editorial

A fatura da nossa alimentação

A projeção dos pesquisadores é que, em 2035, o número de casos de doenças inflamatórias intestinais chegue a 264 por 100 mil habitantes – 67% a mais do que hoje

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Um estudo apresentado nesta semana no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú, traz um dado que deveria estar em qualquer conversa sobre saúde pública: o número de pessoas com doenças inflamatórias intestinais no Brasil cresceu cinco vezes entre 2012 e 2025, passando de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. A doença de Crohn e a retocolite ulcerativa – enfermidades autoimunes crônicas, sem cura, com tratamento que pode custar até R$ 500 mil por paciente ao ano – eram consideradas raras até por volta de 2015. Hoje, os pesquisadores projetam que se tornarão problema de saúde pública comparável ao diabetes e à hipertensão a partir de 2040.

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As causas são multifatoriais, como ressaltam os próprios pesquisadores da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Há componente genético, há influência da poluição. Mas há também, de forma cada vez mais evidente, o fator alimentar. Os ultraprocessados, com seus conservantes, corantes, espessantes e aditivos que permitem que um pão de forma dure três meses na prateleira sem mofar, aparecem consistentemente nos estudos como elementos que induzem processos inflamatórios. O intestino, mais do que qualquer outro órgão, parece sensível a esse conjunto de substâncias para as quais o organismo humano simplesmente não foi preparado.


O problema é que essa dieta virou norma. O Brasil, que tinha no arroz com feijão uma das combinações alimentares mais equilibradas do mundo – proteína completa, fibras, baixo custo – assiste à erosão desse padrão faz décadas. O ultraprocessado chegou pela conveniência, pelo preço, pela publicidade agressiva e pela transformação do tempo de cozinhar em luxo que nem todos têm. A tabela nutricional obrigatória nos rótulos, a famosa “lupinha", foi implementada pela Anvisa e se provou um avanço real, que deu ao consumidor informação que antes estava escondida. Mas a informação não muda sozinha o ambiente que empurra as pessoas para escolhas ruins.


O que muda esse ambiente é política pública. Tributação diferenciada sobre ultraprocessados, subsídios para alimentos in natura, regulação mais dura da publicidade dirigida a crianças, merenda escolar com comida de verdade. São medidas conhecidas, discutidas há anos, implementadas de forma tímida e fragmentada. A projeção dos pesquisadores é que, em 2035, o número de casos de doenças inflamatórias intestinais chegue a 264 por 100 mil habitantes – 67% a mais do que hoje. Esse número tem um custo humano e tem um custo fiscal.

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O corpo não mente, e os números do estudo são claros: uma doença que era rara há 10 anos está a caminho de se tornar problema de saúde pública em menos de duas décadas. São pacientes diagnosticados jovens, que precisarão de acompanhamento por décadas. Prevenir é mais barato do que tratar. E prevenir, neste caso, começa por levar a sério o que o brasileiro está colocando no prato.

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