editorial

Donald Trump come o "quintal" pelas beiradas

Mesmo sem colocar os pés fisicamente, Marco Rubio, o homem de Trump para a reafirmação da supremacia dos EUA, parece imitar a sabedoria mineira

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A presença do secretário de Estado norte-americano na América do Sul, ao longo desta semana, deveria ao menos soar um alerta: ela se segue a uma série de declarações em que o governo de Washington deixou clara a determinação de "recuperar o quintal", uma fórmula que traz embutida a compreensão do governo Trump sobre o lugar da América Latina na geopolítica dos Estados Unidos.

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Colômbia, Equador e Peru, as escalas programadas por Marco Rubio, têm em comum a presença evidente e reconhecível das organizações criminosas dedicadas ao narcotráfico – mas também ao garimpo ilegal e ao contrabando de metais e mesmo "ativos" biológicos. A Amazônia, que se desdobra entre as escalas de Rubio, além do Brasil, desponta como novo Eldorado para cartéis e facções: por lá, transitam drogas, ouro e outros minerais, animais silvestres e amostras preciosas de plantas medicinais, tudo destinado ao comércio ilegal e à pirataria pura e simples.


É a agenda do secretário de Estado, titular da política externa dos EUA, que diz respeito aos países visitados. E ao Brasil, pela proximidade física e pela contiguidade política. Estamos a menos de um mês de uma eleição na qual, por tudo que aconteceu desde o retorno de Donald Trump ao poder, as relações com a Casa Branca estão em posição central, ombro a ombro com nossos imbróglios internos do Supremo Tribunal Federal (STF) e deste com os demais Poderes da República.


Marco Rubio, assim como Donald Trump, nunca fez segredo sobre o lugar do Brasil na geopolítica da Casa Branca para a nova etapa das relações internacionais. A estratégia de segurança nacional e defesa do governo iniciado em 2025 é cristalina: os EUA disputam a hegemonia global com a China em ascensão. Como desdobramento, definem como prioridade, como meta inicial e urgente, conter a expansão comercial e econômica da rival no hemisfério americano.


É em nome desse objetivo, e não daqueles alegados publica e formalmente, que o secretário de Estado vem a Colômbia, Equador e Peru para concatenar operações militares contra os cartéis da cocaína. A "guerra às drogas", ressuscitada sob Trump, data de Ronald Reagan, no início dos anos 1980. Os resultados da abordagem falam por si: o pó branco nunca faltou nas ruas e becos dos EUA, apenas subiu de preço, para lucro dos que o negociam, do atacado ao varejo.


O Brasil, que entra na reta final da disputa pelo Planalto, está fora do roteiro de Marco Rubio na atual viagem pelo "quintal", como define os países ao sul do Rio Grande, do México à Patagônia. Mas, mesmo sem colocar os pés fisicamente, o homem de Trump para a reafirmação da supremacia dos Estados Unidos parece imitar a sabedoria mineira, que ensina a "comer o mingau quente pelas beiradas".

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No que resta da campanha eleitoral, a relação a ser estabelecida com a Casa Branca, sob Donald Trump pelos próximos dois anos, é um dos temas capitais. Não por acaso, embora não apenas em torno dela, é nessa definição que as opiniões no país se dividem praticamente meio a meio, há pelo menos uma década: o mundo gira, a história avança e somos chamados a responder à pergunta incontornável sobre qual país pretendemos ser.

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