Pessoas fazem a mudança nos times de tecnologia no mercado financeiro
Ferramentas evoluem em semanas, mas pessoas precisam de contexto, prática e cultura para transformar tecnologia em resultado
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Melissa Kfouri
CDO da Zup, Empresa de tecnologia do grupo Itaú-Unibanco
O mercado financeiro brasileiro atravessa uma das fases de maior pressão tecnológica de sua história. Em 2024, a adoção de inteligência artificial pelas empresas brasileiras chegou a 75%, um aumento expressivo frente aos 55% do ano anterior, segundo estudo da Universidade de Stanford. No setor financeiro, esse movimento é ainda mais acelerado: a IA deixou de ser promessa e passou a integrar o dia a dia das operações, do crédito à prevenção de fraudes. O que ainda não acompanhou esse ritmo, em muitas organizações, é o desenvolvimento dos times que operam essa tecnologia.
A velocidade de adoção cria uma lacuna real. Ferramentas evoluem em semanas, mas pessoas precisam de contexto, prática e cultura para transformar tecnologia em resultado. E os dados mostram que essa equação importa: times sólidos, com processos bem definidos e cultura colaborativa, conseguem extrair ganhos reais de produtividade e eficiência com a adoção de IA. Já equipes que enfrentam desafios estruturais acabam vendo esses problemas se intensificarem com a chegada da tecnologia, segundo o DORA Report 2025, que entrevistou quase 5 mil profissionais de tecnologia no mundo.
Esse cenário é especialmente sensível no mercado financeiro, onde os casos de uso de IA já operam em escala. O ponto central é que a tecnologia amplifica o que já existe nas equipes. Um time que entrega valor com consistência e domina os fundamentos do desenvolvimento de software consegue incorporar IA como acelerador; já um time sem essa base tende a usar a tecnologia de forma superficial ou a criar débito técnico difícil de reverter. O DORA Report reforça que a IA entrega melhores resultados quando direcionada a problemas claros e com foco na pessoa usuária final. Isso é desenvolvimento de software com responsabilidade, não apenas adoção de ferramentas.
Dados levantados pelo Distrito mostram que no Brasil, cerca de 15% das startups ativas na América Latina atuam no setor financeiro, totalizando mais de 3.500 empresas. No período de um ano (2024-2025), aproximadamente 200 novas fintechs surgiram no continente, consolidando o Brasil como principal hub de inovação financeira da região. Esse ecossistema competitivo eleva a demanda por times de tecnologia com capacidade de entregar soluções financeiras de ponta com ciclos curtos, governança forte e qualidade de código sustentável.
Agentes de IA já operam em processos críticos do setor: análise de risco crédito, negociação automatizada de dívidas, recomendações de investimento e detecção de fraudes em tempo real. O Gartner estima que, até 2028, 15% das decisões diárias no setor financeiro serão tomadas de forma autônoma por agentes inteligentes. Construir e operar esses sistemas exige pessoas que entendam tanto os modelos de negócio financeiro quanto as arquiteturas de software que sustentam esses agentes.
Um levantamento da IDC, encomendado pela Microsoft, mostra que organizações que incorporam agentes de IA em seus fluxos de trabalho reportam retornos sobre os investimentos em inteligência artificial aproximadamente três vezes maiores do que as que demoram a adotar a tecnologia. Mas o retorno não vem da ferramenta, e sim da capacidade do time de usá-la com propósito, dentro de uma arquitetura bem construída e com governança responsável.
Essa combinação de conhecimento de domínio e capacidade técnica não nasce espontaneamente; ela é desenvolvida. E esse desenvolvimento precisa ser tratado como produto, com ciclos de melhoria, métricas e evolução contínua. Empresas que ainda estão em fase de avaliação de suas estratégias começam a ficar visivelmente para trás de seus concorrentes. No setor financeiro, onde a janela de diferenciação tecnológica se fecha rapidamente, esse atraso tem custo mensurável.
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