Corrupção sem cor partidária
A resposta institucional adequada exige equilíbrio. Nem blindagem para aliados nem condenação antecipada de adversários
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MARCELO AITH, Advogado criminalista. Doutorando em Estado de Derecho y Gobernanza Global pela Universidad de Salamanca - ESP. Mestre em Direito Penal pela PUC-SP. Latin Legum Magister (LL.M) em Direito Penal Econômico pelo Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa – IDP. Especialista em Blanqueo de Capitales pela Universidad de Salamanca
A nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, recoloca o caso Master no centro do debate público e institucional brasileiro. Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, além da imposição de medidas cautelares diversas da prisão, como suspensão de passaportes e proibição de contato entre investigados. Entre os alvos está o senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, ao lado do empresário Augusto Lima, ex-sócio do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A diligência não encerra a investigação nem autoriza qualquer juízo antecipado de culpa. Busca e apreensão constitui medida cautelar destinada à obtenção de provas e deve ser compreendida dentro dos limites constitucionais do devido processo legal. O senador Jaques Wagner nega ter atuado em favor do banco e, como qualquer investigado, tem assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência. O mesmo raciocínio vale para todos os demais nomes citados ao longo das apurações.
Ainda assim, a nona etapa da investigação produz um efeito político relevante. O caso deixa de ser percebido como um problema associado a determinado grupo ideológico e passa a revelar algo mais profundo: a possível existência de uma estrutura de influência capaz de transitar por diferentes correntes partidárias, governos e espaços de poder.
Esse talvez seja o aspecto mais preocupante das investigações em curso. O que emerge dos autos não é uma narrativa de corrupção vinculada à esquerda, à direita ou ao centro político. A hipótese investigativa aponta para um modelo de relacionamento entre interesses privados e agentes públicos que teria operado de forma transversal, adaptando-se às circunstâncias políticas e aproximando-se de quem detinha capacidade de decisão em cada momento.
Segundo a PF, investiga-se a possível prática de corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. As suspeitas envolvendo Jaques Wagner teriam surgido a partir da análise de mensagens extraídas do celular de Augusto Lima. Entre os temas mencionados nas apurações está a chamada Emenda Master, proposta que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito para determinados certificados de depósito bancário, além de iniciativas relacionadas à expansão do crédito consignado.
Quando uma mesma investigação alcança lideranças políticas de campos ideológicos distintos, a questão deixa de ser exclusivamente a eventual conduta de um parlamentar ou empresário. Surge a necessidade de examinar se havia uma lógica sistêmica de aproximação entre poder econômico e poder político. Em outras palavras, o foco passa a ser a existência de uma engrenagem institucional de influência.
Nesse contexto, a expressão “fábrica de corrupção” não deve ser compreendida como figura de linguagem vazia. Uma fábrica pressupõe método, repetição, organização e finalidade. As informações já tornadas públicas sugerem a hipótese de uma estrutura que buscava converter recursos financeiros em acesso privilegiado a centros decisórios, proteção regulatória, interlocução política e influência legislativa.
As investigações já mencionaram personagens de diferentes espectros políticos, entre eles Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro, Davi Alcolumbre, Cláudio Castro e, agora, Jaques Wagner. Em razão dessa característica multipartidária, o escândalo exige maturidade institucional. Não se trata de identificar vencedores ou derrotados no debate político, mas de apurar responsabilidades de forma objetiva.
A reação pública a casos dessa natureza costuma reproduzir um comportamento previsível. Quando a suspeita atinge adversários, prevalece o discurso moralizante. Quando alcança aliados, surgem acusações de perseguição ou instrumentalização das instituições. Nenhuma dessas posturas contribui para a busca da verdade. A corrupção profissionalizada não opera segundo critérios ideológicos. Seu objetivo é aproximar-se de quem exerce poder, independentemente da legenda partidária.
No plano jurídico, a eventual responsabilização criminal dependerá da demonstração individualizada das condutas. A amplitude política do caso não autoriza conclusões automáticas. Será necessário comprovar quem praticou cada ato, em que circunstâncias, com qual finalidade e mediante qual vantagem indevida. Esse é o pressuposto básico de qualquer processo penal compatível com o Estado de Direito.
Também merece atenção o papel da colaboração premiada. As propostas apresentadas por Daniel Vorcaro foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República sob o entendimento de que não continham elementos novos suficientes ou adequada corroboração probatória. A decisão reforça um princípio fundamental: delação não substitui prova. Ela constitui instrumento de investigação que somente adquire relevância quando acompanhada de documentos, registros financeiros, comunicações verificáveis e outros elementos independentes de confirmação.
A resposta institucional adequada exige equilíbrio. Nem blindagem para aliados nem condenação antecipada de adversários. A Polícia Federal, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal devem conduzir as apurações com rigor técnico, respeito às garantias constitucionais e fidelidade aos fatos. A credibilidade das instituições depende justamente da capacidade de aplicar os mesmos critérios a todos os envolvidos.
O Brasil possui uma longa experiência com escândalos que foram instrumentalizados politicamente ou, em sentido oposto, abafados em razão do poder dos investigados. O caso Master não pode seguir nenhum desses caminhos. A investigação precisa avançar onde a prova conduzir, independentemente dos nomes alcançados.
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Se os indícios atualmente sob apuração vierem a ser confirmados, o país estará diante de algo maior do que a crise de uma instituição financeira. Estará diante da revelação de uma engrenagem de influência capaz de atravessar fronteiras partidárias e de transformar relações entre mercado e Estado em mecanismo permanente de obtenção de vantagens. A operação dessa quinta-feira sugere que essa história ainda está longe de chegar ao seu capítulo final.