O risco da fusão dos conflitos
A convergência entre as guerras da Ucrânia e do Irã ameaça colapsar rotas marítimas vitais e asfixiar o fornecimento energético global
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A Primeira Guerra Mundial começou com um único tiro em Sarajevo. Ninguém, naquele verão de 1914, imaginava que o assassinato de um arquiduque ativaria um sistema de alianças capaz de matar 20 milhões de pessoas. A lição que a história ensinou é que conflitos armados não respeitam as fronteiras que seus idealizadores imaginam ter desenhado. O ataque ucraniano a um navio comercial iraniano no Mar Cáspio, no último sábado, e as subsequentes ameaças de retaliação de Teerã podem ser o ponto de fusão entre duas guerras até então geograficamente contidas: o conflito no Leste Europeu e a crise crônica no Oriente Médio. Ao ameaçar fundir esses dois teatros de operações em uma única crise global, o episódio coloca, pela primeira vez desde o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos e a Rússia em lados diretamente opostos de um mesmo tabuleiro em ebulição.
As consequências práticas desse transbordamento não se limitam aos mapas táticos dos militares ou à retórica dos gabinetes. Para a sociedade e os mercados, o impacto é imediato. A convergência entre as guerras da Ucrânia e do Irã ameaça colapsar rotas marítimas vitais e asfixiar o fornecimento energético global, traduzindo-se em disparada no preço dos combustíveis, interrupção das cadeias de suprimentos e inflação persistente nos alimentos. Quem paga a conta dessa irresponsabilidade, de forma desproporcional, são as populações mais vulneráveis, reféns de potências acostumadas a terceirizar suas disputas hegemônicas.
A história também é implacável em demonstrar como o acionamento de alianças cruzadas e retaliações desmedidas foge rapidamente ao controle de seus próprios idealizadores. Ao expandir o escopo da guerra para alvos logísticos iranianos, Kiev joga fogo em um barril de pólvora que já não suporta pressão. Em contrapartida, a instrumentalização de Teerã por Moscou e a leniência de Washington com os excessos de seus aliados criam uma arquitetura de confronto onde um erro de cálculo pode arrastar continentes inteiros para o front.
O mecanismo pelo qual guerras localizadas se tornam conflitos globais raramente é uma decisão deliberada. Costuma ser uma cascata de reações que ninguém planejou e ninguém consegue parar. Foi assim, por exemplo, na Guerra da Coreia, quando uma ofensiva localizada na península arrastou americanos, chineses e soviéticos para um confronto que nenhum dos três buscava diretamente. O cenário atual replica essa lógica com elementos ainda mais voláteis: atores não estatais com capacidade de ataque sofisticado, cadeias de fornecimento militar que cruzam múltiplas fronteiras e governos que usam a ambiguidade estratégica como política deliberada. Quando todos fingem que o conflito ainda é controlável, o momento em que deixa de ser chega sem aviso.
O mais alarmante nesse quadro é o retorno do fantasma atômico ao cálculo geopolítico. Uma escalada envolvendo direta e indiretamente nações com arsenais nucleares dissolve a linha divisória entre o uso de força convencional e o abismo atômico. Quando governos se veem acuados politicamente e sem saída diplomática à vista, o flerte com armas táticas deixa de ser tabu distante para figurar como instrumento de chantagem assustadoramente palpável. A história do armamento nuclear é, em grande parte, uma história de dissuasão que funcionou, mas a dissuasão pressupõe racionalidade. Em conflitos com múltiplos atores, alianças opacas e lideranças sob pressão doméstica intensa, a racionalidade é exatamente o primeiro recurso a escassear.
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Com o mundo à beira deste abismo, a letargia das instituições de governança global é inaceitável. É imperativo que a ONU e os fóruns multilaterais abandonem a paralisia burocrática e a emissão de notas de repúdio inócuas, forçando a abertura de canais reais de diálogo entre as partes. Não há espaço para acreditar que sanções econômicas ou rodadas pontuais de negociação conterão sozinhas o ímpeto bélico. Ou o sistema internacional retoma o pragmatismo e impõe freios à escalada entre Ucrânia, Rússia, EUA e Irã, ou a próxima página da história será escrita em condições que ninguém gostaria de estar.