Artigo

Cuidar de quem cuida é política de inclusão

Crianças autistas precisam de oportunidades reais para florescer, e suas famílias, de amparo para seguir firme e sustentar essa jornada

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BÁRBARA BOTEGA

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Ex-secretária de Cultura e Turismo de Minas Gerais

O debate sobre a inclusão de crianças autistas em espaços escolares e sociais avança. Legislações são aprimoradas, e a sociedade começa a reconhecer que a garantia de direitos não é uma concessão, mas um dever inegociável. Contudo, persiste uma pergunta que precisa ser respondida com ações práticas pelo poder público: quem cuida de quem cuida?

Por trás de cada criança autista, existe uma rede familiar exausta, frequentemente invisibilizada. Mães que abdicam de suas carreiras, pais que reestruturam jornadas, avós que assumem responsabilidades permanentes e irmãos que amadurecem sob o peso da resiliência precoce. É um cotidiano forjado entre terapias, crises sensoriais e uma luta diária e exaustiva por dignidade.

A verdadeira inclusão transcende a matrícula escolar ou a letra fria da lei. Ela exige infraestrutura, formação técnica e, sobretudo, suporte contínuo. Uma instituição inclusiva demanda docentes capacitados, adaptações pedagógicas precisas e uma cultura de acolhimento genuíno. Onde existe o constrangimento, não há inclusão. Se a família se sente apenas tolerada, o processo fracassa.

O tema exige prioridade em termos de políticas públicas. É necessário ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e às terapias multidisciplinares, além de instituir políticas de cuidado voltadas também aos familiares. Muitas famílias adoecem tentando garantir o tratamento dos filhos. Quando o cuidador colapsa, toda a rede desmorona.

Também é preciso enfrentar uma verdade desconfortável: há famílias que têm recursos e conseguem montar suporte privado suficiente, enquanto a maioria depende exclusivamente do sistema público e enfrentam filas intermináveis. Isso aprofunda desigualdades e condena crianças a perderem tempo precioso para o seu desenvolvimento.

A empatia, nesse caso, não deve se restringir a discursos enfáticos ou a ações pontuais. Ela precisa converter-se em orçamento, eficiência administrativa e compromisso institucional, para realmente atender aqueles que necessitam de cuidados especiais e também aqueles que cuidam.

Crianças autistas precisam de oportunidades reais para florescer, e suas famílias, de amparo para seguir firme e sustentar essa jornada. Nenhuma política pública será eficiente enquanto exigir, todos os dias, o heroísmo contínuo das famílias para que se sustente. E a sociedade, por sua vez, precisa amadurecer para compreender que a inclusão não é uma concessão, um favor ou um gesto de benevolência.

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Inclusão é um princípio fundamental de justiça, respeito e cidadania. Trata-se do reconhecimento de que todas as pessoas, independentemente de suas condições, características ou limitações, possuem igual dignidade e o mesmo direito de participar plenamente da vida social.

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