editorial

As duas faces da Copa do Mundo

Copa pode crescer, conquistar mercados e alcançar dimensões maiores, mas não pode perder a capacidade de fazer milhões se reconhecerem dentro da mesma história

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A Copa de 2026 terminou com a Espanha campeã, mas o principal legado da 23ª edição, em 96 anos de história, vai muito além do resultado esportivo. A maior edição da história do torneio consolidou o futebol como linguagem universal e também revelou, de forma inédita, como o Mundial se tornou um espaço de disputa política, econômica e diplomática.

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Dentro das quatro linhas, a Espanha ofereceu uma das principais lições da Copa. O título não nasceu do acaso nem apenas do talento individual. Foi consequência de um projeto coletivo de longo prazo, com uma identidade construída desde as categorias de base. Fora do campo, o Mundial expôs contradições. Teve três sedes, mas um centro de poder. Os Estados Unidos concentraram os principais palcos, a maior exposição internacional, a econômica e os momentos decisivos.


A cerimônia de premiação produziu uma cena simbólica dessa realidade. A imagem de Donald Trump ao lado da taça, em posição de destaque, enquanto os demais líderes dos países-sede – México e Canadá – apareciam em segundo plano, reforçou a percepção de um evento no qual esporte e política compartilharam o mesmo palco.


A geopolítica também entrou em campo. As dificuldades logísticas enfrentadas pela seleção iraniana, obrigada a administrar deslocamentos extraordinários entre México e EUA em razão das restrições diplomáticas, mostraram que decisões de Estado passaram a interferir diretamente na rotina da competição.


Essa transformação não começou em 2026. As últimas edições mostram como o Mundial passou a refletir as tensões de seu tempo. A África do Sul recebeu, em 2010, a primeira Copa do continente africano, carregada de simbolismo e debates sobre legado. O Brasil de 2014 conviveu com manifestações populares e questionamentos sobre prioridades nacionais. A Rússia de 2018 organizou o torneio em meio a tensões internacionais. O Catar de 2022 enfrentou críticas relacionadas aos direitos humanos e às condições de trabalho dos migrantes. Em 2026, imigração, fronteiras e relações diplomáticas também fizeram parte da agenda.


A Copa tornou-se um espelho do mundo em que é disputada. E o reflexo também apareceu na economia. A Fifa alcançou patamares financeiros históricos, impulsionada por contratos comerciais, direitos de transmissão, hospitalidade e novas formas de exploração do evento. A aproximação com a lógica americana de entretenimento esportivo ficou evidente no show do intervalo da final, inspirado no modelo do Super Bowl.


O crescimento do negócio – passando a disputar espaço na indústria global do entretenimento – também inflou o debate sobre o acesso dos torcedores comuns, divididos entre o número recorde de 48 seleções. Esse é o principal dilema deixado por 2026. A democratização promovida dentro das quatro linhas passou a conviver com um acesso cada vez mais seletivo fora delas, impulsionado por ingressos de alto custo, hospitalidade premium e experiências corporativas.


O futebol continua sendo capaz de emocionar, aproximar culturas e criar histórias universais. A Espanha comprovou isso ao conquistar o mundo com uma geração construída a partir de ideias e trabalho. Mas o Mundial também mostrou que a bola agora convive com interesses políticos, econômicos e estratégicos que disputam espaço ao seu redor.


A Fifa administra um dos maiores negócios do planeta. Os governos enxergam uma poderosa vitrine. As empresas encontram novas oportunidades. Mas a alma da Copa do Mundo continuará dependendo daquele que sempre esteve no centro da história: o torcedor.

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A Copa pode crescer, conquistar novos mercados e alcançar dimensões cada vez maiores, mas não pode perder a capacidade de fazer milhões de pessoas se reconhecerem dentro de uma mesma história. No fim, é isso que transforma um jogo de futebol em um acontecimento mundial. É esse patrimônio que a Fifa tem o dever de preservar.

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