O país que decide não é mais o mesmo
Sobre essa nova base demográfica assentou-se a polarização afetiva, que não é sobre ideologia, mas sobre pertencimento e rejeição
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KAROLINA MATTOS ROEDER
Professora, cientista social com pós-doutorado em ciência política
A menos de cem dias do primeiro turno, há muita imaginação circulando sobre viradas milagrosas, candidaturas salvadoras ou um eleitorado que já não existe. As redes sociais amplificam as vozes dos campos polarizados e fazem o debate girar em torno de quem já decidiu o voto, enquanto os eleitores sem vínculo afetivo com os polos, que decidirão a eleição, seguem invisíveis nessa conversa. Ao propor que se olhasse para a realidade efetiva da política, e não para a imaginação sobre como ela deveria ser, Maquiavel fundou um princípio que a ciência política carrega até hoje.
Os dados mostram, antes de tudo, que o Brasil que elegeu Lula em 2002 já não existe mais. Como demonstra o cientista político Jairo Nicolau, em “O país dividido”, recém-publicado pela Zahar, o eleitorado envelheceu, se feminizou, se escolarizou e se evangelizou. As mulheres são hoje 53% dos eleitores e foram decisivas na vitória de Lula em 2022, quando pela primeira vez um candidato venceu entre mulheres e perdeu entre homens. Os jovens encolheram para 31% do eleitorado. Os evangélicos chegaram a 27% e, desde 2018, realinharam-se à direita. O dado mais contraintuitivo é que a escolarização favoreceu a direita, que capturou o eleitor de ensino médio, urbano e conectado, enquanto o PT ficou com uma base de menor escolaridade, interiorana e nordestina, sólida, porém decrescente.
Sobre essa nova base demográfica assentou-se a polarização afetiva, que não é sobre ideologia, mas sobre pertencimento e rejeição. Segundo os dados mobilizados por Nicolau, em 2002, 31% do eleitorado era polarizado. Em 2022, 64%. A pesquisa Genial/Quaest de junho confirma que a estrutura permanece: cerca de 32% rejeitam Bolsonaro mas não o PT, base de Lula; outros 30% rejeitam o PT mas não Bolsonaro, base de Flávio Bolsonaro, que herda o capital político do pai. Os núcleos duros somam 60% e estão definidos. A eleição será decidida pelos 40% restantes, concentrados sobretudo no Sudeste.
É nesse cenário que a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio deve ser lida. O vídeo em que a ex-primeira-dama acusa o enteado de tê-la destratado foi lido como um golpe na já frágil relação do candidato com as eleitoras. Nos números de hoje, porém, há pouco o que derrubar. A base fiel não abandona Flávio Bolsonaro por isso, e as mulheres que já o rejeitavam não entram duas vezes na mesma conta. O custo do vídeo está adiante. Ele recai sobre as independentes que a campanha precisaria conquistar, e para quem o episódio confirma a imagem que as afastava.
A dificuldade de Flávio com as mulheres não é obra da ocasião. É a face atual da clivagem de gênero que Nicolau identificou, inaugurada em 2018 e consumada em 2022. Ela nasceu com Jair e se tornou patrimônio do campo que ele moldou à sua imagem. Flávio a herdou junto com o sobrenome. A Quaest de junho demonstra isso com os dados. Entre os homens, a disputa é apertada, 37% a 34%. Entre as mulheres, Lula tem 41% contra 24% de Flávio, 17 pontos de distância contra 10 no eleitorado geral. Como elas são 53% dos eleitores, é essa aritmética que sustenta a dianteira do presidente.
A primeira AtlasIntel/Bloomberg após a crise confirma a leitura. Os números de Flávio não desabaram com o vídeo; seguem no patamar baixo a que caíram após a revelação de suas conversas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Lula lidera o primeiro turno por quase dez pontos (46,3% a 36,6%) e o segundo por 6,5 (48,8% a 42,3%), depois de meses de empate técnico. Michelle tampouco emerge como alternativa. Testada no cenário de primeiro turno, perde de Lula por mais de 27 pontos. Ela poderia atenuar a desvantagem do enteado entre as mulheres, não eliminá-la. Mas agregar pouco não significa custar pouco. O que Michelle sustentava era exatamente o que Flávio não pode perder, o núcleo de eleitoras conservadoras e evangélicas que ela mobilizou à frente do PL Mulher, único segmento feminino que o candidato retém. O episódio, portanto, fere duas vezes: endurece um teto que já era baixo entre as independentes e, na base, ameaça o piso.
As motivações do voto revelam a assimetria entre os favoritos. Entre os eleitores de Lula, 80% votam por convicção. Entre os de Flávio, 22% votam apenas para evitar Lula, quase o dobro do observado com Jair em 2022. É um voto disponível, que pode migrar eventualmente para outra candidatura que encarnar também o antipetismo. O desafio de Flávio é converter rejeição em adesão; o de Lula, liderar sem entusiasmar.
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Resta a ironia que os dados desenham. O campo que disse que mulheres votam mal depende delas para vencer e tende a ser derrotado por elas. Não por vingança nem por consciência de gênero, leituras que o eleitorado feminino, heterogêneo como qualquer outro, não comporta. Mas pela realidade efetiva que Maquiavel mandava observar. As mulheres são 53% dos eleitores, predominam nas faixas de maior escolaridade, justamente as que mais comparecem às urnas, e são mais vulneráveis economicamente, o que as aproxima de agendas que o bolsonarismo desprezou. Decidiram 2022 e tudo indica que decidirão também em 2026. O resto é imaginação.