Pacto pela vida e contra o sarampo
Não há dúvidas de que, pela importância logística, populacional e econômica, São Paulo exerce papel preponderante para frear o sarampo
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Juntas, as cidades de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo têm cerca de 14 milhões de habitantes — praticamente 2 milhões a mais do que toda a população de Portugal e 2 milhões a menos que os moradores do Centro-Oeste brasileiro. Não é exagero, portanto, afirmar que o que se passa nesse grande bolsão populacional do Sudeste deve despertar a atenção de gestores públicos, incluindo as questões sanitárias.
As cidades enfrentam um surto ativo de sarampo — respondem por quase 85% dos casos da doença registrados no país neste ano — e deram início ontem à estratégia de vacinação em massa para conter a crise. Todas as pessoas com idade entre 6 meses e 59 anos que moram ou trabalham nesses locais devem ser imunizadas, inclusive as que estão com o esquema vacinal completo. Em número absoluto, o problema pode parecer pequeno — são 16 infecções confirmadas, sendo 13 na capital, duas em São Bernardo do Campo e uma em Guarulhos. Mas não faltam motivos para entrar em estado de alerta.
Um deles é o encontro perfeito de condições para o vírus: o patógeno de alto poder de disseminação está se infiltrando na maior metrópole da América Latina. Destino final e pouso transitório de um número expressivo de pessoas, brasileiras ou não, São Paulo corre o risco de se tornar um polo disseminador de uma doença que tem um dos maiores poderes de transmissibilidade de que se tem notícia. Estima-se que um infectado passe o sarampo para 12 a 18 pessoas não imunizadas. Para se ter uma ideia, o coronavírus causador da COVID chega a alcançar seis.
A baixa cobertura vacinal deixa o cenário ainda mais propício para o sarampo. A imunização se dá pela aplicação de duas doses da tríplice viral — que protege também contra caxumba e rubéola. A recomendação dos órgãos de saúde é de que a taxa de imunizados seja de 95%. Neste ano, em São Paulo, os números são de 77,5% para a primeira dose e 65,5% para a segunda. Impõem-se à pasta de Saúde renovar estratégias para bater a meta sanitária. A vacinação em massa durante o mês de agosto ajuda nesse sentido, principalmente se impulsionada por dinâmicas que facilitem o acesso, como ações nos fins de semana e em áreas de grande fluxo.
Também não se pode perder de vista que o cobertor sanitário contra o sarampo é ainda mais curto em outras regiões brasileiras e nações fronteiriças: Bolívia e Peru, por exemplo, têm confirmados, respectivamente, 85 e 1.139 casos neste ano, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), sendo a situação peruana aparentemente mais preocupante, já que o número de infectados quase dobrou em um mês. Ampliando a perspectiva, a preocupação também se expande. Isso porque, nesses mesmos 30 dias, o número de infectados nas Américas pulou de 22.674 para 47.026, um aumento de 107%.
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Não há dúvidas de que, pela importância logística, populacional e econômica, São Paulo exerce papel preponderante para frear essa ameaça à saúde coletiva. Mas, ainda que complexa, essa batalha não é única. Infecções tão perigosas quanto o sarampo também são beneficiadas pela baixa cobertura vacinal no país, impulsionadas sobretudo por movimentos negacionistas. Todas elas precisam ser combatidas o quanto antes. A imunização ampliada nas cidades paulistas se dará concomitantemente à Campanha Nacional de Multivacinação, focada na atualização da caderneta de crianças e adolescentes. Trata-se, portanto, de oportunidade para cumprir o dever cívico de se vacinar sem restrições e em qualquer lugar do país. Essa é a atitude esperada de qualquer sociedade que pactue com o respeito à vida.