Editorial

O Brasil precisa de um divisor de águas contra o câncer

Sem investimento maciço em inovação científica, prevenção e diagnóstico precoce, a realidade do câncer no Brasil seguirá limitada ao manejo da criticidade

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Marcos das ciências médicas têm, entre os principais efeitos, queda na mortalidade de pacientes e melhora da qualidade de vida. Alguns são tão expressivos que, ao romperem paradigmas, mudam também o rumo da humanidade. A descoberta da penicilina inaugurou a era dos antibióticos, revolucionando o manejo de infecções até então consideradas fatais. O mapeamento do genoma humano impulsionou a medicina personalizada e o diagnóstico precoce de doenças raras. Um estudo apresentado na sessão plenária do maior congresso de oncologia do mundo, na semana passada em Chicago, nos Estados Unidos, tem credenciais para entrar nessa seleta lista.

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Ovacionada por milhares de participante da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), a pesquisa, em fase final, promete ser uma virada de chave no tratamento do câncer de pâncreas, um dos tumores mais temidos devido à alta capacidade de disseminação e de resistência às terapêuticas disponíveis. O daraxonrasib chegou a proteínas da doença até então inacessíveis a medicamentos, reduzindo em 60% o risco de morte de pacientes com o câncer em estágio metastático e dobrando a sobrevida mediana, quando comparado aos resultados da melhor quimioterapia.

Como as mutações “indrogáveis” estão ligadas a outros tumores, de pulmão e colorretal, por exemplo, fala-se em avanços terapêuticos ainda mais abrangentes. O oncologista Igor Morbeck, que estava na plenária, definiu o estudo como um “divisor de águas muitíssimo importante”, ainda que haja limitações no acesso. Não se tem informações sobre quanto custará o tratamento e quando estará disponível. A agência reguladora dos Estados Unidos, onde a droga foi criada, a incluiu na lista da “fila rápida” para aprovação, mas a chegada a outros países tende a ser demorada.

Tratamentos que bloqueiam as mesmas proteínas, ainda que de forma mais limitada, custam em média R$ 90 mil por mês no Brasil. Portanto, não é exagero concluir que a revolução no tratamento do câncer de pâncreas será limitada por aqui – o gasto médio anual com pacientes oncológicos no SUS gira em torno de R$ 9 mil. Enquanto se aplaudem revoluções na Asco e se discute que cânceres são cada vez mais manejados como doenças crônicas – pelos avanços médicos–, o Brasil amarga número desenfreado de mortes e diagnósticos da doença.

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São descobertos todos os anos 781 mil novos casos no país – em média, 90 a cada hora. Desses, mais de 60% já estão avançados, com chances menores de um desfecho positivo. De cada 10 mortes em razão de tumores malignos, quatro seriam evitadas com mudanças de hábitos ou melhor acesso à assistência médica. Trata-se de um grande desafio em saúde pública. E é preciso romper paradigmas internos para mudar essa realidade. Sem investimento maciço em inovação científica, prevenção e diagnóstico precoce, a realidade do câncer no Brasil seguirá limitada ao manejo da criticidade. Não se avança. Equipes de saúde, pacientes e familiares estão, a todo tempo, lidando com as gravidades.

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