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Quem vai ensinar o pequeno humano?

Diagnosticar a falta futura de profissionais é necessário, mas talvez seja ainda mais importante olhar para os jovens que estão hoje nas escolas e perguntar que futuro estamos mostrando a eles

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ESTHER CRISTINA PEREIRA - Psicopedagoga, diretora de educação do Instituto Destino Brasil

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O Brasil está envelhecendo. Não é uma impressão, mas uma transformação demográfica profunda que já está em curso e que tende a se intensificar nas próximas décadas. Vivemos mais, temos menos filhos e, proporcionalmente, teremos menos jovens entrando no mercado de trabalho e mais brasileiros deixando suas atividades profissionais. Essa mudança impõe uma série de desafios para o país, entre eles uma pergunta que vai muito além da educação: quem vai ocupar o lugar de quem está saindo?


A resposta passa por praticamente todas as áreas. Precisaremos de novos eletricistas, encanadores, pedreiros, técnicos, enfermeiros, engenheiros, médicos e tantos outros profissionais. Também precisaremos de professores. E, quando olhamos para a profissão docente, encontramos um desafio que já começa a aparecer nos números: como garantir a formação e a entrada de uma nova geração de profissionais nas salas de aula?


Nos últimos dias, uma pesquisa do Instituto Semesp voltou a colocar essa questão em evidência. O estudo aponta o envelhecimento do quadro docente e as dificuldades de renovação da profissão. Entre 2015 e 2025, o número de professores do ensino médio com até 24 anos caiu 31,1%, enquanto cresceu a participação de profissionais nas faixas etárias mais elevadas. O dado é importante porque mostra que o problema não está apenas em quantos professores temos hoje, mas também em quem estará preparado para assumir essas funções no futuro.


É por isso que a discussão sobre a formação docente precisa começar antes da universidade. Se queremos enfrentar a falta de professores com planejamento, não podemos esperar o jovem chegar ao ensino superior para apresentar a ele a possibilidade de seguir essa carreira. Precisamos criar oportunidades para que essa escolha seja conhecida, considerada e, principalmente, possa se transformar em um projeto profissional desde os primeiros anos de formação.


Nesse sentido, defendo que a formação de docentes em nível médio volte a ocupar um espaço importante nas redes de ensino, respeitando a realidade e a autonomia de cada estado. A legislação brasileira permite esse caminho, e experiências existentes mostram que é possível começar ainda no ensino médio a despertar vocações, oferecer formação profissional e construir uma ponte para as licenciaturas. É uma forma de aproximar o jovem da profissão e mostrar que ser professor não precisa ser visto apenas como uma escolha abstrata para um futuro distante.


Talvez seja justamente esse um dos pontos que precisamos recuperar: apresentar a docência aos jovens pelo que ela realmente é, uma profissão. Uma profissão que exige formação, conhecimento, dedicação e permanente atualização; que oferece diferentes possibilidades de atuação e permite seguir estudando, especializar-se, ensinar, pesquisar, coordenar, dirigir e construir uma trajetória profissional. Mas existe também uma dimensão da docência que não cabe em uma lista de possibilidades de carreira: poucos profissionais passam pela vida de tantas pessoas quanto um professor.


Todos nós tivemos professores. Alguns esquecemos com o passar dos anos; outros carregamos conosco por toda a vida. Há aqueles que nos ensinaram uma disciplina, mas também existem os que nos ensinaram a fazer perguntas, a persistir, a acreditar em nós mesmos ou simplesmente a enxergar possibilidades que ainda não conseguíamos ver. Por isso, falar sobre a falta de professores não pode ser apenas uma discussão sobre números, mercado de trabalho ou projeções demográficas. É também uma discussão sobre o tipo de sociedade que estamos preparando para o futuro.


Foi a partir dessa perspectiva que nasceu o “Geração Professor”. Em 2026, percorremos colégios estaduais do Paraná que oferecem o Curso de Formação de Docentes e conversamos com aproximadamente 3 mil estudantes. Em cada turma, procuramos fazer algo que parece simples, mas que considero fundamental: falar sobre profissão, futuro e oportunidades. Não fomos às escolas para assustar jovens com a possibilidade de um apagão de professores, mas para conversar com estudantes que já fizeram uma escolha e ajudá-los a enxergar a dimensão e as possibilidades dessa decisão.


Ao longo dessas conversas, encontramos muitos jovens querendo ensinar. E esse talvez seja um dos pontos mais importantes dessa experiência: enquanto os números apontam para uma dificuldade de renovação da profissão nos próximos anos, existem estudantes que já estão escolhendo a docência. A questão passa a ser, então, o que estamos fazendo para que eles consigam continuar esse caminho.


No próximo dia 15 de outubro, Dia do Professor, estudantes da terceira série desses cursos terão a oportunidade de conhecer o campus da PUCPR. Poderão entrar em salas, conhecer cursos, conversar com professores e enxergar de perto uma possibilidade concreta de continuidade da formação no ensino superior. É uma ação pequena diante do tamanho do desafio, mas problemas grandes também começam a ser enfrentados quando transformamos diagnósticos em ações possíveis.


O envelhecimento da população brasileira vai exigir que olhemos com muito mais atenção para a formação profissional dos jovens. Isso valerá para o técnico que cuidará das nossas instalações, para o profissional que construirá nossas casas, para quem cuidará da nossa saúde e também para quem estará diante das próximas gerações dentro de uma sala de aula. Diagnosticar a falta futura de profissionais é necessário, mas talvez seja ainda mais importante olhar para os jovens que estão hoje nas escolas e perguntar que futuro estamos mostrando a eles.

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No caso dos professores, não precisamos esperar as salas de aula ficarem sem profissionais para começar a agir. Existem jovens escolhendo ensinar agora. Precisamos encontrá-los, valorizá-los e criar condições para que continuem estudando e possam transformar essa escolha em profissão. Afinal, quando pensamos em quem vai trabalhar, cuidar e construir o Brasil de amanhã, estamos falando também de quem vai ensinar o pequeno humano que ainda está chegando. Eles já escolheram ensinar. Cabe a nós criar caminhos para que possam seguir.

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