Na era da inteligência artificial, educar o humano é urgente
O futuro da educação talvez não esteja em escolher entre inovação ou humanismo. O verdadeiro desafio é formar pessoas capazes de unir ambos
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MÁRCIA NAVES - Diretora-geral da Fundação Torino
A inteligência artificial já escreve textos, cria imagens, organiza informações e automatiza tarefas que, até pouco tempo atrás, pareciam exclusivamente humanas. Diante desse cenário, uma pergunta atravessa escolas, famílias e equipes gestoras: em um mundo que delega cada vez mais às máquinas, que experiências humanas a escola se recusa a terceirizar? A resposta, acredito, está menos em competir com a tecnologia e mais em reconhecer o que está em jogo quando ela entra cedo demais e sem mediação na vida de crianças e adolescentes. É na educação básica que se forma a base neurológica, afetiva e cognitiva de tudo que vem depois – a capacidade de criar sentidos, interpretar contextos, estabelecer vínculos e imaginar futuros. Abrir mão desse tempo em nome da eficiência tecnológica não é modernizar a escola: é comprometer o alicerce.
O neurocientista Michel Desmurget, em “A fábrica de cretinos digitais” (2021), alerta que quando delegamos à máquina o que deveria ser exercitado pelo cérebro em formação, deixamos de construir as estruturas neurais que sustentam o pensamento complexo, a empatia e a autonomia. A tecnologia não é o problema – o problema é quando ela ocupa o lugar de experiências insubstituíveis: a escrita como processo de pensamento, a construção autoral de um argumento, a resolução de problemas com fricção e erro.
Edgar Morin, em sua obra “Os sete saberes necessários à educação do futuro” (2000), já nos advertia que a educação do século XXI não pode prescindir da compreensão da condição humana em toda a sua complexidade. Formar não é transmitir conteúdos – é cultivar a capacidade de lidar com a incerteza, de reconhecer a interdependência entre os saberes e de agir com responsabilidade diante do imprevisível. Para Morin, somos ao mesmo tempo seres biológicos, culturais, psíquicos e sociais; nenhuma tecnologia, por mais sofisticada que seja, dá conta dessa multidimensionalidade. Ao contrário, quando reduzimos o aprendizado à eficiência algorítmica, corremos o risco de formar sujeitos fragmentados – capazes de operar sistemas, mas incapazes de compreender a si mesmos e ao mundo que habitam. A complexidade que Morin defende como condição do pensamento, longe de ser um obstáculo pedagógico, é um convite a resistir às simplificações fáceis que a cultura da IA, mal conduzida, pode impor à escola.
Um estudo publicado na “Educação em revista” da UFMG reforça que o uso da IA na educação só faz sentido quando associado ao desenvolvimento de competências amplas – pensamento analítico, criatividade, resiliência, empatia e inteligência emocional – habilidades que não surgem do domínio tecnológico isolado, mas do contato com as artes, com a filosofia, com a literatura e, sobretudo, das experiências humanas compartilhadas. E quem viabiliza esse desenvolvimento, na prática, é o professor. Quando perguntamos aos nossos próprios estudantes sobre o uso da IA na escola, eles disseram o mesmo com uma precisão surpreendente. Um aluno do Liceo, que equivale ao ensino médio, recorreu a Platão para explicar o que a IA não substitui: “O professor pode motivar de uma forma que a IA não consegue. Para aprendermos, temos que gostar do mestre.” É o professor quem transforma a sala de aula em espaço de experiência coletiva – e é nesse espaço que se forma o estudante capaz de interpretar o mundo, não apenas navegar por ele.
A escola assume, por isso, uma responsabilidade ainda maior: ser um espaço onde tecnologia e humanismo dialoguem de forma ética e equilibrada. Aprender envolve o corpo inteiro – a voz, a mão, o olhar, o silêncio que precede a descoberta. Vygotsky nos lembra que o desenvolvimento cognitivo é indissociável da experiência social e sensorial: não aprendemos apenas com a mente, mas através do contato com o outro e com a linguagem viva entre pessoas presentes. Uma IA não conversa: ela responde. Nossos próprios estudantes intuíram essa diferença ao propor, como regra inegociável, “um momento de interpretação e tentativa autônoma antes de recorrer à IA” – reconhecendo que o esforço é o próprio mecanismo pelo qual o pensamento se forma.
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A inteligência artificial certamente continuará avançando, e isso não precisa ser motivo de medo. Mas é essencial lembrar – e repetir para nossas equipes, para as famílias, para os estudantes – que nenhuma tecnologia substitui aquilo que nasce da experiência humana: a capacidade de sonhar, de imaginar o que ainda não existe, de criar beleza, de produzir afeto e de transformar realidades. O futuro da educação talvez não esteja em escolher entre inovação ou humanismo. O verdadeiro desafio é formar pessoas capazes de unir ambos: utilizar a tecnologia sem renunciar à criatividade, à sensibilidade e ao pensamento crítico que nos tornam, justamente, humanos.