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Formas de esquecer a história

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"De repente, o Brasil descobriu que sempre foi jovem, bonito e feliz nos anos 80. Basta um aplicativo, uma fotografia antiga e alguns comandos para transformar qualquer cidadão contemporâneo em personagem de 'Grease'. O sujeito acorda em 2026, olha para o espelho e descobre, com a ajuda da inteligência artificial, que teria ficado ótimo com cabelo armado, jaqueta colorida e aquela expressão de quem não fazia ideia de que o país estava mergulhado numa de suas longas ressacas históricas.
A nova brincadeira é inocente. Pelo menos em princípio. O problema é que a nostalgia raramente fica satisfeita com a roupa.
Primeiro vêm os cabelos grandes. Depois aparecem os carros antigos, as músicas, as cores, a televisão sem streaming, o telefone que não cabia no bolso e, finalmente, aquela frase que sempre chega disfarçada de sabedoria popular, quase sempre acompanhada de um suspiro dramático. Naquele tempo havia respeito.
Havia mesmo.
Também havia censura, perseguição política, tortura, cassações, ausência de eleições diretas para presidente e um Estado que tinha especial apreço por ensinar aos cidadãos, inclusive à força, os limites da liberdade. Mas essas pequenas inconveniências costumam desaparecer quando a memória é editada para caber numa postagem bonita.
É uma especialidade nacional.
O brasileiro olha para um período autoritário e consegue sentir saudade da ordem sem necessariamente se lembrar de quem tinha o privilégio de definir o que era ordem. A nostalgia é assim. Escolhe o cenário, elimina os figurantes e apaga do roteiro aquilo que estraga a fotografia.
Não é difícil compreender o encanto. O Brasil atual oferece material de sobra para o saudosismo. Violência, corrupção, impunidade, instituições em permanente disputa, políticos transformando a vida pública em reality show e uma população exausta de assistir ao mesmo espetáculo com atores diferentes.
Só que existe uma diferença monumental entre querer um país organizado e querer um país obediente.
A primeira coisa se chama democracia funcional. A segunda costuma vir acompanhada de farda.
Talvez seja por isso que a inteligência artificial esteja fazendo tanto sucesso. Ela oferece ao brasileiro uma viagem ao passado sem o inconveniente de realmente voltar para lá. Permite cabelos de brilhantina, roupas coloridas e uma juventude eterna, mas sem censura, sem medo e sem precisar descobrir como era viver quando determinadas opiniões podiam custar muito mais do que uma discussão nas redes sociais.
É uma excelente tecnologia. Consegue até fabricar a memória que gostaríamos de ter. O problema é quando começamos a acreditar nela."

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Gregório José

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