Os recados da ONU
Ignorar um interlocutor com quem se está em conflito ativo sugere que a relação bilateral ocupa um espaço menor na agenda de Washington do que Brasília gostaria
compartilhe
A Assembleia-Geral dessa terça-feira da Organização das Nações Unidas (ONU) colocou em cena duas visões de mundo que dificilmente poderiam ser mais distintas e escancarou, no processo, a paralisia de uma instituição que deveria arbitrar a diferença entre elas. O Brasil abriu os trabalhos, como faz desde 1955, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao púlpito com um discurso de assuntos amplos: criticou o imobilismo do Conselho de Segurança, defendeu o multilateralismo, cobrou ação climática, falou em soberania da América Latina e afirmou, sem rodeios, que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Nos momentos finais, Lula cedeu ao calendário: falou em democracia contra negacionismo, em interferência estrangeira nas eleições e na solidez do sistema eleitoral brasileiro. Eram recados para dentro, não para o plenário da ONU.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Donald Trump fez o caminho inverso. Começou pelo inventário doméstico: a economia como “inveja do mundo”, as forças armadas como “as mais poderosas da Terra”, a tecnologia norte-americana sem rivais. Só depois virou para o cenário externo, onde anunciou que os EUA usarão “poderio militar incomparável” na América Latina se necessário, comparou cartéis de drogas ao Estado Islâmico, declarou Cuba um Estado falido prestes a cair e chegou a ameaçar “aniquilar” o Irã antes de recuar para um convite ao isolamento econômico do país. Sobre o Brasil – maior economia do hemisfério Sul, parceiro comercial relevante, país com quem Washington mantém uma disputa tarifária aberta –, Trump não disse uma palavra. Nem repetiu o encontro de bastidores do ano passado com Lula, o que iniciou uma abertura de diálogo, ainda que breve, entre os dois governos.
O silêncio americano sobre o Brasil é, por si só, um dado diplomático. Não ignorar um adversário, mas ignorar um interlocutor com quem se está em conflito ativo sugere que a relação bilateral ocupa um espaço menor na agenda de Washington do que Brasília gostaria. O episódio, porém, ilustra um problema maior do que a relação bilateral. Num mundo em que a maior potência militar ignora parceiros comerciais no plenário da principal organização multilateral do planeta, e em que o representante de uma nação emergente usa o mesmo plenário para mandar recados eleitorais ao próprio eleitorado, fica a pergunta inevitável: para que serve a ONU? A resposta, nessa terça-feira, foi dada pelos próprios participantes.
O que os dois discursos têm em comum, apesar de tudo, é a frustração com a ONU. Lula foi explícito: afirmou que a organização “está falhando em uma de suas missões mais elevadas” e que a credibilidade da instituição nunca esteve tão baixa. O próprio secretário-geral António Guterres, em seu último discurso de abertura antes de deixar o cargo, reconheceu o impasse: alertou para um mundo “claramente caminhando para a multipolaridade” e para o risco de fragmentação caso não haja “uma estrutura comum de direito internacional e regras compartilhadas”. O diagnóstico é o mesmo dos dois lados, e só divergem as causas e os responsáveis.
No mais, a Assembleia-Geral não produziu nenhuma resolução, nenhum acordo, nenhum mecanismo novo de contenção de conflitos. Produziu discursos: alguns importantes, outros eleitoreiros, todos sem força vinculante. O Conselho de Segurança, com seu direito de veto e sua composição do pós-guerra, segue paralisado diante de conflitos que matam civis todos os dias. O ano de 2025 registrou o maior número de guerras desde a Segunda Guerra Mundial. A ONU assistiu.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
A reforma da ONU é uma pauta antiga, repetida em cada assembleia e enterrada logo depois. Mas a crise de legitimidade que a instituição enfrenta hoje é de uma escala diferente, reconhecida pelo próprio secretário-geral, cobrada pelo representante do maior país da América Latina e ignorada pelo líder da maior potência militar do mundo. Quando três dos principais atores de uma assembleia chegam à mesma conclusão sobre a impotência do foro em que estão reunidos, o sinal não poderia ser mais claro. A ONU precisa ser reformada, seja na composição do Conselho de Segurança, nos mecanismos de tomada de decisão, na capacidade de implementar o que delibera. O mundo que existe hoje não é mais o mundo de 80 anos atrás. A instituição que o lidera tampouco pode ser.