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LEITOR FALA SOBRE A correria moderna e a ‘ARTE DE ESQUECER’

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“Há quem diga que os aplicativos de transporte revolucionaram a mobilidade urbana. Talvez. Mas uma contribuição pouco reconhecida dessas plataformas foi a criação de um vasto e involuntário museu nacional dos objetos esquecidos. Todos os dias, milhares de passageiros entram em carros de aplicativo carregando a própria vida em sacolas, mochilas, bolsas e pensamentos. O problema é que, na hora de sair, parte dessa vida resolve permanecer no banco traseiro. Até certo ponto, tudo parece compreensível. Um celular esquecido conta uma história. Uma carteira também. Um guarda-chuva, então, nasce praticamente com vocação para desaparecer. Segundo levantamento divulgado por uma das plataformas do setor, passageiros conseguiram abandonar durante as viagens uma cartela com 60 ovos, três melancias inteiras e um barril de chope de 50 litros. Não se trata apenas de distração. É um compromisso quase artístico com o desapego. Imaginar a cena é inevitável. A pessoa chega em casa e, só algum tempo depois, percebe que as três melancias ficaram passeando pela cidade. Os eletrodomésticos também merecem destaque. Houve quem esquecesse liquidificador, cafeteira elétrica e até uma airfryer. Nem os objetos de valor sentimental escapam. Um passageiro deixou para trás um pé de galo que pertencia à avó. Outro esqueceu a parte inferior da dentadura. Um terceiro perdeu um dente recém-caído. A distração atingiu categorias profissionais conhecidas justamente pela atenção aos detalhes. Um piloto esqueceu o quepe. Um profissional da segurança deixou o cassetete. Atletas deixaram troféus. Se a memória fosse modalidade olímpica, alguns competidores estariam em situação delicada. Mas nada supera os objetos grandes. Porque esquecer uma chave é humano. Esquecer uma televisão de 55 polegadas exige planejamento. Um ventilador de pé também apareceu na lista. Não é fácil ignorar um equipamento que ocupa mais espaço do que alguns passageiros. Os campeões de desaparecimento continuam sendo os velhos conhecidos. Celulares, chaves, bolsas, mochilas, óculos e carteiras lideram o ranking nacional da distração. Eles formam a elite do esquecimento brasileiro, sempre presentes, sempre perdidos. No fundo, os carros de aplicativo se transformaram em testemunhas privilegiadas da correria moderna. A boa notícia é que recuperar um objeto perdido ficou mais fácil com os recursos disponíveis nos aplicativos. A má notícia é que, antes de procurar ajuda, é preciso lembrar exatamente o que foi esquecido.”

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GREGÓRIO JOSÉ - Belo Horizonte

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