Instituições feridas

Desconsiderar os limites e a própria finitude, tentando superá-los a partir da desmedida ambição, cria contextos de manipulações e de artimanhas políticas que atingem frontalmente as instituições, ora por omissão, ora por imposição

Publicidade
Carregando...

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Afirma-se que uma nação precisa ter instituições fortes, capazes de alavancar o desenvolvimento integral, sempre preservando a moralidade, especialmente na gestão pública, e o respeito às leis e ao bem comum. Quando as instituições são fragilizadas, por diversas razões, todo o tecido social sofre. Não se consegue exercer adequadamente as responsabilidades políticas nem garantir a sustentação de princípios culturais que alicerçam o respeito à dignidade de todos os seres humanos. As consequências são desastrosas: a multiplicação de cenários de pobreza e violência, o crescimento de discriminações e exclusões são alguns prejuízos facilmente constatáveis. Essas situações expressam também golpes desferidos contra instituições, motivados por questões pessoais e políticas. Há, pois, o desafio de se conquistar adequada compreensão e juízo crítico a respeito das próprias responsabilidades na preservação das instituições.


Pode-se elencar incontáveis razões que produzem a fragilização das instituições: da falta de ética, em diferentes níveis e proporções, até o cinismo de se dizer uma coisa e fazer valer outra. Não menos relevante é a irresponsabilidade de se misturar interesses particulares e cartoriais com a gestão do erário público.

Trata-se de um assalto violento que fere a verdade e a dignidade humana. Aqueles que não exercem com zelo as suas responsabilidades são os que fragilizam as instituições, condenando-as à superficialidade ou à morte. Conta muito, pois, a competência humana, que precisa contemplar o domínio de técnicas indispensáveis para que as instituições cumpram com sua função social. Além disso, a competência humana vincula-se à fidelidade a princípios éticos. Preocupa, pois, quando a credibilidade passa a ser rifada e os escândalos sinalizam feridas no sagrado núcleo identitário das instituições.


Fica evidente a urgência de se investir na credibilidade, o que significa trabalhar para que todos busquem exercer suas responsabilidades com qualidade, na fidelidade à missão de cada contexto institucional. Lamentável e perversa é a submissão do ser humano aos interesses pecuniários, com seduções infernais que destroem a honestidade, o nobre propósito de buscar ser credível, livre de mesquinhez e de soberba.

No cuidado com as instituições, vale revisitar as indicações da Carta Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV. O investimento na cura e no fortalecimento de contextos institucionais pode começar pelo reconhecimento de limites e, ao mesmo tempo, da grandeza do ser humano. Afirma o Papa: a relação com a vida parece estar hoje em crise, por se apresentar tudo como limite – incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade – e não como espaço onde o ser humano amadurece e se abre à relação. Faz-se necessária uma visão da realidade iluminada pela fé, com uma interpretação que indique caminhos na contramão da soberba e da mesquinhez.


A fé cristã apresenta a finitude como caminho que contribui para alimentar o ajustado entendimento sobre a real grandeza do ser humano, à luz da relação original e fundamental com Deus. O orgulho e a soberba, que neutralizam a necessária e sincera preocupação com a necessidade dos semelhantes, estão, pois, na contramão de um olhar para a finitude iluminado pela fé cristã. Sem essa luminosidade, corre-se o risco de um distanciamento da própria realidade, com camuflagens e justificativas que empanam os limites concretos da vida, na doença ou na morte, no sentimento de impotência ou de fracasso. Há de se buscar sempre a sabedoria que liberta o ser humano dessas camuflagens e justificativas, para que não se negocie a insubstituível moralidade. Assim, pode-se também evitar a fragilização das instituições, causada pela falta de decoro e de ética. Os golpes que incidem nos contextos institucionais se ancoram no ilusório desejo de não se passar por provações e sofrimentos inevitáveis. Um desejo que se desdobra na ilimitada busca por riqueza e poder, abrindo caminho para a corrupção moral que ameaça a vida e leva à desumanidade, conforme diz o Papa Leão XIV. A finitude, ensina o Papa, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do semelhante.


Desconsiderar os limites e a própria finitude, tentando superá-los a partir da desmedida ambição, cria contextos de manipulações e de artimanhas políticas que atingem frontalmente as instituições, ora por omissão, ora por imposição. Cenários em que prevalecem as lógicas perversas alinhadas a interesses partidários que buscam desacreditar, maldosamente, o que é credível, instaurando, assim, o caos. Sem reconhecer os limites e a finitude humana, negocia-se a honestidade em favor de opções político-partidárias. O resultado é nefasto, merecendo uma reação daqueles que se comprometem com a bondade.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O fortalecimento das instituições depende de pessoas com visão lúcida, dedicadas à promoção do bem comum, capazes de exercer a cidadania adequadamente. A sociedade não pode se contentar com a mediocridade daqueles que, de modo incoerente, dizem querer edificar o bem, mas buscam validar-se assentados nos escombros dos outros. A inteireza das instituições se conquista com a fidelidade e a coerência de todos que as integram, chamados a agir alinhados à identidade e à missão de seus respectivos contextos institucionais. Esse agir coerente e fiel é capaz de recuperar instituições feridas, ajudando a construir um novo tempo na sociedade brasileira.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay