A bola barrada na fronteira
Ao pleitear e aceitar sediar o maior torneio do planeta, um Estado assume o compromisso mínimo de garantir o livre trânsito de delegações, árbitros e imprensa
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A deportação sumária do árbitro somali Omar Artan, eleito o melhor do continente africano, no aeroporto de Miami é o símbolo de uma Copa do Mundo que começou a ser decidida nos guichês de imigração. Com visto válido no passaporte, Artan foi impedido de entrar nos Estados Unidos e cortado do torneio em uma decisão unilateral referendada sem resistência pela Fifa.
O episódio não é isolado. As últimas semanas acumulam constrangimentos diplomáticos: o interrogatório de sete horas imposto ao atacante iraquiano Aymen Hussein em Chicago, a negação de vistos para jornalistas africanos e asiáticos relatada pela Associação Internacional de Imprensa Esportiva. O que deveria ser um evento de integração global vai se transformando em um labirinto de vetos arbitrários.
O impacto dessa triagem compromete a equidade da competição. O Irã, que já havia tido a entrada de seus dirigentes barrada no sorteio dos grupos, viu sua federação perder a cota oficial de ingressos por imposição das autoridades americanas. Torcedores que haviam se planejado financeiramente para a viagem estão sendo punidos exclusivamente por sua nacionalidade. Haiti e Irã, nações atingidas pelo veto migratório assinado na era Trump, veem a isenção prometida a atletas esbarrar na intransigência burocrática. O torneio não oferece trégua: apenas espelha os bloqueios do país-sede.
Sob qualquer ótica, é inadmissível que um evento dessa magnitude opere sob tamanha imprevisibilidade. O silêncio da Fifa diante do governo americano contrasta de forma brutal com o histórico da entidade em outras sedes. Quando o torneio foi sediado no Brasil, na África do Sul ou no Catar, a federação exigiu mudanças em leis federais, impôs isenções fiscais bilionárias e estabeleceu exigências de acesso com mão de ferro, tudo sob o argumento de que as garantias da competição eram inegociáveis. Confrontada agora com o rigor unilateral das agências americanas, a mesma Fifa aceita passivamente que a política externa de Washington dite quem pode ou não pisar no gramado.
Não se discute o direito soberano de qualquer nação de proteger suas fronteiras. Contudo, ao pleitear e aceitar sediar o maior torneio do planeta, um Estado assume o compromisso mínimo de garantir o livre trânsito de delegações, árbitros e imprensa credenciada. A indisposição de honrar esse compromisso esvazia o propósito do Mundial. Aceitar que a imigração atue como filtro de nacionalidades é chancelar um retrocesso na governança do esporte global.
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O grande prejudicado não é o árbitro impedido de apitar nem o torcedor barrado na fronteira – é o esporte. A Copa do Mundo existe porque, por 90 minutos, a origem de um jogador não deveria importar mais do que o que ele faz com a bola. Quando um carimbo de imigração decide quem entra em campo, esse princípio deixa de ser ingenuidade para se tornar mentira.