Política credível
Cada cidadão tem o direito, e o dever, de formar a própria opinião, a liberdade de exprimir a sua própria sensibilidade política e fazê-la valer em benefício do bem comum
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O ano eleitoral não deixa apagar a chama da política, que não pode extinguir-se, mesmo com o oceano de decepções diante de avanços aquém do que é necessário à sociedade. É preciso cuidar dessa chama, pois a política, no seu sentido genuíno, pode ajudar a levar uma nação a horizontes com envergadura humanística e social. A Igreja Católica compreende, fundamentada em sua Doutrina Social, que a política é um modo nobre de se praticar a caridade. O desafio é não reduzir a política aos meandros de ideologias, não se deve confundir identidade partidária com a grandeza da política. Por vezes, a descrença no âmbito partidário reflete-se na falta de credibilidade da propaganda eleitoral, que passa a ser considerada, por muitos, como um “festival de mentiras”, reunindo promessas e soluções que não convencem por faltar-lhes consistência. Ao mesmo tempo, não são poucos os candidatos que balizam o próprio desempenho em parâmetros medíocres. Essas situações apontam para uma urgência: o surgimento de nomes capazes de contribuir para a abertura de um novo ciclo, cidadãos com reconhecida autoridade moral e, por isso mesmo, inscritos na lista dos que são credíveis.
A grandeza da política não é para aventureiros, exige envergadura moral e competência técnica para um exitoso exercício de mandato. Também para aqueles que se candidatam ao exercício do poder, a maestria de Jesus guarda muitos ensinamentos relevantes, especialmente para que seja compreendido o que define a autoridade política. Na contramão da tentação de reduzir a política aos estreitados trilhos da dominação e da absolutização do poder temporal, Jesus Cristo ensina que exemplar é a atitude de servir, e não a de buscar ser servido. O modelo de Cristo desafia os representantes do povo: convoca-os a respeitar a justiça, a assegurar o bem comum, dedicando-se à população. A autêntica autoridade expressa-se, assim, a partir da clareza de que o ser humano é o fundamento e a finalidade da convivência política. Nessa direção, a Doutrina Social da Igreja Católica compreende e afirma que “a comunidade política procede da natureza das pessoas cuja consciência obriga, peremptoriamente, a observar a ordem esculpida por Deus em todas as suas criaturas”. Há, pois, na ordem estabelecida por Deus o fundamento moral que deve balizar a conduta humana, indispensável para que sejam alcançadas soluções de problemas da vida pessoal e comunitária.
Há de se reconhecer a exigência inegociável de que sejam submetidos à votação nomes capazes de exercer, com competência, a tarefa de promover o bem comum. Outra exigência para o exercício da política é não considerar a população como multidão amorfa, massa inerte a ser manipulada e instrumentalizada. Cada cidadão tem o direito, e o dever, de formar a própria opinião, a liberdade de exprimir a sua própria sensibilidade política e fazê-la valer em benefício do bem comum, ensina a Doutrina Social da Igreja. Nesse horizonte, todos os cidadãos são chamados a avaliar candidatos a partir de valores espirituais e morais: valores que vivificam e orientam para o bem a cultura, o desenvolvimento econômico, as instituições sociais, as deliberações políticas, a ordem jurídica e tantas outras dinâmicas essenciais à convivência humana.
Faz-se essencial encontrar nomes capazes de servir à grande comunidade de cidadãos, de modo fiel a valores inegociáveis que constituem um tesouro sagrado, pois a comunidade política tem importante tarefa na criação de contextos fortemente marcados pelo respeito aos direitos humanos e adequado exercício da cidadania. Na direção oposta, a comunidade política se apequena. Por mediocridade ou por interesses cartoriais, coloca-se a serviço de grupos restritos, concedendo-lhes vantagens, com sacrifícios ao bem comum. A comunidade política precisa da força moral que evita a concessão de privilégios observando somente o critério de preferências pessoais. A falta de força moral contribui para consolidar cenários de desigualdade, discriminação e exclusão na sociedade brasileira.
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Apesar dos desencantos com a política, pela falta de credibilidade, a chama luzente das eleições possa oferecer a oportunidade de um recomeço e a alimentação do sonho de uma sociedade mais justa e fraterna. É verdade que muitas reformas são necessárias para abrir passagem a modelos mais qualificados de comunidade política, mas um ponto de partida é escolher nomes com credibilidade. Candidatos dedicados também a fazer uma semeadura de novos modelos e de nomes que se tornem referência no âmbito político, reconquistando a credibilidade para esse âmbito tão essencial, a partir de desempenhos que estejam a serviço do bem comum. A política credível relaciona-se, justamente, com o reconhecimento da dimensão sagrada do bem comum, fomentando a cultura da solidariedade. O ano eleitoral lembra a população de seu desafio: escolher nomes capazes de, gradativamente, devolver à política o seu direito e a sua missão de ser credível.