O terremoto na Venezuela e a antiga lição de Vitruvius
Com o avanço do conhecimento científico, a engenharia tornou-se um dos principais instrumentos de proteção coletiva desenvolvidos pela humanidade
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PEDRO DE MEDEIROS - Filósofo, engenheiro mecânico, pós-graduado em gestão de
pessoas e autor do livro “Escolhas – uma visão realista”
Firmitas, a capacidade de uma estrutura resistir e preservar vidas diante das adversidades. Há quase 2 mil anos, o arquiteto e engenheiro romano Vitruvius definiu esse princípio como um dos fundamentos da boa construção. Os terremotos ocorridos na Venezuela lembram que essa antiga lição continua atual: diante das forças da natureza, a principal função da engenharia nunca foi impressionar, mas proteger.
A história das cidades é, em grande medida, a história da tentativa humana de construir segurança em um mundo inseguro. Civilizações antigas ergueram muralhas, desenvolveram sistemas de drenagem e aperfeiçoaram técnicas construtivas para enfrentar ameaças naturais e humanas. Com o avanço do conhecimento científico, a engenharia tornou-se um dos principais instrumentos de proteção coletiva desenvolvidos pela humanidade.
Quando observamos países localizados em regiões de alto risco sísmico, essa função da engenharia torna-se evidente. Japão e Chile convivem há décadas com terremotos e conseguiram reduzir significativamente o número de vítimas por meio de normas técnicas, fiscalização e desenvolvimento tecnológico. Sistemas de isolamento sísmico, amortecedores estruturais e planejamento urbano transformaram fenômenos naturais inevitáveis em riscos administráveis.
O mesmo princípio se aplica a outros desastres naturais. A Holanda desenvolveu sistemas de contenção para enfrentar inundações, enquanto diversos países investem em mapeamento geológico, monitoramento climático e planejamento territorial para reduzir riscos previsíveis. Em todos esses casos, a engenharia não elimina a força da natureza, mas limita sua capacidade de produzir tragédias humanas.
O Brasil não convive com grandes terremotos, mas enfrenta outros desastres igualmente previsíveis. Enchentes, deslizamentos e ocupações urbanas em áreas de risco continuam produzindo perdas humanas recorrentes. Tragédias como as ocorridas em Petrópolis, São Sebastião e, mais recentemente, no Rio Grande do Sul demonstram que a ausência de planejamento, prevenção e aplicação do conhecimento da engenharia continua custando vidas.
A perspectiva de eventos climáticos extremos como El Niño torna essa discussão ainda mais urgente. A engenharia, a tecnologia e o planejamento urbano constituem sistemas de proteção coletiva capazes de preservar vidas.
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Desde Vitruvius, sabemos que construir também significa proteger. Cabe às lideranças políticas transformar o conhecimento técnico em políticas públicas, investimentos e fiscalização, garantindo que a engenharia cumpra sua função mais essencial: proteger a vida dos cidadãos.