Até o que salva vidas é colocado em xeque
Contra a queda na imunização da população brasileira, a resistência às vacinas e o negacionismo, precisamos de menos radicalização, menos polarização e mais responsabilidade
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Paulo Serra - Especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos). Cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP
Vírus não votam. Bactérias não têm partido. Doenças não seguem conceitos. Infelizmente, um dos efeitos mais preocupantes da polarização política é a transformação de temas técnicos e científicos em campos de batalha ideológica. E poucos exemplos ilustram isso tão bem quanto a queda da cobertura vacinal infantil no Brasil.
Dados recentes acendem o alerta nacional: até 7/8, ao menos 24 casos de sarampo foram confirmados no país, a maioria no estado de São Paulo. Na capital paulista, maior cidade brasileira, a cobertura está em torno de 75% – índice baixo, segundo especialistas, já que somente se consegue prevenir a transmissão com cerca de 95%. Cada ponto percentual representa milhares de crianças desprotegidas.
É claro que tal redução tem várias causas: dificuldades de acesso, mudanças na rotina das famílias e desafios enfrentados pelos serviços de saúde. Mas seria ingenuidade ignorar outro fator que ganhou força nos últimos anos: a desinformação e a desconfiança em relação às vacinas, alimentadas por um ambiente de radicalização. Evidências científicas passaram a disputar espaço com boatos. Esse, talvez, seja um dos maiores prejuízos da polarização: quando tudo vira disputa política, até o que salva vidas passa a ser questionado.
Durante décadas, vacinar uma criança era um ato de cuidado, uma tradição. Pais e mães zelosos levavam seus filhos aos postos porque confiavam na medicina e no Programa Nacional de Imunizações (PNI) – um dos maiores patrimônios da saúde pública brasileira.
Entre 2020 e 2021, na pandemia da Covid-19, vivemos um dos momentos mais difíceis e tristes da história recente. Só no Brasil, mais de 700 mil vidas foram ceifadas pelo novo coronavírus. O país se enlutou e lutou para evitar mais contaminações e mortes. Para tanto, prefeituras e estados ergueram hospitais de campanha, ampliaram leitos, adotaram protocolos de prevenção (como o uso de máscaras cirúrgicas) e restrições sanitárias, a fim de proteger a população. Cada ação foi providencial.
Mas foi a imunização em massa que reduziu internações, diminuiu casos graves, salvou milhares de pessoas e permitiu que a sociedade retomasse suas atividades com segurança, dando início ao “novo normal”.
Os antídotos estão entre as maiores conquistas da humanidade. Graças a eles, graves enfermidades foram erradicadas, como a varíola, enquanto poliomielite, sarampo, rubéola e tantas outras passaram a ser controladas em diversas nações.
Em pleno século 21, questionar os imunizantes, sem qualquer fundamento científico, e espalhar inverdades sobre eficácia, significa abrir espaço para o retorno de moléstias que já não faziam parte da realidade desta e de gerações passadas.
Recuperar a confiança na vacinação precisa ser prioridade, sendo essa uma obrigação do poder público. Isso exige campanhas de conscientização, disseminação de informação correta e objetiva sobre o tema e seriedade no debate público.
O que vemos, hoje, com a queda na imunização da população brasileira, a resistência às vacinas e o negacionismo, é a constatação daquilo que tenho insistido em defender: precisamos de menos radicalização, de menos polarização e de mais responsabilidade.
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Quando se coloca em dúvida uma política pública que há décadas salva milhões de vidas, quem paga essa conta é toda a sociedade e, principalmente, nossas crianças – o nosso futuro.