A reação dos livros
Num ecossistema saturado de informação fragmentada e conteúdo descartável, o livro oferece o que algoritmos não conseguem entregar: profundidade, contexto e permanência
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Um pedido inusitado revelou a força dos livros. A escritora e navegadora Tamara Klink, de 29 anos, publicou um vídeo nas redes sociais há cerca de duas semanas pedindo que as pessoas parassem de comprar seu livro “Bom dia, inverno”. O livro, que narra os oito meses que ela passou sozinha em um veleiro no Ártico, já frequentava as listas de mais vendidos havia semanas. Preocupada com o impacto ambiental da impressão de novos exemplares, Tamara defendeu que os livros já existentes deveriam circular entre leitores em vez de novas cópias serem produzidas. A repercussão foi imediata – e negativa. Em apenas quatro dias após o vídeo, o livro vendeu 2.061 exemplares, quase o dobro do esperado para o período, segundo levantamento da BookInfo, que realizou o levantamento a pedido do jornal “Folha de S.Paulo”. Só no sábado em que influenciadores começaram a comentar o episódio, foram 964 exemplares vendidos, contra cerca de 300 no sábado anterior. Tamara apagou o vídeo e se retratou. Mas o mercado já havia dado a resposta: quando o assunto é livro, o público brasileiro não é indiferente.
Essa reação tem nome e número. Os dados do 7º período do Painel do Varejo de Livros no Brasil, pesquisa realizada pela Nielsen e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pelo portal PublishNews mostram um setor em expansão consistente. Entre junho e julho deste ano, o varejo de livros movimentou R$ 245,1 milhões, uma alta de 9,3% em relação ao mesmo período de 2025, e comercializou 4,8 milhões de exemplares, crescimento de 2,3%. No acumulado do ano, o faturamento chegou a R$ 1,89 bilhão, com crescimento de 12,7%, e o volume vendido alcançou 35,6 milhões de exemplares, alta de 10,2%. Em todos os sete períodos auditados em 2026, houve crescimento – em alguns deles, de dois dígitos.
O dado mais revelador, porém, não é o faturamento. É a composição do que está sendo comprado. A ficção adulta consolida-se como o maior subsegmento do mercado, com 32,6% de participação, quase seis pontos percentuais a mais do que em 2025. Ou seja: os brasileiros não estão apenas comprando mais livros. Estão escolhendo narrativas, histórias e literatura. Estão lendo por prazer.
Esse crescimento é ainda mais significativo quando colocado em contexto. O setor atravessou, nos últimos anos, uma das crises mais duras de sua história recente. O fechamento das livrarias Cultura e Saraiva, duas das maiores redes do país, com décadas de presença nas principais cidades brasileiras, deixou um vazio físico e simbólico que parecia difícil de superar. Prateleiras vazias, lojas fechadas, empregos perdidos. E, ainda assim, o mercado cresceu. O livro sobreviveu ao encolhimento de seus principais pontos de venda e encontrou outros caminhos, como o e-commerce, as livrarias independentes, as feiras, as redes sociais para chegar ao leitor.
Essa resiliência não é acidental. É o reflexo de um formato que, ao contrário do que se previu por décadas, não foi derrotado pela tela. O livro continua sendo o veículo preferencial para a transmissão de ideias complexas, narrativas longas e conhecimento acumulado. Num ecossistema saturado de informação fragmentada e conteúdo descartável, ele oferece o que algoritmos não conseguem entregar: profundidade, contexto e permanência.
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O que falta, agora, é o Estado enxergar essa janela de oportunidade. Políticas de incentivo à leitura, programas de compra institucional para escolas e bibliotecas públicas, redução de carga tributária sobre o livro e apoio à cadeia de distribuição em regiões sem acesso a livrarias físicas são instrumentos conhecidos e eficazes. O mercado já está fazendo sua parte. Cabe ao poder público decidir se vai surfar essa onda, ou apenas observá-la de longe.