Brumadinho: ressignificar sem esquecer
Cidade marcada pelas perdas pode e deve preservar memórias e ao mesmo tempo retomar a vida cotidiana
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Fabíola Moulin
Diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho
Brumadinho é uma cidade de montanhas, comunidades, trabalho e encontros. Quem a conhece sabe que sua história não cabe em uma única paisagem nem em uma única lembrança. Nos últimos sete anos e meio, porém, uma marca profunda passou a integrar a vida do município e a memória do país: o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, que interrompeu 272 vidas. Desde então, Brumadinho carrega uma dor que fala sobre cuidado, responsabilidade, trabalho, território, prevenção e valores humanos.
Para as famílias, lembrar não é escolha eventual. É saudade, imposição e forma de amor. É continuar dizendo nomes, preservando rostos, histórias e ausências de quem partiu em circunstâncias que poderiam ter sido evitadas. Brumadinho não pode ser reduzida a esse acontecimento trágico e irreparável. Talvez o grande desafio da cidade e da região seja construir uma síntese madura: ressignificar sem esquecer.
Ressignificar não é apagar, virar a página ou transformar a dor em silêncio conveniente. É permitir que a cidade siga vivendo, recebendo visitantes e valorizando sua cultura, sua economia e sua vocação turística, sem negar a memória das pessoas vitimadas.
Esquecer seria impor uma segunda perda às famílias. Seria permitir que cada pessoa se tornasse apenas uma dolorosa estatística. A memória existe para que a ausência gere presença pública, para que a dor produza cuidado coletivo e para que a história resulte em prevenção. Uma cidade sem memória não pode ser uma cidade feliz. É uma cidade que mantém a lembrança viva em nome da continuidade e da preservação da vida de seus moradores como o bem mais supremo.
O Memorial Brumadinho deve ser compreendido nesse horizonte. Ele não existe para entristecer a população, perpetuar o trauma, impedir que Brumadinho floresça. Ainda que a dor permaneça, o memorial existe para honrar vidas, promover conscientização e inconformidade, para educar novas gerações e afirmar que nenhum interesse ou negócio pode estar acima da vida humana.
É importante reafirmar sempre com muita clareza: o Memorial Brumadinho não é da Vale. O Memorial nasce do luto e da luta das famílias, representadas pela Avabrum, e é gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho de forma autônoma e independente. É das famílias, de Brumadinho, de Minas Gerais e do Brasil.
É compreensível que Brumadinho não deseje ficar associada a essa lamentável tragédia. As famílias muito menos gostariam de conviver com isso. Lutam contra o esquecimento, o descaso e a falta de justiça para tentar encontrar alguma paz. Não será virando as costas para a dor própria ou alheia que ela virá. A cidade tem história antes de 2019 e continuará tendo história depois. A vida precisa seguir em frente, mas sem que ninguém fique para trás.
É justamente desse compromisso com a vida, a memória e o futuro que nasce o primeiro seminário internacional do Memorial Brumadinho. Entre 13 e 15 de agosto, pesquisadores, artistas, jornalistas, familiares e lideranças comunitárias se reunirão para discutir mineração, transição energética, cultura, prevenção e justiça. Será oportunidade para reposicionar Brumadinho como uma cidade que desperta consciência, ensina respeito à vida e defende a dignidade humana. Com seriedade, mas sem precisar ser triste.
Brumadinho se soma a outras cidades, memoriais, centros de referência e movimentos mundo afora como mais um marco humanitário na luta contra a banalização da vida. Uma cidade que escolhe lembrar não fica presa ao passado. Ela constrói, com mais cuidado e maturidade, o futuro que deseja habitar.
Nenhuma família deseja cultivar tristeza. Todas querem superar a dor, trabalhar com segurança, prosperar, sorrir. Ao preservar o brilho e o valor incalculável de 272 histórias prematuramente interrompidas, o Memorial Brumadinho quer abraçar a vida em conjunto com a população local, da região, da capital e do estado.
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Quanto mais próximas e próximos estivermos, mais rápido será possível encontrar coletivamente caminhos para seguir. Não do mesmo jeito. Mas ainda assim com capacidade de achar sentido e alegria nas relações cotidianas, nas lembranças e mesmo na saudade. É desejável que a memória gere sempre algum incômodo. Isso é um sinal positivo de que a gente, de fato, continua se importando.