Reunião Brasil-EUA não é resultado da coincidência
A pressão econômica para interferir na política brasileira é clara desde o início – e conta com a dedicada atuação de agentes nacionais, que trabalham junto a setores do trumpismo
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A reunião virtual entre o ministro Márcio Elias Rosa (Indústria, Comércio e Serviços) e Jamieson Greer, representante de comércio norte-americano, na próxima segunda-feira, indica bem mais do que a retomada das negociações para a suspensão das tarifas sobre as exportações para os Estados Unidos. Insinua uma alteração nas relações políticas entre os países, cujo cenário de fundo são as eleições presidenciais brasileiras de outubro.
Uma fileira de acontecimentos teria mostrado que nenhuma interferência externa será capaz de interferir na escolha do eleitor e no resultado da corrida ao Palácio do Planalto. Mas um foi o mais contundente: a reunião convocada pelo Tribunal Superior Eleitoral, em 17 de agosto, com representantes diplomáticos.
No encontro, o ministro Kássio Nunes Marques fez uma veemente defesa do processo de votação e da urna eletrônica, cujo funcionamento é colocado em dúvida por pelo menos um dos atuais presidenciáveis. Na mesma sessão, e em adição às informações do magistrado, o corpo técnico do TSE aprofundou as explicações para o entendimento do sistema eleitoral.
A encarregada de negócios interina da embaixada dos EUA no Brasil, Kimberly Kelly, estava entre os convidados para a reunião no tribunal. Depois disso, em 21 de agosto, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump conversaram por mais de uma hora sobre a relação bilateral. Esse diálogo destravou a conversa entre Elias Rosa e Greer, na próxima segunda-feira.
Mas um terceiro episódio, em 23 de agosto, chama a atenção. Passou quase despercebida a entrevista que o futuro embaixador norte-americano no Brasil, Daniel Perez, concedeu a um programa de tevê da emissora WPLG Local 10, da Flórida, onde era presidente da Câmara dos Representantes. Em certo momento, diz textualmente: "Não haverá nenhum envolvimento da minha parte em relação à eleição no Brasil. Isso é algo para os brasileiros decidirem. Eles têm um processo eleitoral pelo qual têm de passar em outubro, e qualquer um que sair vitorioso será o líder do Brasil e será com quem eu vou trabalhar".
É mais do que conhecida a estreita ligação de Perez com o secretário de Estado, Marco Rubio – que comemorou o fato de que "pela primeira vez, em 15 ou 20 anos, a maioria dos governos da América Latina é pró-Estados Unidos", devido às recentes vitórias de candidatos direitistas nas eleições presidenciais do Peru e da Colômbia.
Ninguém desconhece que o tarifaço decretado por Trump, em julho de 2025, tem como alicerce uma mentira – a suposta condenação de um ex-presidente ao arrepio da lei, resultado de inexistente perseguição política. Todo o contencioso que se seguiu foi somente o prolongamento dessa fábula. A seção 302 do United States Trade Representative (USTR) é um braço da farsa, pois acusa o Brasil de manter relações comerciais injustas com os EUA. Aponta até um irreal superávit comercial brasileiro.
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A pressão econômica para interferir na política brasileira é clara desde o início – e conta com a dedicada atuação de agentes nacionais, que trabalham junto a setores do trumpismo. Barreiras de contenção ao avanço da intromissão norte-americana foram erguidas e, até então, nenhuma parecia ser eficiente, nem mesmo a adoção da Lei da Reciprocidade. Mas, desde a reunião do TSE, há sinais de distensionamento. Na política, acredita-se em muitas coisas. Menos em coincidências.