituras tiram dinheiro do próprio caixa. Recursos de transferências estaduais e de emendas parlamentares são percentuais insignificantes – 11,7% e 9,5%, respectivamente. Apenas 3% das prefeituras recebem alguma verba via Fundo Nacional Antidrogas (Funad).


Juntando tais números, constata-se: está escancarado o terreno para as organizações criminosas. Questão que, diga-se, não parece quererem enfrentar seriamente. Nas atuais campanhas presidencial e para governador, o tema foi tratado (quando foi!) da pior maneira: candidatos se perderam em platitudes, em propostas nada factíveis, em números inflados de um sucesso irreal, em sugestões de ineficientes aumentos de pena e em outras bobagens que não tranquilizam o cidadão-contribuinte-eleitor. Os aspirantes a cargos públicos desconsideram as pesquisas de opinião que há meses avisam: a segurança pública é, atualmente, a maior preocupação dos brasileiros.


Os números levantados pela CNM confirmam algo que o promotor do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) Lincoln Gakiya há tempos alerta – o Brasil caminha para tornar-se um narcoestado. A Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, confirmou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) utiliza a economia formal não apenas para branquear o dinheiro das atividades criminosas, mas, sobretudo, para obter a validação da sociedade. Ao integrar-se à institucionalidade – seja financiando influenciadores digitais, seja engordando fundos de investimento geridos na Faria Lima, seja aplicando em postos de combustíveis e linhas de ônibus na cidade de São Paulo –, conquista a aprovação de setores empresariais e políticos, que preferem a aliança ao confronto. Ou seja, o pragmatismo rebaixa-se ao cinismo.


Mas, nos municípios pequenos, essa convergência de interesses é impiedosa. São vários espalhados pelo país que tornaram-se entrepostos do crime. As organizações capturaram a política e a segurança local; manietaram a população, que em parte vira cúmplice e em parte testemunha dos desmandos. Os discursos eleitoreiros sobre recuperação de território controlados pelo tráfico excluem essas cidades, algumas delas em áreas metropolitanas das capitais.

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A pesquisa da CNM traz números. Estarrecemo-nos à vontade com eles. Porém, falta o componente político da equação. Segundo o promotor Lincoln Gakiya, o crime organizado avança, e muito, no vácuo deixado pelas divergências ideológicas. A visão de curto prazo e eleitoreira é uma grande aliada de facções e milícias, que, inclusive, financiam a manutenção do confronto entre visões opostas entre direita e esquerda. Isso significa que estamos por conta própria contra o crime organizado, apesar dos esforços de alguns setores da sociedade.

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