Quando setembro termina, o cuidado continua?
Talvez uma das limitações do debate atual esteja em tratarmos a saúde mental como se ela existisse apenas dentro de cada pessoa
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Suzana Coelho
Assistente social, consultora em Direitos Humanos, Diversidade, Equidade e Inclusão. fundadora e CEO do Instituto Afetto
Setembro chega e, de repente, o cuidado ganha uma cor. Pessoas vestem amarelo, empresas alteram suas marcas, instituições iluminam fachadas, multiplicam-se palestras, rodas de conversa, mensagens de acolhimento e ofertas de ajuda. A mobilização é importante. Mas há algo que precisa ser dito com responsabilidade: prevenção ao suicídio não é celebração, ação promocional nem calendário de comunicação.
Estamos diante de uma pauta grave, sensível e complexa. Quando o amarelo se transforma apenas em estética, corremos o risco de produzir muita visibilidade e pouca sustentação. A campanha convida as pessoas a falar. Mas quem convida alguém a revelar sua dor também precisa estar preparado para responder ao que escuta.
Escutar sem estar preparado para o que vem depois pode expor uma dor sem garantir o cuidado necessário. Talvez uma das limitações do debate atual esteja em tratarmos a saúde mental como se ela existisse apenas dentro de cada pessoa. É nesse sentido que a perspectiva psicossocial amplia o nosso olhar sobre o tema: ela nos permite reconhecer que a vida psíquica também se constitui e é atravessada pelas relações, pelas condições materiais de existência e pelas experiências sociais.
Renda, raça, gênero, trabalho, violência, deficiência, responsabilidades de cuidado, acesso a direitos e redes de apoio interferem tanto na exposição ao sofrimento quanto nas possibilidades de proteção. A própria Organização Mundial da Saúde afirma que as condições em que as pessoas nascem, vivem, trabalham e envelhecem e o acesso que possuem a poder, dinheiro e recursos influenciam profundamente a saúde. Em 2025, a OMS destacou ainda que a combinação entre racismo estrutural e desigualdade de gênero restringe as oportunidades econômicas de 2,4 bilhões de mulheres em todo o mundo, com repercussões sobre sua saúde e a de suas famílias.
No Brasil, essa realidade também aparece nos dados. Em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, cerca de 15,7% a mais do que no ano anterior. Aproximadamente 63,5% dessas concessões foram destinadas a mulheres. O dado traduz, entre outros fatores, uma sociedade em que as mulheres ainda acumulam trabalho remunerado e uma carga desproporcional de cuidados e afazeres domésticos. Segundo o IBGE, em 2022 elas dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades, diante de 11,7 horas entre os homens.
Quando gênero se cruza com raça e classe, novas camadas se acrescentam. O racismo amplia exposições à violência, à insegurança, à precarização e à deslegitimação da dor, ao mesmo tempo que pode reduzir o acesso a serviços de qualidade. O Ministério da Saúde reconhece o racismo como determinante social das condições de saúde da população negra. Ainda assim, a insuficiência de dados raciais qualificados na atenção psicossocial continua dificultando o reconhecimento de quem adoece, de como adoece e das barreiras que encontra para acessar o cuidado de que necessita.
Por isso, uma campanha que oferece a mesma mensagem a todas as pessoas pode parecer universal e, ainda assim, não ser equitativa. Dizer “peça ajuda” pressupõe que exista ajuda disponível, acessível, preparada e capaz de compreender experiências diferentes. Pressupõe também que a pessoa possa falar sem ser julgada, exposta, desacreditada ou prejudicada.
No trabalho, essa discussão ganhou uma referência importante com a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1, em vigor desde 26 de maio de 2026. A NR-01 incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Sobrecarga, assédio, baixa autonomia, conflitos, falta de apoio e problemas na organização do trabalho precisam ser identificados, avaliados e enfrentados como riscos, não como falhas emocionais individualizadas.
O Anuário de Benefícios e Práticas Corporativas 2026, realizado pela Swile em parceria com a Leme Consultoria e a Poli Júnior da USP, mostrou um descompasso semelhante: embora quase 59% das empresas brasileiras afirmem estar totalmente preparadas para cuidar do bem-estar de suas equipes, a minoria monitora indicadores capazes de revelar sobrecarga e problemas na organização do trabalho. Apenas 11,7% acompanham as horas extras, 23,9% monitoram o clima organizacional de forma estruturada e 44,9% analisam a rotatividade.
O relatório Tendências em Gestão de Pessoas 2026, do Great Place to Work, reforça essa distância: 98% das empresas consideram a saúde mental relevante para a gestão de pessoas, mas somente 35% já realizam o mapeamento de riscos psicossociais – uma etapa essencial do gerenciamento previsto na NR-1.
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Escutar é necessário. Mas a escuta sem mapeamento, indicadores e plano de ação se esgota no próprio gesto: não produz conhecimento, não define responsabilidades nem se traduz em mudanças reais nas condições que contribuíram para o sofrimento. É isso que diferencia uma campanha de uma política de cuidado: o que permanece depois que setembro termina.