O Brasil produz craques. Mas produz equipes?
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Esther Cristina Pereira
Psicopedagoga, diretora de Educação do Instituto Destino Brasil
A Copa do Mundo sempre entrega muito mais do que futebol. De quatro em quatro anos, ela nos oferece também um retrato das sociedades que entram em campo. E, em alguns momentos, esse retrato se parece demais conosco.
O Brasil continua formando alguns dos jogadores mais talentosos do planeta. Eles brilham nos maiores clubes do mundo, encantam pela criatividade, pela técnica e pela capacidade de decidir partidas. Individualmente, poucos países conseguem reunir tantos atletas extraordinários.
Ainda assim, uma pergunta insiste em voltar: por que tantas vezes temos dificuldade para transformar grandes talentos em grandes equipes? Talvez essa não seja apenas uma questão da Seleção Brasileira. Talvez seja uma questão do próprio Brasil.
O brasileiro, individualmente, costuma impressionar. É criativo, resiliente, empreendedor e capaz de encontrar soluções onde muitos enxergam apenas obstáculos. Faz muito com pouco e, frequentemente, supera expectativas.
Mas construir uma equipe exige habilidades diferentes daquelas que fazem um indivíduo se destacar.
Exige colocar o objetivo coletivo acima do protagonismo pessoal. Exige disciplina, confiança e, principalmente, disposição para cumprir seu papel mesmo quando o reconhecimento ficará com outra pessoa. É justamente nesse ponto que parece residir um dos nossos maiores desafios.
Ao longo da vida, somos estimulados a competir. Aprendemos a buscar destaque, reconhecimento e resultados próprios. Mas aprendemos pouco sobre construir coletivamente.
Essa dificuldade aparece no futebol, mas está longe de se limitar aos gramados. Ela se manifesta nas empresas, nas escolas, nas instituições, nas associações, na política e até nas pequenas escolhas do cotidiano.
Em geral, cuidamos muito bem daquilo que é nosso. O problema começa quando algo pertence a todos. Ainda temos dificuldade em compreender que o patrimônio coletivo também é responsabilidade individual.
É por isso que atitudes aparentemente simples fazem tanta diferença: separar corretamente o lixo, não jogar resíduos pela janela do carro, conservar os espaços públicos, respeitar uma fila ou cumprir pequenas regras de convivência. Nenhuma dessas ações muda um país sozinha. Mas todas elas ajudam a construir algo indispensável para qualquer sociedade funcionar: confiança.
Talvez, seja essa a principal diferença entre sociedades que conseguem resultados coletivos consistentes e aquelas que permanecem dependentes de talentos individuais. Não é necessariamente uma questão de inteligência, criatividade ou capacidade. É uma questão de cultura colaborativa. É compreender que ninguém constrói sozinho aquilo que pertence a todos.
Uma equipe funciona quando cada integrante entende seu papel. Quando alguém corre para que outro faça o gol. Quando alguém protege para que outro apareça. Quando alguém abre mão do reconhecimento imediato em favor de um resultado maior.
Esse princípio vale para o futebol, mas vale igualmente para empresas, cidades, instituições e países.
O Brasil não sofre por falta de talento. Produz excelentes atletas, empresários, profissionais, pesquisadores e empreendedores. Talvez, o verdadeiro desafio das próximas décadas não seja formar pessoas ainda mais talentosas, mas aprender a transformar talentos individuais em força coletiva.
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Porque, no fim das contas, as grandes conquistas de uma sociedade nunca são obra de um único protagonista. São sempre o resultado de pessoas que compreenderam que prosperar, de verdade, é um esporte coletivo.